O corpo ciborgue: do ambíguo ao super-corpo

Publicado em: 18 de setembro de 2016

“As Paralimpíadas trouxeram para o foco nas mídias uma diversidade de configurações corpóreas e performances esportivas espetaculares.”

*Gleiton Matheus Bonfante e Ton Dutra

Neste universo contemporâneo de incertezas, o corpo parece ser um ponto de estabilidade. Costuma-se atribuir ao corpo uma configuração muito imutável, definitiva e fixa; amparada, principalmente, por discursos da área biológica e médica.

Essa influência de discursos biomédicos, sobre o que conta como humano ou não, foi chamada pelo filósofo Michael Foucault (1926-1984) de biopoder.

Por décadas, pensou-se que o corpo era nada mais que a confluência cárnea de uma anatomia e fisiologia específicas da espécie humana e, portanto, assunto exclusivo da ciência biomédica.

Ao excluir-se por muito tempo o corpo humano do estudo das ciências humanas, acabou-se perdendo de vista não apenas a dimensão política do corpo, mas também a multiplicidade de configurações corpóreas que podem ser suportes do sujeito.

O mais nefasto desfecho da virulência do biopoder é a exclusão ou invisibilidade de diversos ‘corpos humanos que não importam’ – parafraseando Judith Butler. Muitos esforços têm sido feitos para retornar às ciências humanas o corpo amputado pelo pensamento positivista.

ciborgue4

foto por Dusti Cunningham / modelo Cody Jo Terro

 

Uma entre notáveis teóricos é a própria Judith Butler que reconhece que os discursos com os quais falamos do corpo, o representa e, assim, o constrói socialmente.

Para a autora, “os discursos são dos corpos como seu próprio sangue”, de modo que a predicação (a forma como caracterizamos e descrevemos o corpo) e a referenciação (os nomes com os quais fazemos referência a específicos tipos de corpos) acabam por construir o corpo, por produzi-lo dentro de específica cultura.

 

Com a compreensão de que corpos são produtos e são fundados no discurso provêm duas premissas:

1) corpos são vulneráveis à linguagem;

2) a configuração dos corpos, sua gramática e sua diversidade funcional não é fixa; é fluída.

Para Foucault o corpo é utópico! Ele é plástico, mutável, diferente e capaz de se redesenhar.

 

 

É justamente sobre configurações corpóreas diversas e sobre seu potencial de excitabilidade que esse artigo discute.

É um assunto que entendemos ser incômodo para muitas pessoas por diversos motivos (preconceito, estranhamento, desconhecimento), contudo, mais incômodo seria relegar corpos com suas diversidades configuracionais e funcionais à invisibilidade e ao silêncio.

As Paralimpíadas trouxeram para o foco nas mídias uma diversidade de composições corpóreas e performances esportivas espetaculares.

Diferente das Olimpíadas, na qual os esportistas são propagandeados como sensuais e desejáveis, os discursos biomédicos constroem constantemente os corpos dos atletas paralímpicos como exemplos de superação de uma limitação, raramente lhes atribuindo o apelo erótico.

Contudo novas “performances íntimo-espetaculares” de pessoas com diversidade funcional tem colocado em cheque representações comuns destes sujeitos como assexuadas para produzir uma nova trajetória subjetiva, onde um corpo desejante e desejoso pulsa vivo ao reluzir uma configuração outra.

É preciso desconstruir discursos de fragilidade e limitação para apostar em um futuro mais inclusivo em que a individualidade e sensualidade independem de padrões normativos de corpo e performance.

 

 

Robert McRuer, no seu artigo sobre a invisibilidade de sujeitos queers com diversidade funcional, propõe ser compulsory able-bodieness (a compulsão por um corpo pleno funcional na tradução literal), um sistema de opressão, ligado inerentemente à heterossexualidade compulsória.

Ele preconiza que as expectativas por “normalidade” funcional e sexual geram uma compulsão por idealização que constrói tanto diversidade funcional quanto diversidade sexual como abjeções sociais.

Contudo a demanda pelo corpo perfeito esbarra em uma incoerência. Muitas pessoas que utilizam próteses podem experienciar a posse de um corpo sobre-humano, um corpo aprimorado pela técnica.

De acordo com o cientista social David Le Breton, não ser aprimorado pela técnica é, para o corpo, fruto de grande ressentimento.

 

ciborgue-3

Assim, o corpo, com próteses, pode configurar um símbolo de um corpo futurístico, aperfeiçoado pela tecnologia.
Estes ciborgues podem funcionar como símbolo de um desejo de corporalidade, que vê na fusão entre corpo e máquina o destino almejado de todos os corpos.

*Gleiton Matheus Bonfante é doutorando em Linguística Aplicada pela UFRJ e faz parte do grupo de pesquisa Núcleo de Estudos de Discurso em Sociedade (NUDES). Escreve mensalmente para o blog da Flesh-Mag.
* Ton Dutra é formado em comunicação social pela UNB com ênfase em comunicação em mídias de difusão em pluralidade de classes.