Do dejeto ao desejo: notas sobre o banheirão e erotismo

Publicado em: 15 de outubro de 2016

*Gleiton Matheus Bonfante e Ton Dutra

“Pela aversão que causam, são territórios de breve permanência, apesar da alta circulação de pessoas, o que torna um cenário propício para encontros sexuais homoeróticos historicamente relegados ao acaso e a clandestinidade.”

Ele & Ela, Homem & Mulher, Masculino & Feminino, Marte & Vênus, Sr & Sra; a designação pode ser muito variada, mas a separação dos banheiros por gênero remonta à Idade Clássica.

Essa divisão do espaço público entre masculino e feminino, que persiste especialmente no caso do banheiro, fomentou o surgimento de novas formas de sociabilidade gênero-específicas, ou seja, o banheiro generificado cria oportunidades interessantes para encontros homoeróticos, popularmente conhecidos como banheirão.

No entanto, os banheiros são revolvidos contemporaneamente por significados de abjeção e sordidez devido às práticas ali desenvolvidas: excretar, defecar, regurgitar, limpar-se.

Pela aversão que causam, são territórios de breve permanência, apesar da alta circulação de pessoas, tornando o cenário propício para encontros sexuais homoeróticos historicamente relegados ao acaso e a clandestinidade.

Além do mais os banheiros podem configurar um território fora da ordem moral que nos interpela constantemente e fora da vigilância contínua da sexualidade, pois oferecem um espaço de privacidade em meio à ebulição urbana das grandes cidades.

A privacidade do banheiro público pode atenuar a governo dos corpos, fazendo sujeitos se lançarem à comunicação do seu tesão.

Assim a paquera nos banheiros é constituída por formas de comunicação muito específicas:

  • sem palavras;
  • por olhares que podem variar de acordo com a intensidade, a duração, a parte do corpo focalizada;
  • por meio de gestos como um toque em seu próprio corpo (especialmente no pênis);
  • uma insinuação de si;
  • a exibição de uma parte íntima;
  • um movimento de boca ao morder, lamber ou apertar os lábios;
  • um franzir de cenho.

Enfim, toda uma vasta possibilidade combinatória de signos do corpo pode comunicar um desejo que se transforma em gozo.

Como se a secretude dos banheiros fosse um convite, muitas pessoas se excitam em se lançar a essa aventura erótica.

O banheirão é um fetiche silencioso, é tão sutil que as palavras faltam: o gozo e os ruídos sexuais devem ser abafados, o sexo deve permanecer secreto.

Não apenas porque o prazer deve ser silencioso, mas porque há chance de repreensão.

Em 1962, a polícia de Mansfield, Ohio, se infiltrou em um banheiro público e instalou câmeras que gravaram centenas de cidadãos se envolvendo em atividades eróticas dentro de um banheiro. A filmagem foi usada como prova e todos os sujeitos foram punidos pela justiça.

No entanto, o diretor William E. Jones se reapropriou deste filme para produzir um longa pornô, intitulado Tearoom.


A explicitude das cenas fizeram com o que diretor dispensasse edições, apenas tirando o texto de seu contexto de vigilância dos corpos e das sexualidades desviantes e trazendo-o para o contexto da pornografia, do tesão.

Já Peter de Rome captou, em “Adam & Yves” (1974), seu primeiro filme financiado e produzido por uma equipe profissional, a cena de uma orgia com uma dúzia de homens em um banheiro público. De acordo com o diretor, o filme foi pensado como uma versão gay de “Último Tango em Paris”.

Em (2012), o cineasta português Antônio da Silva lançou o curta “BANKERS”. Filmado no distrito financeiro de Londres, pelo período de um ano, ele documenta a interação sexual dos banqueiros no horário do almoço em um banheiro frequentado pelo público de classe A.
Os caras, vestidos de roupas sociais, trocam carícias e boquetes e batem punhetas com mãos ornadas por grossas alianças, culminando em fartas ejaculações. O filme foi muito aclamado internacionalmente.

 

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Há de se destacar que a performance da foda no banheiro reatualiza o significado do território do dejeto, instaurando um ambiente do fruição do prazer.

Por outro lado, a satisfação de desejos urgentes, surgidos no acaso social da vida cotidiana, é uma atitude política e de resistência, pois se presta à reinvenção de roteiros sociais trazendo lógicas de existência combativas do binarismo de gênero, do moralismo cristão e da heteronormatividade.
*Gleiton Matheus Bonfante é doutorando em Linguística Aplicada pela UFRJ e faz parte do grupo de pesquisa Núcleo de Estudos de Discurso em Sociedade (NUDES). Escreve mensalmente para o blog da Flesh-Mag.
* Ton Dutra é formado em comunicação social pela UNB com ênfase em comunicação em mídias de difusão em pluralidade de classes.