Uma tradição do caralho!

A louça erótica que ultrapassa gerações

Por Átila Moreno*
Fotos e colaboração: Rafael Medina**

Um artesanato secular que transforma o pênis em peça decorativa por meio da cerâmica.

É na cidade pacata de Caldas da Rainha, em Portugal, fundada pela religiosa Rainha Dona Leonor, onde reinam, talvez, os últimos resquícios dessa preciosidade.

Foi lá que o fotógrafo Rafael Medina andou perambulando recentemente. Ele aproveitou para fazer uma sessão de fotos e colher depoimentos de alguns dos artesãos que abraçam essa tradição bem peculiar, também conhecida como louça das caldas.

 

Há vários tipos dessa cerâmica. Mas uma delas, em especial, chama atenção. É o pênis ornamentado que balança esteticamente por vários tamanhos, cores e estilos inclusive com asas.

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Popularmente também é conhecido como caralho. Mas até chegarmos no artesanato em si é bom saber a história por trás do nome.

Quem conta um pouco disso é a caldense Mónica Correa. Junto do marido Pedro Silva, ela é proprietária da “loja do Ca..lho”, que vende e fabrica as versões mais contemporâneas deste artesanato e outras lembranças portuguesas.

A artesã e comerciante revela que caralho é o nome original do mastro, acima da Gávea, um lugar conhecido como “casa do caralho” nas caravelas.

Como forma de castigo, os marinheiros eram enviados para o lugar. O comandante mandava a tripulação para casa do caralho. O que passou a ganhar força a frase típica de Portugal: “mandar para o caralho.”

 

Mas, por incrível que pareça, há ainda hesitação em falar “caralho” no município, que fica a uma hora distância de Lisboa, com pouco mais de 30 mil habitantes.

No primeiro momento que Medina chegou à cidade, ele se deparou com uma senhora artesã pintando esculturas de falo. Quando ele mencionou a palavra “caralho”, foi logo repreendido enfaticamente: “não é caralho, é falo”.

 

Memória artística resiliente

Ninguém ainda bateu o martelo sobre a origem dessas louças eróticas. Só se sabe que ela teve um crescimento no final do século XIX. A peça fálica teria ganhado fama também com a atitude do rei D. Luís em presentear os amigos.

Reza lenda que as primeiras peças foram elaboradas e adaptadas por uma feirante chamada Maria dos Cacos. E assim foram sendo recriadas por outros artesãos.

E é graças a um casal de idosos que ela ainda se sustenta, atualmente, diante da possibilidade de entrar em extinção.

Francisco Agostinho, fabrica esse tipo de cerâmica há quase quatro décadas, com apoio da esposa Cacilda Agostinho. Eles são um dos poucos idosos que dão vida às louças eróticas. Nessa matéria para uma tv portuguesa sobre as Louças das Caldas, ele dá mais detalhes sobre a atividade.

 

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Seu Lica com o maior caralho de sua loja

Outro senhor que perpetua a tradição é Francisco de Oliveira Mendes, mais conhecido como Lica. Ele fabrica as peças desde os 16 anos e trabalha há 35 anos com o negócio. Ele conta que o artesanato, em sua juventude, era proibido.

 

Assunção do pênis angelical

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O falo de cerâmica corre risco mesmo de bater asas, mas, talvez, para alçar voos maiores.

Alguns profissionais, como a própria Mónica, dão uma nova roupagem à estética das peças, com o design mais contemporâneo.

 

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Mónica com a princesa caralho no colo

É bom torcer para o caralho de asas não vire só uma lenda, conforme aconteceu com a expressão que leva o mesmo nome.

Nos contos populares, esse termo era a desculpa das donzelas que engravidavam e não tinham como dizer quem era o pai. Então, elas contavam que o responsável era o caralho de asas que entrava pelo quarto à noite.

Em muitas culturas, como a brasileira, as moças eram aconselhadas a não se banhar no rio ou dormir sem roupa, devido ao risco de tentação provocada pela entidade.

Verdade ou não, é hora de guardar e segurar esse caralho de louça.

 

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*Átila Moreno é jornalista, com passagem pela TV Globo Minas, TV UFMG, Infoglobo e Universidade Corporativa do Transporte. É editor-chefe de conteúdo deste blog e escreve mensalmente para a Flesh-Mag.
** Rafael Medina é formado em filosofia, estudou fotografia e artes visuais na EAV-Parque Lage, no Rio de Janeiro. Fotografa há mais de 10 anos a cultura underground carioca, e já clicou festas e clubes históricos como a Bunker, Dama de Ferro e X-demente e é um dos donos da Flesh-Mag.