Sexo, Performances e Aplicativos

Publicado em: 14 de novembro de 2016

Por Átila Moreno*

Ilustrações: Miriam Kajiki e Camilo Martins

Foto: João Maciel

“As performances vêm para tirar o sexo dos recônditos do amor e distribuí-lo pelos laços afetivos de amizade. Vem acabar com essa história de que amor é um só, sexo é só com amor.”

“As palavras importam e elas estão atuando na constante construção. Palavra é performance. Então, um cuidado com o nick é uma atitude ética e política que você pode ter ali dentro.”

A coluna D&P com Átila Moreno chega para despir o colunista deste blog: Gleiton Matheus Bonfante. Se você acompanha a Flesh Mag, já notou que ele tem uma coluna mensal, junto de Ton Dutra, em que ambos falam sobre fetiches. Mas isso é outra história.

O nosso olhar safadinho agora é para seu novo livro “A Erótica dos Signos nos aplicativos de pegação: performances íntimo-espetaculares de si”.

O autor investigou os apps, instalados em celulares, para desvendar o que está por trás dessas novas formas de conexão. No final da entrevista inclusive você vai ficar por dentro de tudo que vai rolar no lançamento da obra!

E o nosso bate-papo foi muito além das páginas do livro. Aproveitei o instinto dissecador de Bonfante para falar sobre relações líquidas em tempos de internet, tecnologias, redes sociais, comportamento sexual, enfim, uma suruba de elucubrações. Saboreie com toda calma do mundo.

AM – O que te motivou a escrever sobre esse tema em A Erótica dos Signos?

GB – O fio condutor do meu livro foi a minha experiência, com certeza. Quando voltei da Alemanha, em 2011, os aplicativos tinham chegado ao Brasil. Na Europa, por incrível que pareça, isso não era muito famoso, porque eles tinham uma plataforma muito local que se chama Gay Romeo.

Eu fiquei encantado por essas tecnologias de aplicativos geossociais, que têm a localização como fator imprescindível e, que, ao mesmo tempo, são voltadas à sociabilidade.

Achei que a forma como as pessoas existiam ali não era necessariamente igual como na vida real. Eu via uma certa parassociabilidade.

E comecei a me interessar por quais recursos aquelas pessoas estavam empregando para estilizar a si mesmas, que tipo de códigos orientavam aquelas performances.

Quais eram, talvez, seus intuitos com a escolha de alguma performance, quais eram os discursos que estavam ali por trás, como os valores e a moral.

Acho que foram a minha curiosidade, a própria inserção nesse campo e a minha inserção como usuário mesmo.

AM – Explica o conceito por trás de performances íntimo-espetaculares que é o eixo de estudo da sua obra.

GB – Faço parte de uma corrente de pensamento que acredita que tudo existe na performance. Na verdade tudo é performance.

As pessoas geralmente pensam: a performance é uma encenação, é um teatro? É, mas, em que momento da nossa vida não é uma encenação? Em que momento da nossa vida, não é um teatro? Nós todos estamos envolvidos, constantemente, nas performances de nós mesmos.

Performance é mostrar-se. É apresentar-se como você é. Não tem como escapar dela. Quando você confessa com o padre, você está fazendo uma performance. Quando fala consigo mesmo, você está fazendo performance. Quando você limpa a sua bunda, isso é performance. Quando você veste um bebê com roupa azul, isso é uma performance de gênero. A performance permeia.

A gente só passa a existir por meio da performance. Nós só somos quem nós somos através do constante mostrar-se e do constante estilizar-se. A performance é uma constante estilização de si.

AM – E você poderia dar um exemplo disso dentro do universo dos apps?

A partir do momento que você entra num aplicativo, há uma performance ali. Um perfil é uma performance. Por exemplo, existem vários códigos e discursos que orientam as performances.

Você pode fazer uma performance machista, que valoriza o “macho”. Você pode fazer uma performance que valorize o diferente. Ali, no app, o desejo é performance.

