Uma metáfora realista da transição

Entrevista com Theo Barreto

“O que mais escapa dessas pessoas cis, sobre o corpo de um homem trans, é a sutileza desse pinto que nasce. É uma nova ferramenta, uma nova tecnologia do meu corpo que quero explorar pra caralho. Isso não é óbvio e é difícil de ser apresentado. É uma nova proposta de relação.”

 

Frases de impacto regem Theo Barreto Pereira da Silva, 23 anos. Ariano, com ascendente em Escorpião e lua em Leão. Genioso por natureza, olhar de garoto mas que te persegue a cada movimento.

 

Palavras borbulham desse rapaz que estuda Serviço Social e trabalha no setor público. Como eu, Theo também carrega, a tiracolo, um caderninho para enxaguar pensamentos. Ele posou e escreveu o texto do ensaio Transparent Flesh.

 

Aliás, coragem e empoderamento perpetuam a primeira entrevista na estreia da minha coluna, aqui, no blog da Flesh: DP com Átila Moreno*.

 

AM – Você escreve há quanto tempo?

 

Comecei aos 13 anos. Escrevia coisas que aconteciam no meu dia. Sentimentos, entraves, minhas questões. Elucubrações. Nunca consegui escrever alguma coisa que não fosse sobre mim, tampouco consegui inventar um personagem.

 

AM – Nessa época, já tinha algum escritor como referência?

 

Foi lá pelos 15 anos. Saramago (José Saramago: 1922-2010). O meu irmão lia muito Bukowiski (Charles Bukowski: 1920-1994). Foram os dois primeiros que mais me afeiçoei.

 

AM – Do Saramago, qual você livro leu?

 

Foi “Ensaio sobre a Cegueira”.

 

AM – Incrível, né?

 

Nossa! Fiquei de cara. Achei pesadíssimo. Andava na rua achando que todo mundo era cego, menos eu.

 

AM – Você consegue fazer alguma relação com a metáfora da cegueira no livro e o que se passa na sua vida hoje?

 

Tem sim. E tem um pouco a ver com essa coisa que cuspi hoje (Theo escrevia antes de nos encontrarmos). É como se eu não existisse no passado? Não existia um Theo? Claro que existia. Exista eu. Existia também uma outra casca, que me disfarçava, que impedia que existisse e que as pessoas me vissem. O que aconteceu foi que me separei dessa casca mas ainda precisava de um corpo, então, era isso que ia usar.

 

“Quando percebi que gênero era uma coisa construída, refleti sobre a fragilidade dessa categoria imposta e me questionei.”

 

“Queria ter certeza que não estava correndo de um gênero oprimido e passando para um mais ‘confortável’ e considerado superior.”

 

AM – Quando foi que você teve noção do que estava acontecendo?

 

Meu primeiro contato com grupos feministas e Teoria Queer foi por volta dos 20 anos, quando namorei uma menina que estudava Antropologia. Ela é francesa, então, eu ajudava com os textos da faculdade. Surgiu assim o contato com esses temas. Foi quando comecei a questionar meu gênero. Nunca me senti mulher mas essa não era uma coisa que pensava a respeito. Até então, isso nunca tinha sido apresentado pra mim. Quando percebi que gênero era uma coisa construída, refleti sobre a fragilidade dessa categoria imposta e me questionei. Foi ao mesmo tempo que vi, pela primeira vez, na Internet, um homem trans, o Olivier (Olivier Mastalerz), um cara da Polônia, bem famoso na época. Quando o vi, cara, me toquei que isso era possível, ou seja, mudar o corpo. Compreendi que era um cara igual a ele, sabe? Ao mesmo tempo, é muito difícil esse questionamento, pois entendia que eu não era uma mulher, mas não entedia o que eu era, então. E só existem duas coisas para a sociedade: homem ou mulher.  Tinha muita dificuldade em assumir que era homem exatamente quando estava entrando em contato com as teorias do feminismo. Queria ter certeza que não estava correndo de um gênero oprimido e passando para um mais “confortável” e considerado superior. Entendi que eu não ia ser esse cara. Não existe só um jeito de “ser homem”. Não ia ser necessariamente: machista, agressivo, opressor e silenciador de mulheres.  

