Uma câmera na mão e um tabu fora da cabeça

*Átila Moreno

Fotos: Lucas Coelho

Responda rápido: qual nome da celebridade você associa quando a assunto é HIV ou Aids? Provavelmente, quem viveu ou tem uma vaga lembrança das décadas de 80 e 90 vai citar Lauro Corona, Sandra Bréa, Cazuza, Caio Fernando de Abreu, Renato Russo ou Freddie Mercury.

Mais de 30 anos se passaram desde que a Aids era considerada como “câncer gay”. O estigma social daquela época não se desfez totalmente e paira como uma bruma assassina que solapa carreiras. Não é à toa que muita gente do meio artístico opta por ficar recluso quando se depara com o teste positivo de HIV.

Hoje em dia, pouquíssimos têm a coragem de vir à tona, como ocorreu com o ator Charlie Sheen, em 2015.

Imagine, então, isso na cabeça de um “guri” no início da carreira artística.

Engano seu. Não foi assim com o ator Gabriel Comicholi, de 20 anos, curitibano que não se deu por vencido quando descobriu que era soropositivo.

Digamos que ele praticou a célebre frase do cineasta Glauber Rocha: uma câmera na mão e um ideia na cabeça.

Pronto. Estava criado o canal HDiário em que Gabriel fala, de maneira bem didática e humorada, sobre sua rotina de tratamento, tira dúvidas com ajuda de especialistas, dá dicas e muito mais.

 

A coluna “D&P com Átila Moreno” foi conversar com o youtuber que já serve de referência pra muito marmanjo por aí. Saboreie com toda calma do mundo.

 

AM – Como surgiu a ideia de fazer um canal no YouTube para falar da sua vivência com o vírus HIV?

Eu sempre tive muita vontade de trabalhar com internet, quando fui surpreendido ao saber que estava com HIV, liguei um fato ao outro e criei o canal, sem pensar duas vezes.

 

AM- Você mesmo que grava e edita os vídeos? Tem alguma formação nessa área? Ou aprendeu tudo sozinho?

Sim, sou eu quem gravo e edito os vídeos, mesmo sem nenhuma formação. Como tenho muitos amigos que trabalham com internet, fui pedindo dicas e aprendendo a fazer tudo sozinho. A única parte que não faço é a arte do canal que peço ajuda aos amigos.

 

AM – Aliás, você é ator. Muitos dos profissionais desse meio sequer têm a coragem de se abrir assim, da forma que como você fez, inclusive sobre a sexualidade também. Como foi a reação da sua família e das pessoas que do seu círculo social ao saberem que você iria se expor para falar de um tema que ainda é tabu pra sociedade?

Por incrível que pareça a reação de amigos e familiares foi a melhor possível, acho que se não fosse a força que todos me deram, talvez, hoje, o projeto não existisse. Eu imagino que todos reagiram muito bem por conta da minha reação à notícia. Sempre estive muito tranquilo.

 

AM – Aproveitando esse gancho, teve até um episódio gravado com a sua mãe, no YouTube. Também, no trailer sobre seu filme, que ainda será lançado, ela demonstra uma certo receio quando você resolve se abrir para o mundo virtual. Como foi esse processo até chegar na fase em que ela está, ao seu lado, participando do projeto.

A mãezinha é uma “anja” (sic). O áudio que aparece no trailer do filme é o áudio original do momento que conto pra ela sobre o HIV. Ela estava muito surpresa e ainda não sabia muita coisa sobre o assunto, assim como a maioria das pessoas. Hoje em dia, ela me apoia e tem um carinho imenso pelo projeto, e juntos já aprendemos muito.

 

 

AM –  Você estabelece algum limite para não errar a mão na vertente cômica ao abordar um tema ainda complicado para as pessoas?

Pra ser sincero não! Eu trato o assunto como ele deve ser tratado, sem nenhum tabu, com leveza e humor. Se eu não agisse assim as pessoas não me ouviriam.

 

AM – Como tem sido a reação do público? Como é perfil das pessoas que comentam e te seguem?

Desde o começo, a reação do público tem me surpreendido muito! Fiquei impressionado como as pessoas compraram a ideia e acham importante falar sobre o assunto. Entram em contato comigo e me seguem pessoas de todas as idades, desde senhoras a jovens, e eu amo essa troca de experiências.

 

AM – Como o Gabriel, nesta idade, reagiria à descoberta do vírus HIV, se vivesse na década de 80?

Eu realmente não consigo te dar uma afirmação sobre essa pergunta. Foi uma época muito “pesada” para os portadores do vírus, a falta de medicamentos e de informação era imensa. Hoje em dia, o tratamento esta muito mais avançado e acessível.

 

AM – Qual é o seu vídeo que causou maior discussão/repercussão até agora?

Com certeza, é o primeiro vídeo sobre a descoberta. Hoje, ele já passou de 135.000 mil visualizações e tem muitos comentários de todos os tipos.

 

AM – Você já tem 15 mil seguidores. A gente sabe que quanto mais visibilidade, maior a chance de receber enxurradas de críticas de todos os lados. Já teve algum problema com isso?

Nunca tive problema nenhum! E também fico surpreso com isso. Eu sempre soube que estava lidando com um assunto delicado.  Estava preparado pra muitas críticas negativas e elas aconteceram, mas a proporção de amor que recebo torna o ódio irrelevante. O número de pessoas que apoiam e acham importante falar sobre isso é bem maior.

 

AM – Está vindo um filme sobre você, Horizonte de Eventos. Fale mais sobre esse projeto e outras ideias que você tem em mente daqui pra frente.

Sim! O filme esta tão lindo! Tenho muito amor por ele, é um grande pedaço dessa nova fase. Tenho muito que agradecer ao Gil Baroni e a Beija Flor Filmes que trataram o material com muito carinho e resultado ficou demais! É basicamente um curta-metragem de 15 minutos que fala sobre amizades em tempo de conectividade. Quando o Gil assistiu o primeiro vídeo do canal, ele me chamou para conversar pra gente desenvolver alguma coisa juntos. Quando nos encontramos, mostrei a conversa que tinha gravado com minha mãe. Ele ficou encantado e, a partir disso, começamos a desenvolver o filme, que já está pronto e está sendo inscrito em festivais nacionais e internacionais de cinema. Tem o lançamento previsto para mês que vem, e provavelmente será lançado no canal da Beija Flor Filmes. Em relação ao meu canal, em cada vídeo procuro trazer conteúdo informativo e entretenimento. Felizmente, o canal está crescendo bastante, e ainda tem muita coisa pra acontecer, tenho muitos projetos e ideias.

 

*ÁTILA MORENO É JORNALISTA, COM PASSAGEM PELA TV GLOBO MINAS, TV UFMG, INFOGLOBO E UNIVERSIDADE CORPORATIVA DO TRANSPORTE. É EDITOR-CHEFE DE CONTEÚDO DESTE BLOG E ESCREVE MENSALMENTE PARA A FLESH-MAG.

** Fotos por Lucas Coelho