Queer?

Publicado em: 28 de outubro de 2016

“Uma mulher que come o cu do marido, com um dildo acoplado em uma cinta, pode ser considerada queer, mesmo que se defina como heterossexual, já que penetra o corpo do homem que, segundo normas sociais restritas de intercurso heterossexual, deveria ser o penetrador.”

*Vitor Grunvald

Como sempre, impossível falar de tudo sobre um tema. Muita coisa fundamental acaba ficando de fora, por isso vamos iniciar uma série de textos sobre o assunto no blog da Flesh.

As ideias que eu coloco aqui são mais provocações. Palavra, aliás, muito apropriada para falar sobre essas inapropriadas que o queer, seja lá o que for, pretende designar.

O dicionário Oxford descreve queer como estranho ou fora do comum. Podemos também adicionar adjetivos como esquisito e excêntrico. Como substantivo, o dicionário diz que a palavra significa homossexual. Mas, aí, já começam as confusões, no sentido etimológico da palavra: con-fusões, mistura, algo juntado, reunido.

Historicamente, os homossexuais (masculinos, como reforça o dicionário) foram alvo do tipo de acusação que pesa sobre uma pessoa apontada como queer, ou mesmo interpelada, para usar um vocabulário conhecido dxs estudiosxs de Jacques Derrida (1930-2004).

Mas, no sentido do qual tento me aproximar e no sentido utilizado por muitxs que reivindicam essa palavra hoje em dia, ela está longe de ser GGG (gay, gay, gaaaaay), tentando alcançar, de forma tanto mais pungente quanto abrangente, as pessoas LBTTTIA (lésbicas, bissexuais, travestis, transexuais, transgênerxs, intersexo/intersexuais, assexuais).  E, de fato, qualquer pessoa com práticas sexuais e de gênero dissidentes. Talvez, até mesmo, pessoas marcadas por outras dissidências não necessariamente relacionadas ao gênero ou sexualidade, mas essa discussão deixo para uma outra hora.

“A palavra queer teria, então, esse potencial de colocar juntas, isto é, de con-fundir pessoas que estavam separadas. Essa é, aliás, uma das apostas políticas do termo: a expectativa de que ele fosse capaz de produzir alianças políticas entre pessoas fora da norma, fora da caixinha ordenada pela lógica cisheteronormativa.”

Assim sendo, uma mulher que come o cu do marido, com um dildo acoplado em uma cinta, pode ser considerada queer, mesmo que se defina como heterossexual, já que penetra o corpo do homem que, segundo normas sociais restritas de intercurso heterossexual, deveria ser o penetrador.

No que diz respeito à ética, o queer também indica uma apropriação positiva de um termo que é visto como pejorativo. Muitas pessoas, que passaram a utilizar essa palavra para autodeterminar sua existência, reivindicaram para si o poder de definir a si próprias, a partir de lugares que os discursos socialmente hegemônicos consideravam degradantes.

Vídeo-performance de Victoria Santa Cruz

 

 

 

 

 

 

 

“Sempre costumo dizer que, como no vídeo-performance da poeta afroperuana Victoria Santa Cruz, essa re-apropriação de um termo, socialmente tido como depreciativo para marcar uma posição de orgulho, é um forte ato de resistência política, pois tira daquelxs que se pretendem senhorxs da porra toda, algo que lhes é fundamental, a capacidade de definir nossos lugares no mundo. Não se trata de ‘pedir a palavra’, mas de tomá-la e afirmá-la, fazendo disso uma trama contra o sentido injurioso que é atribuído a ela.”

Traição reflexiva

Mas, se essa ética depende de uma re-apropriação positiva de algo, que antes era tido como negativo, qual o sentido de dizermos queer em português e no Brasil?

E detalhe: um país no qual essa palavra não é e nem nunca foi usada para colocar dissidentes de sexo-gênero em lugares marcados pela vergonha e por uma condição que não deveríamos querer que seja associada a nós.

Como traduzir queer para algo que nos faça sentido? Há uma palavra que deva tomar seu lugar em terras brasilianas?

Para responder isso, devo dizer o que tenho em mente quando falo em tradução. Uma fórmula antiga utilizada para pensar isso é traduttore, tradittore.