Tudo que você deseja é uma performance. Você está mostrando, no ambiente online, o que você deseja e o que acha de atrativo.

As performances, que saltam no meu livro, são performances de desejo. Há quem performa o desejo por um cara sarado, por um homem negro, branco, gordo, magro, peludo ou pelado. Performa-se o desejo pelo cara inteligente, por práticas sexuais específicas como ser “enrabado”, “dar o cu”, “chupar uma pica”, “levar porra na cara”.

Performa-se o desejo por uma específica parte do corpo: gosto de bunda, gosto de pica, gosto de perna, gosto de braço.

Performa-se o desejo pelo sexo “quimicalizado”: sexo e drogas ao mesmo tempo.

Performa-se o desejo por não existir como objeto. O que acho que muitos perfis fakes fazem. Na medida que não se mostram ali, eles estão com o objetivo de existir de outra forma.

Os desejos que são analisados no livro são os mais diversos possíveis, justamente por que desejo não tem regra. E como desejo não tem regra, performance do desejo também não tem.

Ela é muito ampla. É de infinitas possibilidades. Isso é o que torna o livro interessante para todos os públicos, por exemplo, a performance de pegging, ou seja, a mulher que come menino; de cara que quer pagar para ter sexo; de homem que usa farda; etc.

AM – Essas performances íntimo-espetaculares trazem algum rompimento de paradigma? Se você pegar os primeiro aplicativos e redes sociais que surgiram, eles vieram com uma ideia quase de amor romântico, tipo encontre seu par perfeito.  Quando você olha para os aplicativos gays, a gente percebe que boa parte usa para foder, ter encontros casuais.

Isso é um fato bem interessante, porque, na real, o criador do Grindr, Joel Simkhai, falou que a ideia desse aplicativo não estava focada em encontros para foder. Na verdade, era para o cara conhecer alguém, ir tomar um café.

E, quando comecei a pesquisar, a minha teoria principal, é que o cruising (a pegação) nos lugares urbanos, tipo como ocorre em parques e banheiros, tinha se sofisticado a ponto de tornar esse contato mais fácil.

Eu mudei de ideia em relação a isso porque os apps são um território muito mais amplo, não é só putaria. Tem a galera que quer amor e tem um pessoal que vai achar o amor deles.

O interessante é que os códigos territoriais-gays-afetivos são menos “caga regra”. Tudo pode. Há uma permissividade muito maior. O cara que quer um namorado vai lá. O cara que quer dar só uma “fudidinha” vai lá também. Está todo mundo no mesmo lugar.

Claro que rola o mesmo moralismo que toca toda a sociedade, ou seja, o moralismo burguês, heterossexual, monogâmico, reprodutivo. Aquele moralismo que fala:  se guarde para o seu amor, o parceiro é um só, etc.  Longe de mim falar que isso é certo ou errado.

entrevista-gleiton-1

E a gente tem que pensar que esse não é o único jeito de existir. E, nesse sentido, os aplicativos são muito legais porque eles promovem a visibilidade de outras formas de atuar, outros roteiros de subjetividade. Outras formas de estar no mundo.

Por exemplo, a “fast-foda”, essa relação bem parecida com a pegação mesmo. Caracterizada por um envolvimento rápido, em que o sexo também é rápido, trazendo a maximização dos prazeres e a minimização dos esforços e dos ritos sociais. Quase uma purificação do sexo, extraindo-o das redes sociais.

As performances vêm para tirar o sexo dos recônditos do amor e distribuí-lo pelos laços afetivos de amizade. Vem acabar com essa história de que amor é um só, sexo é só com amor.

E tem várias performances que chamo de performances desidentificatórias, ou seja, elas são disruptivas. Elas vêm para combater várias mazelas sociais, possibilitando novas formas de ser. São performances que quebram por dentro o racismo, a pozfobia (o preconceito contra positivos) e a sissyfobia (contra afeminados).

