Barebacking e o fantasma do “Clube do Carimbo”?

Publicado em: 14 de julho de 2016

Quando a mídia e a política propagam uma caça às bruxas

De tempos em tempos, o campo da prevenção ao HIV ganha ares de uma casa mal assombrada.  Para a maioria das pessoas, pisar ali é adentrar em um terreno carregado por uma neblina bastante temida.

 

Não demorou muito para que a pudéssemos ver, nos últimos anos, o retorno dos ventos conservadores, a partir de uma série de reportagens na imprensa e de projetos de leis no Congresso.

 

Esse espectro retrógrado conta com um perigo potencial para estigmatizar grupos específicos.  Imagine o estrago que um PL 198, de 2015, que visa transformar em crime hediondo a transmissão intencional do HIV, pode fazer com anos de ativismo em prol dos soropositivos e pela prevenção.

 

Calma, que ainda tem mais. Quem não lembra da série de reportagens abordando a temática do barebacking (sexo sem proteção consentido) e do “Clube do Carimbo” de uma forma, minimamente, equivocada? Em quase todas as matérias veiculadas, surgia um imperativo da seguinte retórica: de que grupos gays praticantes de barebacking estariam disseminando o vírus HIV em festas e surubas.

 

“Denominado de ‘Clube do Carimbo’, um grupo de homossexuais soropositivos se reúne em sites para passar dicas de como transmitir Aids para outras pessoas. A premissa é que se todos tiverem a doença, ela não será mais um problema social. Junto com isso, a prática do bareback, o sexo sem camisinha, misturado com uma dita sensação de aventura faz com que as “carimbadas” aconteçam mais e já se tornem um problema de saúde pública. (Trecho de artigo publicado no jornal O Globo).

 

Ao se referir aos adeptos dessa prática como responsáveis pela propagação do HIV, essas notícias proliferam o vírus do estigma e do preconceito. Além do mais, é lamentável notar que a cobertura midiática desconsidera inclusive as informações básicas e atualizadas sobre a transmissão.

 

Os praticantes de barebacking podem ou não possuir HIV. Uma associação simplista entre HIV e barebacking, desconsiderando as demais estratégias de prevenção, que podem ter sido negociadas antes do ato sexual, é um total despreparo que fomenta a desinformação.

 

Em uma das matérias veiculada pelo programa Fantástico, em 2015, um dos entrevistados que, se revelava soropositivo e se dizia adepto da prática do barebacking, foi exposto como um grande disseminador do vírus HIV – mesmo após a reportagem informar que ele se trata, por dez anos, com medicamentos antirretrovirais.

 

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Hoje, a chance de uma pessoa soropositiva, com carga viral indetectável, infectar uma pessoa é praticamente nula.

 

O estudo Partner não registrou transmissão do vírus entre casais sorodiscordantes – quando um possui o vírus e o outro não – e que o parceiro soropositivo estava em tratamento com carga viral indetectável.

 

A pesquisa foi publicada no último dia 12 de julho de 2016 (terça-feira), com uma estimativa de 58.000 relações sexuais sem uso do preservativo, entre homo e heterossexuais.

 

Ao desconsiderar a baixa possibilidade de transmissão do vírus nos casos em que o tratamento é realizado e a carga viral é indetectável – informação divulgada também por pesquisas anteriores e pelo movimento social – a matéria deixa de destacar que a pessoa em tratamento com carga viral indetectável praticamente não transmite o vírus, embora ela possa adquirir outras infecções sexualmente transmissíveis.

 

Ao apontar os praticantes de barebacking como responsáveis pelo aumento da infecção por HIV entre jovens, essa cobertura midiática distancia os adeptos da informação e da prevenção.

 

Caça às bruxas

Por mais que o Ministério da Saúde tenha se manifestado enfaticamente contra a abordagem jornalística desse tema, por outro lado, o órgão se manteve contra o barebacking.

 

Nesse sentido, o poder público poderia ter aproveitado a grande chance de ampliar a informação sobre as novas estratégias de prevenção já disponíveis nos SUS (como a Profilaxia Pós-Exposição e o tratamento como prevenção), em invés de partir para condenação da prática.

 

É notório que toda vez que a política de prevenção perde fôlego – seja por falta de priorização, seja por argumentos morais – as infecções por HIV tendem a crescer.

 

Sexo sem preservativo é uma realidade mundial, seja pelo prazer, pelos direitos reprodutivos das pessoas – imagino que boa parte dos leitores desses textos tenham sido concebidos a partir de uma relação sexual sem preservativo.

 

O direito de escolher alguma forma de prevenção deve ser dado à população, pela via de informações claras, sem moralismos e com disponibilidade de acesso ao tipo de prevenção que for mais conveniente para cada pessoa, independente de suas práticas sexuais. Todas as pessoas têm o direito pleno à saúde, e portanto, à prevenção.

 

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Não podemos esquecer que desde a década de 1980, o sociólogo Herbert de Souza (o Betinho), junto de Herbert Daniel – ambos grandes militantes contra a epidemia de aids – nos ensinavam que a epidemia de HIV poderia disseminar dois grandes vírus.

 

Um biológico (que pode causar a AIDS – quando não combatido com tratamento antirretroviral) e um vírus ideológico, fonte de grande disseminação de estigma e preconceito.

 

Para Betinho, fundador da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (ABIA), esse vírus ideológico sempre era o mais difícil de ser enfrentado, pois requer uma mudança cultural acerca da epidemia. Nessa escuridão, fica a pergunta: qual é mesmo o verdadeiro fantasma na história?

 

*Salvador Correa é psicólogo, especialista em saúde coletiva, mestre em Saúde Pública e ativista do movimento de Aids. Atualmente coordena a Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS e atua no acolhimento de pessoas recém diagnosticadas e escreve mensalmente para a Flesh-Mag.

 

** Fotos: Nan Goldin

 

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