Sexo & cinema: o gozo que transborda além da tela

Publicado em: 8 de julho de 2016

Átila Moreno*

 

“O Brasil, ainda que seja um país pornô, vive, de modo geral, um pânico do orgasmo e dos prazeres explícitos, reiterando tabus, machismo e homofobia, infelizmente. Mas creio na potência do empoderamento que estamos construindo contra tais normativas. Pois censurar o sexo é o primeiro passo para censurar tudo.”

 

A coluna “D&P com Átila Moreno” traz, para os holofotes, a sétima arte num momento tão sem vergonha e nunca visto na história desse país. Sem cortes, sem pudor e sem censura para falar de sexo, obscenidade e indústria pornográfica por meio dos olhos de um: voyeur acadêmico.

 

Nada melhor que chamar alguém que estudou a fundo uma suruba de referências. Rodrigo Gerace é autor do livro Cinema Explícito – Representações Cinematográficas do Sexo (Ed. Perspectiva/Sesc, 2016). Resultado de sua tese de doutorado pela UFMG e pela Universidade Nova de Lisboa.

 

Saboreie, com toda calma do mundo, e permita-se observar, pelo glory hole, o bate-papo com o pesquisador, curador, crítico e professor. Ah, e não deixe de bisbilhotar a nossa dica, pra lá de sexy, ao longo dessa entrevista.

 

AM – Como surgiu seu interesse em pesquisar essa temática?

 

Quis entender a função política da obscenidade na história do cinema a partir de questionamentos: o que é sexo? O que é obsceno? O que é explícito? De onde vem o (falso) binarismo entre pornografia e erotismo? Como o cinema adere ou subverte discursos morais sobre o sexo em linguagem cinematográfica?

 

Percebi que em cada período e sociedade, a abordagem sexual teve diversas manifestações, interdições, censuras, transgressões. Mergulhei no esconderijo da pornografia para verificar como o efeito obsceno ancorou-se diante do status moral das sociedades.

 

Em cada momento, isto ou aquilo foi tido como obsceno, pois obscenidade é um critério cultural, mutante de acordo com as normativas e transgressões diante do sexo, do corpo e das sexualidades. Um beijo na boca, por exemplo, já foi tido como pornográfico no cinema mudo.

 

Minha grande inquietação foi investigar as dimensões políticas e simbólicas em torno da ideia de erótico, pornográfico e obsceno, do cinema mudo ao contemporâneo.

 

Recorri aos primeiros filmes pornográficos (desde 1905), ao cinema experimental e de vanguarda, depois investiguei o underground norte-americano, as pornochanchadas e o cinema marginal brasileiro. Mirei o new queer cinema e as pornografias alternativas (post porn) para chegar na estilização do sexo explícito no cinema de autor contemporâneo.

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“Ora, todos fazemos sexo explícito, mas temos a impressão de que não é a mesma coisa quando o comparamos ao sexo do cinema pornográfico.”

 

AM – Encontrou alguma dificuldade ao abordar esse assunto durante a pesquisa?

 

Sim. Sexo e pornografia ainda são fantasmas tanto nas Universidades como na história do cinema. Sempre que aparece, o assunto deflagra tabus e moralismos. Geralmente os estudos privilegiam o “erotismo” dentro de uma retórica elitista.

 

No senso comum, a pornografia não é apenas o sexo explícito, mas também o sexo dos outros, o popular, o massificado; enquanto que o erotismo é tido como algo sofisticado, dramático, não ameaçador. Ora, todos fazemos sexo explícito, mas temos a impressão de que não é a mesma coisa quando o comparamos ao sexo do cinema pornográfico.

 

“Ouvi comentários do tipo ‘você só pesquisa putaria’ de gente que se diz transgressora e hypada… como se ‘putaria’, ou seja lá o que isso signifique, fosse de menor importância. Estudar pornografia é tão político quanto estudar o Cinema Novo.”

 

Também tive dificuldade em acessar a bibliografia temática. Na época em que iniciei a pesquisa, em 2005, tive que importar muitos livros e filmes da Europa e EUA, onde há várias linhas de pesquisa dos porn studies: Linda Williams, Lynn Hunt, Thomas Waugh, Paul Beatriz Preciado, Roman Gubern, Richard Dyer, Ramón Freixas, etc.

 

Em cinematecas, foi difícil encontrar arquivos pornográficos, principalmente os do cinema mudo, que acabei tendo mais contato em Museus de Sexo e Erotismo pela Europa.

 

No Brasil, ancorei-me muito nos estudos sobre pornografia de Nuno César Abreu, Jorge Leite Jr, Eliane Robert Moraes, pioneiros nos estudos acadêmicos sobre o assunto.

