Homofobia: o que isso tem a ver com saúde?

Publicado em: 12 de agosto de 2016

*Salvador Correa

 

A homofobia tem sido uma questão presente em diversos debates, na comunidade em geral e, também, vem ganhando grande repercussão no cenário internacional e nacional.

 

Muitas vezes essa visibilidade só toma corpo em manchetes na imprensa. Mas nem sempre precisa ser dessa forma. O processo de violência, que é praticado mirando a orientação sexual, pode ser pautado inclusive no campo da saúde.

 

O termo “homofobia” ainda é limitado para contemplar diversas possibilidades de violências sofridas por pessoas que não correspondem aos modelos de gênero socialmente aceitáveis.

 

Nesse sentido, concebe-se, aqui, a homofobia como um tratamento discriminatório, preconceituoso e/ou estigmatizante vivido por pessoas de orientação homossexual que englobará distintas formas de violências.

 

homofobia 3

Ilustração de Gunsmithcat

 

Além do mais, a homofobia pode ser considerada como uma expressão de violência que afeta a saúde daqueles que a vivenciam.  

 

Primeiro, vamos aos números. O Relatório de Violência Homofóbica no Brasil, publicado neste ano, ao analisar as denúncias do Disk 100, registrou  3.398 violações de direitos relacionadas à população LGBTT no ano de 2013.

 

“Segundo o Grupo Gay da Bahia, a cada 28 horas um homossexual morre de forma violenta e, pelo menos, 132 homossexuais foram assassinados em 2016 no Brasil.”

 

Por mais alarmantes que esses dados sejam, a saúde pública carece inclusive de pesquisas que contemplem essa temática.

 

Ao digitar “homofobia” no site Scielo – relevante base de artigos online sobre saúdeencontramos apenas 41 artigos.

 

Stop Homophobia

 

Isso representa, por exemplo, quatro vezes menos do que as pesquisas encontradas nessa base acerca da violência contra a mulher (que chegam a 185 artigos) – dados de 11 de agosto de 2016. Um sinal que existe uma demanda de estudos neste campo.

 

Se, no ambiente acadêmico, a saúde e a homofobia precisam ainda de um diálogo maior, o atendimento em serviços de saúde, como hospitais, ambulatórios e UPAs segue uma difícil realidade.

 

Pare um pouco e pense: você já foi discriminado em algum serviço de saúde por ser homossexual?

 

Mesmo sem saber, certamente você foi e ainda é vítima da violência homofóbica institucionalizada, regulamentada e normatizada.

 

homophobia

 

Já tentou doar sangue e dizer que é gay? Acredite, não é incomum as pessoas serem discriminadas nos serviços de saúde por suas práticas sexuais, orientação, identidade; muitas pesquisas da saúde apontam para isso.

 

Só para citar um exemplo, recentemente o estudo Transcender, da FIOCRUZ, criou um ambulatório específico para as pessoas trans, justamente por terem recebido muitos relatos de péssimos atendimentos.

 

O mesmo tem acontecido com alguns serviços de testagem para HIV, que tem sido fornecido por ONGs em função da discriminação nos serviços de saúde, o que funciona como uma ação emergencial, no entanto, não resolve o problema da homofobia no SUS. Você voltaria em um serviço que se te maltratassem?

 

Saúde sem política?

Você sabia que existe no Brasil a “Política Nacional de Saúde Integral de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais” e ela cita a homofobia 8 vezes?

 

Essa política, que segue as diretrizes do programa Brasil sem Homofobia, e, embora esteja longe de ser uma resposta ideal para as demandas de saúde da população LGBTT, o documento evidencia uma associação entre homofobia como fator que acrescenta vulnerabilidades para problemas de saúde.

homofobia 4

Dentre as diretrizes apontadas pelo plano, a homofobia aparece como importante fator a ser combatido. Para isso o plano reforça a importância de valorização dos direitos humanos da população LGBTT, combate ao estigma e discriminação, eliminação das homofobias nos serviços de saúde.

 

Para que a homofobia seja fortemente combatida, se faz necessário o desenho de ações, com participação do movimento LGBT, serviços, gestores e usuários do SUS, independente do desejo de forças conservadoras.

 

É uma questão de saúde e de direito à vida!  Não podemos admitir nem mais uma morte!

 

*Salvador Correa é psicólogo, especialista em saúde coletiva, mestre em Saúde Pública e ativista do movimento de Aids. Atualmente coordena a Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS e atua no acolhimento de pessoas recém diagnosticadas e escreve mensalmente para a Flesh-Mag.