Bullying: uma escola de homofobias

Publicado em: 3 de novembro de 2016

“Ele jamais fez mal a alguém. Eles decidiram persegui-lo, desde o início, porque ele amava cantar. Eles o agrediam o tempo todo. Da última vez, eles o esperaram no corredor para pegá-lo de surpresa. Eles achavam isso engraçado.”

* Hugo Leonardo Neves Gomes e Salvador Correa

A frase acima foi narrada por uma colega de turma de Sergey Casper, estudante de 17 anos morto por colegas em uma escola politécnica de Moscou, na Rússia.

Casos de bullying, inclusive bullying homofóbico, são constantes nas escolas. Mas, afinal, o que é bullying?

O bullying se caracteriza por posturas violentas e opressivas (física ou verbal) entre estudantes sem que haja uma motivação aparente.

Existem, ainda, três características aceitas pelas comunidades científicas ao redor do mundo presentes no bullying: a repetição, o prejuízo e a desigualdade de poder.

Para a doutora em Educação, pela Universidade Federal da Bahia (UFA), Marilena Ristum, as ações podem ser diversas, como colocar apelidos, humilhar, discriminar, bater, roubar, aterrorizar, excluir, divulgar comentários maldosos, excluir socialmente.

O livro Impacto da Violência na Escola, coordenado por Simone Assis, Patrícia Constantino e Joviana Avanci – pesquisadoras da Fiocruz – identifica o bullying a partir de três tipos de comportamento: agressivo (intencionalmente nocivo), repetitivo e a relação de dominação.

A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar 2015 aponta que, pelo menos, 39,2% dos alunos entrevistados se sentiram algumas vezes humilhados por provocações feitas na escola por colegas e dentre os agressores.

O destaque para importância do bullying e o quão problemático ele é para comunidade escolar, vem para nos lembrar, que, ao contrário do que setores mais tradicionais apostam, a escola é um lugar que vai muito além dos processos de aprendizagem. Sendo a primeira experiência do indivíduo com a sociedade, para além do núcleo familiar.

A comunidade escolar tem um papel preponderante na formação do indivíduo. Ela é estratégica no processo de cidadania, um espaço fundamental para as habilidades sociais (capacidades comportamentais para interações sociais) e desenvolvimento afetivo.

Um processo opressivo, dentro deste contexto, compromete todas essas habilidades. Considerando o alcance do bullying na vida das pessoas e na construção da sociedade, é possível perceber a urgência de ações que o desconstrua, com possíveis impactos sociais para convivência com as diversidades.

Isso poderia, por exemplo, minimizar tantas violências vivenciadas na escola e que, às vezes, transbordam esse contexto, alcançando outros espaços como as redes sociais para perpetuar a humilhação, a homofobia e a transfobia.

É importante, ainda, destacar que os três papéis envolvidos em todo processo do bullying (os agressores, as vítimas e as testemunhas) são marcados por ele.

Esses papéis não são rígidos e podem variar de acordo com cada situação, de modo que, uma pessoa, que foi vítima em determinada circunstância, pode se tornar agressora e vice-versa. É muito comum, também, que a própria vítima possa se tornar um adulto com problemas de autoestima, com poucas habilidades sociais e fragilidades emocionais.

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No entanto, o bullying nutre um projeto de sociedade desigual e opressor para todos os envolvidos. Faz das testemunhas adultos pouco empáticos e gera no opressor um “modus operandis” marcado por violência, que trará prejuízo em outras relações no decorrer de sua vida.

Sendo uma expressão do preconceito, dentro do universo da escola, é natural que o bullying reproduza as formas mais comuns deste fenômeno na sociedade. Desta maneira a homofobia, expressada via bullying homofóbico, é constantemente parte deste processo.

Ela está lá para rechaçar qualquer movimento que esteja fora dos padrões heteronormativos e, por vezes, as consequências geradas chegam ao extremo.

Um notório exemplo é a evasão escolar ou mesmo a tentativa de suicídio, principalmente, para travestis e transgêneros.  Eles, geralmente, não conseguem concluir seus estudos, sendo forçades a abandonar a escola, já que são alvos mais visíveis para violência.

Desta forma, o bullying acaba sendo extremamente eficaz na manutenção da desigualdade, haja visto que ele não só é uma expressão dela, mas também um eficiente mantenedor, quando legitima  minorias como frágeis e “desempoderadas”.

Antes de pensar em combater bullying homofóbico, precisamos entender que professores e agentes escolares também foram formados numa comunidade escolar opressora, em uma sociedade heteronormativa e que não é pouco comum eles se silenciarem, diante de determinados atos de violência, ou até mesmo reproduzirem estigmas.

A pesquisadora canadense Deborah Britzman descreve as fantasias dos professores ao tratar de questões de homofobia dentro da escola e diz:

“…existe o medo de que a mera menção da homossexualidade vá encorajar práticas homossexuais e vá fazer com que os/as jovens se juntem às comunidades gays e lésbicas. A ideia é que as informações e as pessoas que as transmitem agem com a finalidade de “recrutar” jovens inocentes. (…) Também faz parte desse complexo mito a ansiedade de que qualquer pessoa que ofereça representações gays e lésbicas em termos simpáticos será provavelmente acusada ou de ser gay ou de promover uma sexualidade fora da lei. Em ambos os casos, o conhecimento e as pessoas são considerados perigosos, predatórios e contagiosos.”

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Em 2015 foi sancionada a lei 13.185 que institui o Programa de Combate à Intimidação Sistemática. Essa iniciativa é importante para uma resposta eficaz ao bullying, no entanto, a legislação por si só não garante uma mudança efetiva com ações progressistas e de respeito às diversidades no contexto escolar, especialmente, em um cenário de reforma e cortes de recursos para a educação e saúde pública.

É necessário que ao falar de bullying pensemos para além da comunidade escolar, revisemos o projeto de sociedade em que estamos inseridos e o mundo que queremos construir.

A violência não pode, sob nenhuma roupagem, ser parte do principal mecanismo do estado na formação de indivíduos. Banalizar o bullying é aceitar um projeto fracassado de sociedade que faz do mundo um lugar pior para viver.

*Hugo Leonardo Neves Gomes é psicólogo, Coordenador do Programa de Família e Autodefensoria da Federação Estadual das APAEs do Rio de Janeiro, atuando em diversa frentes ligadas a deficiência/saúde mental no município de Rio das Ostras.

*Salvador Correa é psicólogo, especialista em saúde coletiva, mestre em Saúde Pública e ativista do movimento de Aids. Atualmente coordena a Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS e atua no acolhimento de pessoas recém diagnosticadas e escreve mensalmente para a Flesh-Mag.