 

AM – Bom você ter tocado nesse assunto. Vejo que, na própria comunidade LGBT, ainda há um forte machismo nas relações afetivas. No seu caso, acho que ocê já vem com uma outra leitura. Isso fez alguma diferença nos seus relacionamentos?

 

Fez toda a diferença. Sempre preferi mulheres mas sempre senti tesão por homem. Quando era uma mulher, olhava os caras e eles me olhavam de um jeito, de um jeito óbvio, e entendo isso hoje. Um olhar de como se estivesse a serviço, como se fosse um objeto, um ser menor. A dominação nunca está só na cabeça do dominante, né? Mas também do dominado. Não sei se foi pelo fato de ter mudado de gênero que o olhar também mudou. Mas acho que muita coisa tem a ver com o meu empoderamento como ser humano, como pessoa, em não aceitar esse tipo de subjugação. O olhar dos caras pra mim também mudou. Isso permite que tenha outra relação com eles. Que esse desejo masculino não me desconcerte, não me deixe desconfortável. Ainda que o cara me olhe só com desejo, como um pedaço de carne, é diferente.

 

AM – E quando você olha para os caras. Como é?

 

Eu olho descaradamente para os caras e não tô nem aí (risos).

 

AM – Então, rola de ficar com outros caras?

 

Sim, hoje, sou bissexual bem resolvido. No passado, era radicalmente homossexual.

 

“Isso é um processo: tomar coragem e entender que meu corpo não faltava nada e que eu era bom o suficiente para fazer o que quisesse.”

 

AM – E como era sua postura antes em relação ao aspecto feminino ou masculino? Havia pressão para que seguisse algum tipo de comportamento?

 

Nunca segui as regras femininas de existência por causa do meu tipo de cabelo, da minha aparência. Mesmo que eu não bancasse isso 100%, devido à pressão familiar.

 

AM – Provavelmente te educaram para seguir um modelo…

 

E os próprios amigos, a escola. Existia uma pressão. Fazia concessões às expectativas sobre mim, mas que, eu, de algum jeito, impunha minha subjetividade. Então, fui cortar o cabelo, cara, tinha 19 anos. Finalmente, deixei de ter cabelo grande, sacô? Foi um puta choque pra muita gente. Eu queria isso desde muito tempo. É tipo, bizarro, passar por esse tipo de castração imagética de si.

 

AM – Como você começou a ficar com meninas?

 

Quando comecei a transição, namorava uma garota.  A gente ficou junto por um ano. Ela teve que terminar o intercâmbio e, aí, fiquei sozinho. Sempre rolou muito fácil com garotas. Me sinto bem à vontade. Consigo ser espontâneo. Olhava mais para os caras na rua, não sabia muito bem como ia rolar. Como ia ser essa interação, como ia chegar no cara. Meu maior temor ainda era o sexo, principalmente. Isso é um processo: tomar coragem e entender que meu corpo não faltava nada e que eu era bom o suficiente para fazer o que quisesse.

 

AM – E como se posiciona hoje para chegar em alguém, independente do sexo?

 

Para me sentir confortável e conseguir ficar com um cara, tenho que ter certeza que ele não é um machista clássico. Poh, preciso confiar que o cara me enxergue do jeito que sou, independente do meu corpo e da contradição que este corpo aparenta ter. Mas, que, na verdade, não tem. É o meu corpo, de um homem que sou. O fato de ter uma boceta e isso ser lido como se fosse uma coisa feminina, era uma coisa que me punha muito medo. Então, era isso: o medo de usar uma boceta. Me posiciono de maneira que não sou obrigado a fazer nada que não queira e nem a outra pessoa, obviamente. A gente pode achar um bom jeito de ter prazer junto. Eu não me sinto confortável quando associam o meu sexo (a transa) igual a de uma mulher. Mas, na verdade, não é. E que também não é igual ao sexo com homem cis.  O que mais escapa dessas pessoas cis, sobre o corpo de um homem trans, é a sutileza desse pinto que nasce. É uma nova ferramenta, uma nova tecnologia do meu corpo que quero explorar pra caralho. Isso não é óbvio e é difícil de ser apresentado. É uma nova proposta de relação.