AM – Há uma frase em uma ilustração do seu livro que exemplifica muito bem os tempos atuais: quem não é visto não é lembrado. O ser humano sempre gostou de se mostrar. Na recente cultura dos selfies, podemos afirmar que vivemos numa época de maior exibicionismo e voyeurismo já vistos na civilização? O que difere das outras época?

GB – Exibicionismo e voyeurismo estão no cerne na civilização ocidental. Não é uma coisa de agora. Não é uma novidade da nossa época. No entanto, alguns os estudiosos já trataram o espetáculo como forma de marketing, como o psicanalista Jurandir Costa Freire e o autor do livro “Sociedade do Espetáculo”, Guy Debord (1931-1994).

O que vejo hoje é que essa estratégia da performance do corpo espetacular, do sujeito espetacular, do corpo que tudo pode – do sujeito incrível, dotado, “bundudo”, “pirocudo” – é uma performance muito forte presente nos aplicativos.

Mas acho que não só ali. A performance do corpo sarado e do corpo sadio, isso que Jurandir Freire chamou de cultura somática, esse “trazer” do corpo para um centro da atenção humana, é uma coisa que a gente não tem como ignorar.

O que a gente pode refletir, por exemplo, na ciência, na sociedade, na Lei e em vários discursos da religião, é que o corpo foi deixado de lado, de forma excruciante, nos séculos anteriores. Ninguém pensou o Corpo.

Desde de René Descartes (1596-1650), pensava-se na ciência como um manifesto da razão e o corpo e suas sensações como apartados dela.

Na sociedade disciplinar, por exemplo, o corpo não poderia ser uma forma de experimentação. Para a religião, o que era importante era a alma. Uma utopia do corpo, como uma bolha de sabão. O corpo em si não era olhado.

Voltando à performance, nós somos o que nós performamos, mas esses efeitos perfomáticos são muito mais visíveis hoje em dia.

Acho que a gente consegue avaliar de um jeito muito mais intenso. Talvez por causa do avanço tecnológico. A gente tem pau de selfie que muda o ângulo das fotos e o celular que vem com uma câmera portátil e nos acompanha em todos os momentos.

AM – O surgimento das redes sociais.

GB – As redes sociais, com certeza, que nos coloca conectados o tempo todo. O próprio wi-fi. O avanço das formas de conectabilidade.

AM – A possibilidade de ter um avatar.

GB – A capacidade de existir online. É engraçado porque é uma existência que é tida como menos corpórea, mas, nos meus dados, ela não é assim.

É uma existência pulsante, que está ali, que afeta o seu corpo. Você não toca a pessoa, mas você provoca efeitos nela, você provoca sensação, excitação, gozo.

É muito louco isso. Acho que essas reações não fazem parte só dos aplicativos, mas, também, durante a exibição na cam e em outros códigos, na própria produção dos perfis.

E esses perfis adquirem corporalidade também, porque eles estão associados a um endereço de e-mail, eles têm uma foto, eles têm alguma coisa ali que começa a associar aqueles traços a uma personalidade, a um sujeito ali por trás.

Não é à toa que os perfis fakes causam, hoje, tanto incômodo. As pessoas se sentem incomodadas porque elas não tem como avaliar, nem como mensurar, aquela existência e aquela realidade.

15053154_10209974604497606_220706614_o

AM – Em um trecho do livro há uma frase bem interessante: “O capitalismo sempre foi o empreendimento da sedução, e está disposto a se pornificar para triunfar”. Até que ponto esse o ato de nos pornificarmos, ou seja, gravar nossas próprias transas, ejaculações, masturbações e revelar isso tudo na internet, emana de positivo e negativo?

A pornografia é um território de circulação restrita. Para quem é feita a pornografia? É para o homem, heterossexual, branco, classe média, que quer comer a “ninfetinha” ali. Isso tem se transformado, se modificado.

Houve uma invasão massiva do mundo gay na pornografia e há produções de pornografias muito diferentes, hoje em dia. Tem a pós-pornografia, estudada por várias pessoas interessantes, aqui, no Rio de Janeiro.