Diante da impossibilidade de uma tradução que garanta a equivalência exata entre as línguas, pois os vocábulos e as estruturas gramaticais são absolutamente intransponíveis, o tradutor deve se colocar como um traidor. E todo o ponto é saber a que vai trair.

Se o universo de sentido da língua que estou tentando traduzir é o que importa, então, é minha própria língua que deve ser traída, deformada em sua sintaxe e em sua semântica, tanto quanto necessário para caber os sentidos dessa outra língua. Como trair nossa língua para caber os sentidos do termo queer?

“Do meu ponto de vista, talvez, uma traição definitiva seja a impossibilidade de tradução única. Quem são, no Brasil, essxs malditxs e mal quistxs a que se refere, em outros cenários, o termo queer?”

Temos mesmo que achar uma palavra que nos caiba a todxs? De minha parte, as palavras viados e bicha podem fazer as vias de queer. Pelo menos em determinadas situações, já que não existe regra geral e acho que se trata, justamente, disso.

Quando digo que sou viado ou bicha, estou utilizando palavras que foram usadas para produzir lugares que deveriam ser negados pelas pessoas que eram, assim, acusadas, porque aprendemos que ser viado e bicha não é algo desejável. Mas, para mim, essas palavras têm um sentido a mais.

Também aprendemos, de alguma forma, que ser gay, outra palavra que importamos do inglês, não é desejável, já que se espera que todxs sejam naturalmente heterossexuais. É a tal da heterossexualidade compulsória que a feminista Adrienne Rich (1929/2012) denunciou.

Mas, se antes, a questão se colocava entre uma (hetero)sexualidade boa e uma (homo)sexualidade ruim, hoje em dia, também se coloca socialmente a questão entre homossexualidades boas e homossexualidades ruins.

 

Fotografia performática da série No Movies do coletivo artístico ASCO

“Não é difícil encontrar homossexuais que se ofendem quando são chamados de viados ou bichas, reivindicando que são, de fato, gays. O que isso quer dizer? Qual distinção se pretende nessa recusa?”

Seria uma espécie de limpeza da homossexualidade que, ao aceitar aquilo que a nossa sociedade heterocentrada nos diz, acaba por introjetar na homossexualidade um desejo de normalidade associado aos padrões heterossexuais de comportamento?

Nesse processo, cria-se outro padrão de julgamento moral. Não se trata, nesses casos, de dizer que se é um homossexual limpinho, comportado e aceito socialmente por oposição àqueles que são promiscuamente sujos, escandalosos, que dão pinta e, melhor ainda, se forem mais pretos e mais pobres?

“Eu não preciso que me livrem de mim mesmo, do viado e da bicha que sou. Não preciso que me higienizem em outra categoria e me separem de pessoas que supostamente poluiriam minha identidade social. E isso é tanto mais importante para mim que sou branco, cis, de classe média e acadêmico, o que já me dá acesso a uma série de privilégios sociais.”

Como eu disse, não acho que o caminho seja propor uma tradução que sirva para todos os casos. Essa serve para mim e em circunstâncias específicas que tenham a ver também com o corpo que tenho e o lugar que ocupo.

Que palavra funciona para produzir o seu lugar de resistência? Como você produz esse lugar, esse corpo e essa política orientada por uma ética de contra-normalização que, como eu estou propondo, é uma das motivações primordiais dessa discussão?

Para essxs malditxs que somos, as palavras são armas políticas e não deixam de ser provocações porque as re-apropriamos e as usamos.

Mas não são mais provocações dirigidas contra nós, mas por nós contra uma sociedade que busca, a todo momento, nos submeter a um padrão fantasmagórico de subjetividade que nos subjuga e aniquila (inclusive, fisicamente) nossa existência. Contra essa sociedade e contra essa cultura é que nossas palavras devem agir.

*Vitor Grunvald é ativista de direitos humanos, doutor em antropologia pela USP, pesquisador do Grupo de Antropologia Visual e do Núcleo de Antropologia, Performance e Drama, ambos do Laboratório de Imagem e Som em Antropologia da mesma universidade. Tem formação também em cinema, é realizador audiovisual, nortista e viado de carteirinha, dentre otras cositas más.

* Foto da capa da exposição Nancy Grossman: Heads no MoMA PS1