 

Ainda há na academia um olhar “torto” com relação ao gênero pornográfico, sendo atribuído como um estudo menor. Ouvi comentários do tipo “você só pesquisa putaria” de gente que se diz transgressora e hypada… como se “putaria”, ou seja lá o que isso signifique, fosse de menor importância. Estudar pornografia é tão político quanto estudar o Cinema Novo.

 

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“Assim, o sexo em si não é obsceno, só passa a sê-lo diante de uma ressonância moral. A ideia de obsceno para o Zé Celso é uma, para um pastor evangélico é outra.”

 

 

AM – Diz o ditado que a maldade está nos olhos de quem vê. A obscenidade está nos olhos de quem assiste à cena de sexo nos filmes?

 

A obscenidade é cultural, uma convenção, já dizia Susan Sontag. Isto significa que não existe nada de obsceno em si. Esta valoração do obsceno como escândalo ou transgressão só faz sentido quando aliada a um contexto moral.

 

O “efeito obsceno” só reverbera quando colocado em cena e em algum contexto específico, já que, do latim, obsceno é aquilo que deveria estar fora de cena (por ferir o pudor).

 

Para os pesquisadores Ramon Freixas e Joan Bassa “é o olhar que torna uma obra obscena, e não a obra em si mesma. Dito de outra maneira, tudo gira ao redor daquilo que se vê (ou se quer ver) e não daquilo que se mostra”.

 

Assim, o sexo em si não é obsceno, só passa a sê-lo diante de uma ressonância moral. A ideia de obsceno para o Zé Celso é uma, para um pastor evangélico é outra.

 

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AM – Por que há essa distinção, nem que seja no senso comum, entre pornografia e erotismo no cinema? Essa aparente dualidade não acaba por categorizar demais e, ainda, limitar a sexualidade para o espectador?

 

Na construção histórica da sexualidade sempre houve o esforço, especialmente pelo poder médico-legal e religioso, em categorizar o não-categorizável: o desejo e sua expressão nas sexualidades.

 

O cinema também aderiu a esta normativa de classificação, principalmente após os anos de 1960, numa tentativa de organizar isso ou aquilo como erótico ou pornográfico, soft ou hardcore. Tudo isso são criações culturais para engavetar a expressão do desejo, que é livre.

 

Tais pólos são falsos, simbólicos, construídos a partir dos critérios de ordenação e transgressão do obsceno nas sociedades e na industria cinematográfica.

 

Embora etimologicamente distintos, erotismo e pornografia versam sobre a mesma coisa: prazeres e o desejo sexual. Ambos são critérios subjetivos, morais.

 

O esforço em delimitar a configuração visual do sexo em erótica ou pornográfica também é o desejo de limitar a pluralidade da expressão sexual, de categorizá-la em gavetas normativas.

 

 

 

 

AM – Na sua opinião, quais são os principais filmes determinantes para uma mudança de percepção ou de comportamento em relação aos tabus sexuais?

 

Garganta Profunda (1972), de Gerard Damiano, subverteu a narrativa pornográfica tradicional em uma trama que levou ficção e dilemas dramáticos ao universo pornô. Aparecia então o lema “pornô com história”.

 

O filme foi relevante pela discussão sexual que trouxe à época, de modo aberto, sobre virgindade, orgasmo, liberação sexual, feminismo.

 

O império dos Sentidos (1976), de Nagisa Oshima, foi marcante por trazer a estilização pornográfica ao grande público.

 

Nele, o sexo aparecia explícito como mote dramático para versar sobre uma paixão obsessiva. Foi inovador por apresentar uma outra forma de representar o sexo explícito, confinado na época ao nicho da pornografia tradicional. Com isso, o filme levantou toda uma discussão sobre o sexo explícito no cinema de arte.

 

Obras do “cinema de transgressão” e clássicos também foram importantes para questionamentos morais, como os filmes de Kenneth Anger, Jean Genet, Pasolini, Fassbinder, Barbara Hammer; as obras experimentais de Stan Brakhage, Carolee Schneemann, Agnes Vardá; além de contemporâneos como Lars Von Trier, Gregg Araki, Pedro Almodóvar, Catherine Breillat, John Cameron Mitchell, Bruce LaBruce; as produções do New queer cinema (Paris is Burning  é essencial), do cinema marginal (o ótimo Copacabana Mon Amour, de Rogério Sganzerla; filmes do Bressane e Carlos Reichenbach), entre tantos outros.

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“Desde os anos de 1990, após a onda conservadora que moralizou o cinema, com o advento da AIDS, muitos filmes têm enfrentado o moralismo evangelizador do desejo com uma militância política explícita.”

 

AM – Hoje em dia existe alguma transgressão sexual no cinema?

 

Existem várias produções que apresentam novas formas de encarar e representar o sexo para além daquelas imagens já legitimadas pelo mainstream.

