Corpos, revoltas e lâmpadas

Publicado em: 15 de dezembro de 2016

“Ainda vão me matar numa rua,

quando descobrirem,

principalmente,

que faço parte dessa gente

que pensa que a rua

é a parte principal da cidade.”

Paulo Leminski, em Toda Poesia

*Vitor Grunvald

No dia 26 de novembro de 2016, aconteceu mais uma Revolta da Lâmpada (RDL) na Avenida Paulista. A terceira, desde o final de 2014, quando um grupo de ativistas se uniu para um protesto numa referência ao caso Betonio.

Há seis anos, Luís Alberto Betonio caminhava pelo mesmo local, com dois amigos, quando foi atacado por um grupo de jovens. Um deles o agrediu com duas lâmpadas fluorescentes.

O caso ganhou imensa repercussão midiática e deslanchou uma série de discussões sobre impunidade e violência contra a população LGBTQIA+ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais, Transgêneros, Queer, Intersexo, Assexuais e outres sexo-gênero dissidentes).

O ataque foi considerado homofóbico e, independente da orientação afetivo-sexual de Betonio, ele foi agredido porque leram seu corpo como um corpo inapropriado a ponto de não poder ocupar o espaço público, sem sofrer algum tipo de sanção.

Essa sanção, geralmente, é apenas verbal. Grita-se “viado”, “traveco”, “gostosa”, mas sabemos quantas vezes isso vai além das palavras e passa para uma violência que age sobre o corpo, tentando fazer nele uma marca tão forte quanto o próprio estigma que carrega. Talvez até mesmo aniquilá-lo.

A questão não é nova. O espaço público nunca foi pra todxs. E muitas pessoas, que sofrem essas opressões por terem uma raça e classe específicas ou por possuírem marcas de dissidências de gênero e sexualidade, já sabem disso há muito tempo.

Isso ocorre mesmo nos espaços semipúblicos, com travestis e pessoas trans que não podem acessar banheiros, e pessoas pretas da periferia que são impedidas de acessar shoppings.

E os museus e as melhores universidades públicas? Basta fazer o teste do pescoço e olhar em volta para observar a maioria branca, cis e de classe média. Preferencialmente heterossexual, é claro. Ou pelo menos com uma expressão de gênero comportada, ou seja, aquela que se aproxima das normas tidas como adequadas para esse espaço.

 

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fotos por Vi Grunvald

Essa ideia de espaço público como espaço da política e do encontro entre pares  é e sempre foi uma inocência, na melhor das hipóteses, ou uma falácia fascista e aterrorizadora, se quisermos ser um pouco mais realistas. Aqueles pares em que a noção de cidadãos, com direitos iguais perante a lei, tenta nos convencer que existe.

Não devemos dar por certo o que é espaço público e quem é “o povo” que o habita. Não seria essa a principal ideia do Notes Toward a Performative Theory of Assembly, último livro da filósofa Judith Butler?

Outros regimes e modulações dissidentes de resistência e aliança entre mulheres, negrxs, capitães da areia, primitivxs e seres monstruosos, que driblavam e deformavam a naturalidade do gênero e da sexualidade, com seus corpos, ações e existências, sempre existiram por baixo da manta de uma esfera pública branca, masculina, burguesa e euroestadunidense.

A lâmpada foi apenas mais uma materialização dessa violência que é, em muitos sentidos, distribuída diferencialmente. E ser branco, cis e de classe média não é atestado de ignorância e tampouco pode ser justificativa para não exercer uma escuta atenta daquilo que não acontece com você de forma direta, por conta de privilégios x ou y.

Voltando para manifestação deste ano: nela tudo se gritava: quanto mais lâmpada, mais rua! Esse momento é uma espécie de ápice, ou pelo menos de catarse, de um ativismo que é feito em várias ações ao longo do ano.

A linguagem que utilizam é pajubalizada e fechativa porque quer conversar com pessoas que já não veem na linguagem política tradicional, aquela que impuseram como apropriada às discussões do espaço público, algo que comunica efetivamente com as pessoas.

Tudo bem falar de viados, travestis, bucetas e cus nas conversas de botequim e entre amigos. Mas discurso político é outra coisa. Decoro, palavra que serve para bloquear outras formas de agir, pensar e falar.

A escuta democrática, o equilíbrio de protagonismo, as estratégias “combativas externamente, conciliadoras internamente” e a interseccionalidade como horizonte são tintas que pintam o quadro do artivismo desenhado pela RDL.

Óbvio que, se levarmos em conta esses princípios e essa ética, percebemos que não se trata de criar uma fórmula, pois corpos excluídos das ruas e dos espaços institucionais (escolas, empresas, museus, etc.) não são os mesmos e sofrem opressões que se articulam de maneira própria.

 

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fotos por Vi Grunvald

 

Será que uma pessoa trans, preta, pobre e periférica está sujeita aos mesmos constrangimentos de uma pessoa cis, branca e de classe média que tenta fazer uma performance pacífica na frente de policiais que apontam armas contra ela? São todxs que podem reivindicar a não violência como estratégia política que deve ser buscada e defendida?

Será que a manifestação que têm êxito na Avenida Paulista funciona na periferia? Ela é possível ali? Para quem funciona o abaixo-assinado que foi, de forma tão cínica, proposto como alternativa mais legítima e apropriada do que o pixo no vergonhoso Monumento às Bandeiras? Certamente, para artistas e para xs tais formadorxs de opinião que criticaram os atos, abaixo-assinados funcionam. Mas para todxs?

Sem regra possível. Mas, ao sair da Praça Dom José Gaspar, lugar onde terminou a manifestação da RDL, sem dúvida, surge uma sensação renovada. O sentimento de que é possível construir poderosas alianças a partir de nossos corpos tão diversos e mal-ditos, de nossas falas malcriadas. Ocupar o espaço público é, em si, um ato político. Ocupar e resistir, como nos ensinam tão sabiamente xs secundaristas.

É possível que a reunião de pessoas em espaços públicos não seja um meio para alcançar um fim, mas um fim em si mesmo. Construir política é também construir um conjunto outro de relações, menos machistas, racistas e cisheteronormativas. Um experimento social no qual nos engajamos ali na rua, nas manifestações e ocupações, mas também a cada dia. Micropolítica.

Talvez não nos reunamos para fazer política, mas façamos política ao nos reunirmos e reivindicarmos que esses corpos viados, travestis, trans, pretos, femininos, afetados, fechativos e, por vezes, inclassificáveis, também, serão parte daquilo que se constituiu à custa de sua exclusão.

 

 

*Vitor Grunvald é ativista de direitos humanos, doutor em antropologia pela USP, pesquisador do Grupo de Antropologia Visual e do Núcleo de Antropologia, Performance e Drama, ambos do Laboratório de Imagem e Som em Antropologia da mesma universidade. Tem formação também em cinema, é realizador audiovisual, nortista e viado de carteirinha, dentre otras cositas más.