Nova campanha contra Aids: miragem ou oásis no deserto?

Publicado em: 5 de janeiro de 2017

*Salvador Correa

No último dezembro – mesmo mês em que o ministro da Saúde, Ricardo Barros, chegou a associar o aumento da epidemia de HIV entre jovens devido à falta de maturidade – o órgão lançou um vídeo que surpreendeu ativistas.

A campanha traz muitos aspectos da epidemia, e, ainda, valoriza os direitos humanos e a prevenção. Além do mais, o vídeo, que tem um jovem negro como protagonista, consegue incluir temas diversos e também transmitir informações pouco conhecidas pelo público em geral.

campanha-1

A transmissão vertical – quando o vírus é passado da mãe para o bebê (durante o parto ou amamentação) – foi abordada com foco na necessidade do diagnóstico em grávidas para evitar transmissão para o filho.

Casais sorodiscordantes (quando um possui o vírus e o outro não) foram interpretados por personagens homossexuais. No vídeo, ficou claro que um soropositivo em tratamento, com carga viral indetectável, deixa de ser um potencial transmissor.

campanha-2

O vídeo ainda aborda claramente a PEP (profilaxia pós-exposição) que é o uso da medicação para prevenir a transmissão do HIV, após a relação sexual. E apresenta dados relevantes.

372 mil pessoas têm HIV e não estão se tratando

112 mil pessoas não sabem que têm o vírus

A mensagem final, “Aids – Escolha sua forma de prevenção”, valoriza as a liberdade na prevenção e termina com um tom leve. Certamente foi um chute para o gol!

É profundamente lamentável que isso não tenha sido amplamente difundida na mídia.

Isso reflete que, embora tenha sido uma peça certeira, que resgata o êxito passado do Brasil ao alinhar direitos humanos na resposta à Aids, essa campanha se transforma em uma miragem ou oásis no deserto, correndo o risco de ser só mais uma peça publicitária isolada e perdida no tempo.

Por outro lado, deve-se atentar que o vídeo cai como uma luva neste momento oportuno, já que a própria imprensa reconhece o recente retrocesso brasileiro na resposta à epidemia de HIV.

Certamente não podemos esquecer o contexto em que saúde coletiva se encontra. A PEC 55, que limita recursos da saúde, representa um atentado contra o SUS e põe em risco sua sustentabilidade.

Que venham mais campanhas como essa e que não percamos de vista a complexidade do cenário atual.

*Salvador Correa é psicólogo, especialista em saúde coletiva, mestre em Saúde Pública e ativista do movimento de Aids. Atualmente coordena a Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS e atua no acolhimento de pessoas recém diagnosticadas e escreve mensalmente para a Flesh-Mag.