 

“Nós, trans, estamos, aqui, pra provar que genital não decide porra nenhuma.”

 

AM – No universo gay a gente ainda tem essa questão binária: ativo e passivo. Queria saber seu ponto de vista sobre isso.

 

Ativo e passivo são relativos. Meu ponto de vista é que nem sempre quem tem o orifício e é penetrado é o passivo. Talvez a passividade e atividade dizem respeito a tomar decisões.  Se a gente pudesse fugir da binaridade nesse sentido seria ótimo.

 

AM – E no ambiente de trabalho? Como foi lidaram com a sua transição?

 

Foi bem interessante. Eu comecei a transição em setembro de 2013 e cheguei lá em dezembro do mesmo ano. Dois meses de hormônio, que era pouco coisa, para a transformação física. Não havia negociação da minha identidade. Eu era Theo, pronto e acabou, e queria ser respeitado desse jeito. Tenho um bom relacionamento com o pessoal lá.

 

AM – Eu sou de uma geração diferente da sua. Percebo que, na minha época, tipo uns 20 anos atrás, nem o nome trans era citado. Por exemplo, o máximo que as pessoas conheciam desse universo era o show de transformistas no programa do Silvio Santos. Hoje, parece que há uma maior visibilidade na mídia. Você, que é dessa geração mais nova, consegue perceber essa grande diferença?

 

Ainda não faz parte do imaginário social. Me diz, hoje, se as pessoas passam pela rua, olhando para outras, e imagina se aquele homem é cis ou não? Para a maioria das pessoas, ser trans ainda é uma coisa inesperada. Será que minha filha vai ser lésbica? Já é uma coisa que passa pela cabeças dos pais. Será que meu filho vai ser trans? Isso acho que ainda não.

 

AM – Você acha que podemos chegar algum dia nisso?

 

Imagine uma mulher grávida. Veja bem, as regras de gênero já começam aí, na visualização do genital do feto, na barriga da mãe, e no pensamento de escolher a cor que vai caracterizar o quarto da criança. Nós, trans, estamos, aqui, pra provar que genital não decide porra nenhuma.

 

AM – E como você observa o preconceito vindo da própria comunidade gay?

 

Já ouvi perguntas muito sem noção, cara. Aquela coisa da pessoa perguntar sobre seu genital sem mais sem menos. Já senti que um cara gay perdeu o interesse em mim quando soube que eu era trans. Isso já rolou mais de uma vez. O que acho ótimo também, pois a pessoa se toca e vai embora. E não que ache que tenha perdido grande coisa, pelo contrário.

 

AM – Será que existe um caminho para mudar isso?

 

O senso comum diz que a mulher gosta de dinheiro e gay gosta de pau. Os homossexuais são muito falocêntricos.

 

AM – Um pau grande e grosso…(risadas)

 

E que fique duro por muito tempo. (risadas). Mas uma coisa que ajuda é o diálogo e a informação. As pessoas têm que estar abertas a desconstruir. Por outro lado, ninguém salva ninguém. Posso esfregar minha foto pelado na frente do cara e ele continuar com a opinião dele. Embora seja muito interessante fazê-lo sentir tesão antes e mostrar que ele estava sentindo desejo por um homem trans. Cadê seu falocentrismo, agora? Talvez esteja gritando: “ai, meu deus, aquele cara não tem o pinto que eu imaginava…”. Eu tenho um pinto e questão é essa.

 

AM – E já rolou algo assim com você na cama?

 

Sim, já teve, uma vez, que fui pra cama com um cara e ele não sabia que eu era trans. O cara era gente boa, mas, infelizmente, chegou a fazer um comentário escroto, depois do sexo. Disse que não era aquilo que ele esperava. Porra, o rapaz gozou, gemeu, e não era aquilo que ele esperava?! Uma vez, um cara veio me cantar por meio da Internet, com uma pegada meio sadomasoquista, sabe? Ele tinha um blog que repostava coisas desse tipo. E falou de mim, do meu corpo, de um jeito que ninguém nunca tinha feito antes. Eu me amarrei, tá ligado? Foi super empoderador ele ter afirmado que tenho um extra hole para dar prazer para as pessoas. Isso foi uma sacada genial.

