No cu do fetiche ou no fetiche do cu

Publicado em: 21 de julho de 2016

 

 “Cu pressupõe uma geografia exótica que deve ser resguardada. Assim a marginalidade de certas partes do corpo alimenta a ideia de que elas são proibidas, por um lado. Por outro, alguns diriam que estimula a curiosidade de experimentação.”

*Gleiton Matheus Bonfante

Em nossa cultura são atribuídos os mais diversos significados ao mundo e a tudo que dele faz parte. Também o nosso corpo e as partes dele são revolvidos por diferentes significados sociais. Estes significados não são absolutos nem atemporais. Mas historicamente constituídos e dependentes de outros sentidos sociais.

No que tange aos sentidos que tocam o corpo, podemos dizer que há partes simbolicamente mais nobres como o coração e os olhos. O coração pode simbolizar a essência do ser humano, o centro da força vital e o reduto da bondade.

Já os olhos podem aludir ao mistério e à individualidade. Remetem a um fetiche de porta de entrada para uma intimidade interior, sendo considerados as janelas da alma.

Por outro lado, há partes do corpo que não possuem sentidos tão nobres assim e acabam por ser dotadas de sentidos marginais. É o caso singular do cu, que convém significados sociais de extrema abjeção: sujeira, pecado e amoralidade.

Imagem do Ensaio Bottom Flesh

 

Cu pressupõe uma geografia exótica que deve ser resguardada. A marginalidade de certas partes do corpo alimenta a ideia de que elas são proibidas, por um lado.

Por outro, alguns diriam que estimula a curiosidade de experimentação. No entanto, é bom ressaltar que fetiches se alimentam, muitas vezes, de proibição.

O cu, conjuntamente, com os sentidos que pode invocar, entra na dança erótica do desejo de formas distintas.

Na nossa sociedade, a centralidade do sexo heterossexual reprodutivo tem auxiliado na manutenção da invisibilidade de outros tipos de tesão, como o anal.

Vale lembrar que a centralidade do modelo “pinto na periquita” é uma estratégia social para deslegitimar homoerotismos e coagir mulheres a uma prática que nem sempre lhes é prazerosa: a penetração vaginal.

De fato, todo o corpo possui terminações nervosas e, portanto, somos, de cabo a rabo, passíveis de estímulo e excitação. Porém, algumas partes, como o cu, parecem sofrer sanções morais por estarem ligadas às suas funções orgânicas e demandas de segredo e vergonha.

Assim, a excitabilidade do cu parece compreender um grande tabu. Conservadores acreditam que o cu não deveria ser excitável. Deveria permanecer secreto, imundo e marginal.

Contudo, cu é político e não privado, já que na sociedade ocidental se quer sempre saber exatamente o que fazemos com o nosso! Quais suas funções? Como ele é empregado, sobretudo no campo do prazer?

No Brasil, não há quem diga que a bunda não é paixão nacional. Todos a apreciam, cujas curvas alimentam o imaginário popular e escondem a iguaria mais deliciosa: o cu.

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Performance na festa Seita – foto por Rafael Medina

Embora “bunda” seja, nas palavras do poeta, um substantivo inerentemente feminino, altamente conectada aos encantos da mulher, a bunda masculina também possui uma aura de excitabilidade e é também fetichizada, cada vez mais, na medida que o corpo masculino é objetificado, recebendo atenção maior nas mídias.

A bunda do homem é cantada no livro O Bundo, do poeta Waldo Motta. E por mais que essa ideia incomode a frágil masculinidade brasileira, o cu do homem é, sim, objeto de fetiche e desejo.

Motta nos convida, na poesia Exortação, a “venera[r] o Santo Fiofó, ó neófito das delícias.” Já no livro de Hilda Hilst (1930-2004), autora que também canta o cu masculino, o sedutor, que envia cartas, confessa seu tesão pelo cu de homem:

 

“Gosto de nádegas iguais àqueles gomos ainda verdes, grudados tenazmente à sua envoltura. (…) Gosto de cu de homem, cus viris, uns pêlos negros ou aloirados à volta, um contrair-se, um fechar-se cheio de opinião.”

 

Cus são vívidos, mordem, contraem-se, são cheios de opinião. O cu é excitante não apenas como obstáculo, como barreira que resiste, mas porque é elástico, porque se deixa penetrar e se ajusta, quentinho, apertado, acolhedor.

O cu também é excitante pelo exotismo de sua anatomia, pelo pecado do seu desfrute. O cu é o órgão mais periférico e, também, está conectado – pelo menos simbolicamente – à homossexualidade.

Performance “Cú é lindo” no Festa Seita

Tomar no cu – antes uma ofensa – tem sido reivindicado como prática prazerosa: fio terra, dedada, beijo grego, cunete, enrabada, pegging. A proliferação de nomes e de práticas mostra que o cu está na moda – ou na roda.

Se, como propõem os artistas que com seus grafites intervém na paisagem e na sociedade carioca: “cu é lindo”, por que então viver às suas margens e não gozar suas delícias plenamente?  Até porque, de acordo com Waldo Motta, “o fogo da vida se atiça é em nosso rabo”.

*Gleiton Matheus Bonfante é doutorando em Linguística Aplicada pela UFRJ e  faz parte do grupo de pesquisa Núcleo de Estudos de Discurso em Sociedade (NUDES).  Escreve mensalmente para o blog da Flesh-Mag.