O que a auto-pornificação pode trazer é aquele corpo que não é idealizado, não é perfeito, não é liso, não é completamente conformado a padrões; e ela pode inventar esse corpo como se fosse desejável, como um corpo tesudo, que está ali aberto aos desejos, muito, embora, eles não se encaixem aos padrões estéticos esperados da sociedade.

Acredito que o desejo tem o poder de destruir paradigmas maléficos sociais como o preconceito contra afeminados, racismo, gordofobia, porque o desejo pode instituir mínimas características como desejáveis.

Ele não vai apagar o valor do seu corpo, mas, para o desejo, não existe um corpo melhor ou pior.

Talvez, todo desejo seja objetificador. Talvez a objetificação não seja necessariamente tão ruim. Todos nós objetificamos o tempo todo.

As performances nos aplicativos são um grande exemplo disso. Elas são basicamente performances fragmentárias.  

O sujeito se metonimiza. Ele mostra parte do seu corpo. Não se mostra inteiro. Essa metonímia do sujeito é uma forma de auto-objetificação. É uma forma de se colocar disponível ao desejo.

A auto-objetificação chama atenção para características específicas. Ao desejar isso, a gente traz a visibilidade, a desejabilidade, um poder social mais elevado e sujeitos que, talvez, fossem esquecidos pelo desejo. O desejo é democrático. Não existe um menos desejável do que o outro para o desejo. Tudo pode ser desejável. O filósofo Paul Preciado fala que o corpo é uma potência orgásmica. Qualquer corpo pode produzir orgasmo em outro corpo. Até mesmo o corpo morto.

Até mesmo o corpo de animal. Corpo de criança. Qualquer corpo que você imaginar. Todos os corpos são possíveis de produzir excitação em outro corpo. Alguns são barrados moralmente.

Tudo pode ser desejável. Tudo é desejável. Só depende de alguém que deseja. E, com certeza, existe. Te garanto que existe. Pode pensar na maior abominação de acordo com seus padrões, vai ter alguém que vai gostar.

AM – Concordo com você mas será que o desejo não é democrático somente, ali, naquele espaço? Quando a pornografia sai desse espaço marginal, a coisa toma outro teor. Ela não tem a mesma força. Encontra várias limitações aqui. E, muitas vezes, as pessoas atuam com um segundo papel lá.

GB – Isso é, na verdade, a crítica que tenho enfrentado de muitas pessoas também. Vou te dar um exemplo. Eu fui a uma palestra sobre racismo muito elucidativa. Cheguei a perguntar para os professores se eles achavam que o desejo tinha a capacidade de transformar realidades diferentes e possibilitar novos roteiros de existência, à medida que um corpo, que não é desejável, se torna desejável, se torna atraente, bem quisto, etc.

O professor me respondeu: o negão, no fim das contas, será sempre o negão, que é o cara pirocudo, aquele que você vai adorar foder, mas não vai apresentar para os seus pais. Ou quando a pessoa for apresentar para os amigos, ela vai falar que ele é doutor ou advogado.

Eu não concordo com isso. Os aplicativos evidenciam corpos tão diferentes que nos convidam a provar. E, nesse convite, ao provar esses corpos, que não são diferentes dos nossos, nota-se que a diferença estava na nossa objetificação daqueles corpos, na nossa construção, no nosso desejo por aqueles corpos.

Nisso, você começa a perceber que todo mundo é a mesma coisa. É claro que não estou falando: vamos todo mundo desejar e, assim, o mundo vai ser melhor, ou vamos todo mundo foder.

As coisas não são tão simples assim. O que eu vejo é potencialidade. Potencialidade de ruptura e de transformação na prática do desejo.

entrevista-gleiton-2

Quando você admite como desejoso o diferente de você mesmo, você admite que não só que você é desejante mas que o outro também é. Essa prática de vulnerabilidade tem o poder de empoderamento inacreditável.