 

“Todos os corpos são legítimos. E de você estar bem com seu corpo do jeito que ele é.”

 

AM – E como é a relação com sua família?

 

É muito de boa!!!

 

AM – Você tem irmão? Como é a relação com ele?

 

Tenho um irmão, seis anos mais velho do que eu. A gente se dá super bem. Ele é super meu brother. A minha transição não passou pela aprovação de ninguém. Era eu comigo mesmo. Mas morri de medo de como minha mãe ia reagir: se ela ia morrer, se ia ter um infarto, se ia parar de falar comigo. Era muito pessimista nesse sentido. A voz tinha mudado (Theo faz tratamento hormonal até hoje). Ela perguntou sobre isso e, então, contei. Minha mãe achou que estava sendo muito radical, que era muito louco mas depois não falou mais nisso. A gente se encontrava e ela gostava de ver como fui me tornando um cara bonito, com barba e tal. Lembro que a gente almoçou e ela passou a mão no meu rosto e fez um carinho, saca? Pensei, cara, que da hora! Ela tá vendo que sou a mesma pessoa, talvez melhor ainda. Um cara mais feliz, seguro e tranquilo. E que não foi uma decisão louca. Foi uma decisão adulta, tá ligado?! Hoje em dia, nem erra mais o meu nome…quase. Ela mesma se sente constrangida quando erra, porque percebeu que não sou mais aquela pessoa.

 

AM – Mas também será que não é esse seu papel de se posicionar?

 

Com certeza foi! Principalmente quando comecei a cobrar dela que não me chamasse mais pelo meu outro nome. Engraçado que, no começo, ela me confundia com meu irmão porque a voz é meio parecida. E um dia ela foi fazer uma visita na minha casa. Moro sozinho, na favela e tal, e ela fica meio bolada. Aí ela falou: acho que agora não dá mais para te confundir, né? Você já tá muito igual a um homem. E eu: poh, maneiro. E ela: e você não se arrepende do que fez? Eu: não, mãe. Tô benzão, moh feliz! Percebo que ela não gosta muito do assunto, de falar da cirurgia e tal. Mas ela me respeita do jeito que eu sou, da pessoa que me tornei. Minha mãe nunca me viu, sacô? Ela nunca pode me ver e entender quem eu era. De entender o que eu dizia, meus pensamentos. Achava que tudo vinha da cabeça de outras pessoas, que era muito radical, um rebelde sem causa. Agora minha mãe me escuta e isso é interessante.

 

AM – E me conta: como foi posar pra Flesh?

 

Cara, foi muito “foda” sim. Foi muito importante. Cheguei a ficar com super medo. E uma coisa muito importante sobre o ensaio e por que tive coragem de fazer isso é devido à cultura do nudes. Tenho um grupo no Whatsapp. São meninas super “lacradoras” e mais dois homens trans. Trocamos fotos desse tipo. É pra frisar que não existe um corpo igual ao outro. Todos os corpos são legítimos. E de você estar bem com seu corpo do jeito que ele é. Todo corpo é lindo, seja ele magro, gordo, negro, trans, com peito alto, baixo, grande, bunda, boceta…aliás, a mulher é ensinada a ver a boceta como uma coisa ruim, saca? Como se fosse uma coisa negativa. Elas não se masturbam por acharem que isso é nojento. Eu não sei se quero gastar meu dinheiro para ter um falo colado no meu corpo. Posso praticar várias outras coisas que não passem por essa normatividade. Tudo bem não ser a norma. Tudo bem não estar dentro da norma. Tirar essas fotos foi gritar isso. Foi reforçar o empoderamento que vinha buscando. E o resultado estético foi ótimo, inclusive tirar as fotos naquele espaço (Casa Nem) de puta resistência. Não há outro lugar no Rio de Janeiro como aquele para a galera trans. Você não vê outros trans tão à vontade como naquele lugar.

*Átila Moreno é jornalista, com passagem pela TV Globo Minas, TV UFMG, Infoglobo e Universidade Corporativa do Transporte. É editor-chefe de conteúdo deste blog e escreve mensalmente para a Flesh-Mag.