 

Desde os anos de 1990, após a onda conservadora que moralizou o cinema, com o advento da AIDS, muitos filmes têm enfrentado o moralismo evangelizador do desejo com uma militância política explícita.

 

Do New Queer Cinema, que empoderou estereótipos considerados incômodos, às obras do cinema independente, as cinematografias trazem novas imagens de visibilidade do sexo, gênero e identidade com propósitos narrativos distintos daqueles comuns ao mainstream.

 

No Brasil, o Coletivo Surto e Deslumbramento tem feito um trabalho provocativo interessante; o SSEXBOXX também, com curtas e docs queer de empoderamento e discussão sexual.  Além de filmes de cineastas como Karim Ainouz e Hilton Lacerda, e todo um circuito de cineastas independentes que ousam em estéticas e abordagens.

 

A post pornografia, aliada às tendências dos porn studies e do pornô feminista, também tem apresentado obras que reapropriam os discursos marginais e as sexualidades marginalizadas.

 

O cineasta Bruce LaBruce, que gosto muito, mentor do queercore, produz longas que transgridem tanto a hetero como a homonormatividade. Seu cinema é radical.

 

Para Labruce, pornografia é aparato político para contestação do status quo contemporâneo. Temos ainda projetos interessantes de Antonio da Silva, Travis Matthews, Erika Lust, etc.

 

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Foto: Rodrigo Gerace por ele mesmo.

 

“O  mainstream, normatiza a forma de se fazer sexo, representando-o de modo chapado, numa lógica que sublima as cenas de sexo, cortando-as para o café da manhã ou dotando-as de culpa e riso.”

 

AM – Você, Rodrigo Gerace, chega a se escandalizar com alguma cena de sexo nos filmes?

 

Só fico horrorizado quando surge algum filme tido como “hypado” pela mídia, aparentemente “transgressor”, mas que no fundo é bem reacionário, cheio de preconceitos, homofobia, misoginia, machismo, etc. Bem no estilo Gaspar Noé, que detesto, ou do longa A Serbian Movie.

 

AM – Há alguma explicação para o mainstream não dar respaldo ou crédito artístico ao gênero pornográfico? Por que isso encontra ressonância no circuito mais alternativo?

 

O olhar pornô diante do mundo foi melhor aceito no underground, no circuito independente e autoral, que percebe o obsceno não apenas como estilística, mas como linguagem.

 

Neste cinema, sexo não é tabu, é espaço de prazer, subversão e contradisciplina sexual (e alusão à Paul B. Preciado). Já o cinema mainstream, normatiza a forma de se fazer sexo, representando-o de modo chapado, numa lógica que sublima as cenas de sexo, cortando-as para o café da manhã ou dotando-as de culpa e riso.

 

“O pau mole é subversivo, pois desmistifica o imperativo do pau duro, comum às pornografias e às normativas da excitação explícita. E, ainda que o pau mole seja a promessa do pau duro, representá-lo em contexto dramático é deixá-lo em suspense, na ambiguidade do tesão e da tensão.”

 

AM – “Azul é a cor mais quente”, de Abdellatif Kechiche, e “Ninfomaníaca”, de Lars Von Trier, foram lançados quase na mesma época. São filmes atuais que, de certa forma, ganharam um destaque na mídia, devido à resposta do público em relação às cenas de sexo. Por que as pessoas ainda ficam chocadas e chegam a sair do cinema por causa de filmes desse tipo?

 

As pessoas se incomodam com representações explícitas porque elas apresentam o sexo fora de uma esfera burguesa da privacidade, da intimidade e restrição. Quando isso é mostrado em um filme de ficção, o público entra em desespero numa tentativa de ordenar àquelas imagens sexuais dentro de um novo contexto não necessariamente pornográfico.

O segredo de Brokeback Moutain, Praia do Futuro, O AntiCristo, também sofreram vetos reacionários de algumas redes de cinema. Azul é a cor mais quente, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes, foi considerado um filme “pornográfico” por conter sexo explícito pela distribuidora brasileira Sonopress, que se recusou a lançá-lo em BluRay. A mesma empresa difunde filmes de violência explícita, sem qualquer valor humano.

Na França, o filme recebeu uma denúncia da Promouvoir, associação católica ligada à extrema direita do país, que solicitou à Justiça a retirada de circulação do filme, seguida da alteração da recomendação etária para 18 anos.

O Brasil, ainda que seja um país pornô, vive, de modo geral, um pânico do orgasmo e dos prazeres explícitos, reiterando tabus, machismo e homofobia, infelizmente. Mas creio na potência do empoderamento que estamos construindo contra tais normativas. Pois censurar o sexo é o primeiro passo para censurar tudo. Seguimos então na luta contra a evangelização do desejo.