Quando você deseja, não está, necessariamente, objetificando. Ou, talvez, até esteja. Mas você está desejando aquele outro mais que você.

Porque sexo é você abrir mão do seu prazer em detrimento do outro. O sexo é gozar em fruição, é fazer o outro gozar.

Eu vejo que desejo tem, sim, um potencial de mudança, não só na sua prática mas também na sua discussão.

Quando se discute desejos, a gente está querendo quebrar rótulos.O falar e o sentir desejo são estopim de mudança social.

AM – No livro, você pesquisou 70 perfis gays em 3 aplicativos mais usados na comunidade LGBT. Como foi atuar como pesquisador e etnógrafo, sendo também gay, e tendo que estar como você mesmo afirmou “nu no campo”?

GB – Os maiores pudores ali eram meus. No começo, tive dificuldade de estar nu no campo. Nunca criei uma paraidentidade. Meu nome estava lá. Me identifiquei como pesquisador. Nunca escondi quem eu era, inclusive, as pessoas já me identificavam do Facebook, da festa ou da rua.

O que foi mais difícil, a parte que me senti mais nu, foi me desviar de cantadas que não me interessavam. E, como passei muito tempo online, tinha hora que não aguentava mais. Mas, também, tinha cara que me atraía.

Foi meio transtornante, pelo fato de ficar sem dormir algumas noites ou com medo de ser tachado de amoral, de anticientífico, de não científico suficiente.

Mas fiz muita leitura sobre isso. Esse paradigma de pesquisador celibatário, que não tem corpo, que não se insere nesse mundo, é uma coisa que já está rebatida, bem discutida, pelo menos, desde 1996, com lançamento do livro “Tabu”. É uma coletânea de artigos etnográficos que fala de desejo e envolvimento sexual dos pesquisadores.

E, muito antes disso, recuperaram os diários sexuais de um dos fundadores da etnografia mais conservadora: Bronisław Kasper Malinowski (1884-1942).

O material foi escrito na década de 1920 e 30, durante as visitas nas tribos que ele pesquisou. Isso chegou a ser publicado na mídia e virou livro.

E, desde então, o maior defensor ferrenho da ida ao campo, da observação neutra e etnográfica, se deixou ver como um sujeito nu no campo, mas, na verdade, não porque ele quis.

Então, às vezes, acho que é assustador para todos nós. Mas acho que é um susto necessário para gente experienciar a posição dos nossos interlocutores. Acho que, sem essa experiência, talvez, eu teria sido menos cuidadoso com os meus amigos, colegas e amantes que contribuíram com a pesquisa.

AM – No início do seu livro, você faz um agradecimento aos participantes da sua pesquisa. Todos eles têm nicknames usados, principalmente, com destaque para palavras como: ativo, macho, hetero, passivo, gordo, dentre tantos outros. Não há também uma certa linguagem hostil nesse universo do app que acaba sendo indiretamente destinada aos afeminados, gordos, transgênero e quem mais não se enquadrar numa certa norma?

GB – Primeiro, vou falar com usuário, não como pesquisador: não existe coisa mais “anti-sensual” do que uma pessoa listar os seus dislikes.  Acho isso a coisa mais broxante que já vi em qualquer tipo de aplicativo.

As palavras importam e elas estão atuando na constante construção. Palavra é performance. Então, um cuidado com o nick é uma atitude ética e política que você pode ter ali dentro.

É claro que você vê coisa absurdas. Eu também quis trazer para discussão esse tipo de comportamento que acho que é danoso e violento, porque uma violência simbólica e discursiva é uma violência como todas as outras.

Todos nós estamos envolvidos no compromisso ético de nos construirmos online como sujeitos que se respeitam.  E, com certeza, a performance de si é um locus de violência contra o outro.

E, muitas vezes, é por meio dessa violência contra o outro que você produz a si mesmo com sensual, como desejante, como desejável. Então, acho que tem essa ambivalência que é típica dali. Infelizmente, isso ocorre com certeza.

AM – Mas você não acha que por ser um app gay não era pra gente ter isso logo ali. Ainda mais uma comunidade LGBT que sofre esse tipo de preconceito na escola, por exemplo?

GB – Nossa moral é um pouco mais afrouxada porque não tem necessidade de ficar cagando regra. Por outro lado, a homoafetividade masculina emana um dos códigos e um dos discursos que mais tentam coibir o corpo masculino.

Nós, gays, vivemos uma pressão tão grande, como das mulheres, de performamos de uma forma saudável, sarada, lias, sem pelo, etc.

A Judith Buttler diz que isso ocorre porque a matriz de desejabilidade que a gente segue vem de um código heterossexual. Mas o desejar tem o poder de implodir toda essa norma que está aí e trazer outras formas de existência para o mundo.

AM – Por outro lado, os nicknames, usados pelos transgêneros, tem um lado positivo, não é?

GB – Então, as performances que chamo de desdentificatórias, elas vêm, na verdade, quebrar uma performance por dentro. Quebrar uma moralidade, um código, um discurso.

Elas se apropriam de performances específicas e as resignificam. Transformando-as de modo que se permitam criar outros roteiros de ser.

Tem um perfil que gosto muito, que é o Florzinha. O nick dele é cor de rosa. Usando toda morfologia delicada e sensível. Até falo no livro:

“Quem diria, a Florzinha é a erva daninha no jardim dos machos”.

Tem o perfil do Neg_, que é um cara negro, em que ele coloca só uma foto do olho. Ele fala: um cara normal que não gosta de clichês sobre negões. Só essa foto já acho que é uma estilização muito interessante como uma forma de resistência, como uma forma de resignificar aquele corpo negro, lançado à objetificação, a outras formas de opressão.

Ali, ele se constrói como um voyeur, como alguém que está olhando, que está consumindo performance. Ele nem mostra o próprio corpo. Nesta performance, ele acaba construindo um corpo diferente, que não está ali para ser olhado e, sim, para olhar, para consumir.

AM – Ainda dentro desse assunto, queria discutir contigo aqui algo que vai muito de encontro com o tema do seu livro. O russo Mischa Badasyan, radicado em Berlim, se dedicou a um projeto em que ele transou com vários homens diferentes durante 365 dias. O projeto, chamado de Save the Date, segundo ele, tem o objetivo de refletir sobre o consumo de sexo fácil em aplicativos. E ele diz ter odiado: “não gostei dos encontros, não gostei do sexo, não gostei de nada”. Você consegue determinar, mesmo que seja uma hipótese, pra onde, nós, gays, estamos caminhando? Seu livro pode ser uma bússola no meio disso tudo?

Com certeza, a ideia do livro é discutir onde estamos e vislumbrar formas de ser futuras, éticas e comprometidas com a transformação e com o benefício social.

A pesquisa não existe sem o engajamento para melhora social, por isso, olhei para o agora. Olhei para contemporaneidade gritante, que está em constante mudança. Então, pode ser que, daqui a dois anos, a gente olhe o livro e pense: poxa, não é mais assim. Talvez. Não acho que vai ser uma mudança tão rápida.

O mais interessante, ali, é justamente a gente poder refletir sobre isso e refletir sobre o que é esse agora. Refletir sobre possíveis caminhos no futuro e sobre performances que já assumimos ou aderimos antes. Eu confio na reflexão. Não acho que é só o desejo, mas o pensamento, também, é uma forma de transformação social.

Lançamento do livro

Data: 14/11/2016

Horário: 19h

Local: Bistrô Multifoco – Rua Mem de Sá, número 126, Centro – Rio de Janeiro.

*Átila Moreno é jornalista, com passagem pela TV Globo Minas, TV UFMG, Infoglobo e Universidade Corporativa do Transporte. É editor-chefe de conteúdo deste blog e escreve mensalmente para a Flesh-Mag.