 

AM – Por outro lado, obras como “50 Tons de Cinza”, de Sam Taylor Wood, adaptação para o cinema do livro homônimo, até que tenta sair pela tangente no mainstream. Mesmo assim, nota-se uma certa barreira em mostrar o nu masculino nos filmes.  É uma vertente que perdura há anos, talvez soa até machista como se as mulheres não gostassem de ver homens pelados nos filmes. É isso que dá dinheiro atualmente para os produtores de Hollywood no quesito sexo “aceitável”? Estamos (ou continuamos) numa época mais careta?

 

Estas produções eróticas, estilo Emanuelle e 50 tons de cinza, mesmo falocêntricas, têm pânico do nu frontal dos homens. Pois o pau em cena tensiona a imaginação pornográfica: ele vai ficar duro? Como se algo de inesperado ou espontâneo pudesse acontecer.

É curioso notar que o pau mole é raro em filmes explícitos; eles preferem a adesão falocrática do fetiche da ereção.

Nesse sentido, o pau mole é subversivo, pois desmistifica o imperativo do pau duro, comum às pornografias e às normativas da excitação explícita.

E, ainda que o pau mole seja a promessa do pau duro, representá-lo em contexto dramático é deixá-lo em suspense, na ambiguidade do tesão e da tensão. Essa premissa foi bem trabalhada pelo indie Um estranho no lago, que gosto bastante.

 

 

AM – Seu livro aponta que, nos anos 80, o cinema pornô começa a entrar em decadência, principalmente, as salas de exibição, devido ao advento do videocassete. Hoje, vimos que a indústria pornográfica rasteja para sobreviver na era digital. Sites como Xvideos, Pornhube, etc, tiraram o protagonismo de antigas mídias na hora de “vender” sexo atualmente. Temos hoje a expressão “manda nudes” bem popular nas redes sociais e até mesmo os vídeos caseiros íntimos feitos por internautas. Que impacto isso trouxe para a nossa percepção sobre nudez e sexo vistos nas telonas, ou seja, na sétima arte? A nossa forma de lidar com o sexo está passando por mudanças?

Mandar nudes, mais que modismo, também é uma forma recente de abertura sexual, da visibilidade de corpos e de si mesmo. A internet revolucionou a forma de encarar e representar o sexo.

Há sexo online em chat e webcam; há encontros por apps; há tudo no domínio banda larga ou mesmo na deepweb. Basta uma boa conexão. Esta tecnologia permite que as pessoas façam seus próprios filmes, de modo caseiro e espontâneo, gravado ou ao vivo.

Evidente que há também muitas normativas e categorias que vão sendo criadas (pornô amador, em público, ao vivo, com pagamento de taxas, etc) – sempre numa tentativa de organizar a expressão visual do desejo.

É curioso que, cada vez mais, o sexo via aparato virtual dá a impressão de experiência mais intensa, “real”, “verdadeira”. O culto ao amador e ao flagra transparece maior “verdade”, como se aquele sexo visto na webcam fosse mais “real” que o sexo pornográfico.

Não somente pela estética borrada, espontânea, mas também por destruir as convenções do pornô tradicional. Permitir borruras estético-narrativas na representação sexual pode ser mais excitante e próxima do real (para a fantasia de quem observa) do que a assepsia estética regulamentada.

Não dá pra generalizar, mas penso que nossa forma de lidar com o sexo está mais despudorada, tanto que os nudes espontâneos derrubam quaisquer moralismos das revistas tradicionais de nudez.

Projetos interessantes no Brasil focam o nu masculino, da fotografia (Chicos, Flesh Mag, entre outros) ao cinema. O cinema – de modo geral – também está mais explícito e plural e abordando temas tabus, do sexo às sexualidades, das identidades aos variados gêneros.

A noção de “sexo” tem tido camadas cada vez mais políticas. Lembrando que “sexo’ não é somente uma prática, mas todo um discurso, já dizia Foucault. Contudo, vale ressaltar, que nem sempre representação significa representatividade. Para isso são necessários meios políticos que angariem direitos humanos efetivos.

Agenda: no dia 16 de julho, Rodrigo Gerace fará sessão comentada durante a exibição de filmes sobre o tema de sua pesquisa, aqui mesmo, no Rio de Janeiro. Faça sua inscrição gratuita em Rio Festival de Gênero e Sexualidade no Cinema 2016.  

*ÁTILA MORENO É JORNALISTA, COM PASSAGEM PELA TV GLOBO MINAS, TV UFMG, INFOGLOBO E UNIVERSIDADE CORPORATIVA DO TRANSPORTE. É EDITOR-CHEFE DE CONTEÚDO DESTE BLOG E ESCREVE MENSALMENTE PARA A FLESH-MAG.