Um outro olhar sobre a não binaridade

“Isso sempre esteve em mim, desde que me entendo por gente. Sempre tive uma inconformidade com coisas pra meninos e coisas pra meninas”.

*Átila Moreno

Rosa ou azul? Ainda está pensando? Talvez você não prefira nenhuma das duas, não é?

Agora imagine ser condicionado a escolher somente uma delas, mesmo sabendo que há um arco-íris de outras cores as quais você se identifica.

A sociedade ocidental, estabelece uma relação binária quando o assunto é gênero. Já nascemos plugados na ideia que: ou se é homem ou se é mulher. Ponto final. Na verdade, vamos colocar uma interrogação aí porque não é bem assim, viu!

Tem gente que não se vê nesses pólos e/ou transita entre eles. São as pessoas não binárias. E não pense que isso é novidade. Por exemplo, lá na Indonésia, os Bugis têm cinco identidade de gêneros. Uma delas é chamada de bissu, que é a combinação de todos os gêneros.

A coluna D&P com Átila Moreno foi atrás do casal não binário Carmen Laveau e Bru Marques, que está junto há mais de um ano. Els são modeles no novo ensaio da Flesh-Mag. Carmen tem 21 anos, é atore e performer. Bru, de 29 anos, é servidore público.

Dá até pra repensar a ideia de casal 20 eternizada pelo série norte-americana Hart to Hart, da década de 80. Aliás, os dois, aqui, provam que casal 21 se encaixa mais nessa percepção, que pra muitos pode ser moderna, e tem muito a ver com este novo século.

 

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“Acho que sendo uma pessoa num corpo XY, de sexualidade normodesviante, com uma expressão de gênero mais ‘feminina’, a ideia de homem e mulher já não era tão apropriada pra mim, desde que comecei a me reconhecer como pessoa social.”

 

AM –  Como vocês se conheceram? Como foi esse encontro?

Carmen – Numa onda muito boa, na edição de final de ano de uma festa. Estávamos na pista e notei el dançando próxime a uma parede. Passei a noite toda tomando coragem pra falar com el e quando estava indo embora consegui me despedir com um beijo. Bem, só cinco meses depois que fui reencontrar essa criatura e el não lembrava de nada da festa, mas, mesmo assim, desde que nos reencontramos, nós nunca mais nos separamos.

AM – Como vocês se definem em relação ao gênero?

Carmen – Eu me identifico como pessoa não binária que performa androginia.

Bru – Me considero pessoa não binária de performance andrógena.

AM – Quando alguém pergunta se vocês são homem ou mulher, qual a primeira ideia que vem à cabeça?

Carmen e Bru – Nenhum dos dois.

“O processo de reconhecer gênero é da pessoa, tem relação com a vivência dela.”

AM- Como você lidam com situação corriqueiras normativas já que vocês não se veem restritamente nos pólos, masculino e feminino?

Carmen – Olha, se por acaso eu acabar tendo uma atitude “normativa”, na verdade, uma atitude que não corresponde estritamente as minhas ideologias, o que estamos todes sujeites a isso, já que tudo é um processo de aprendizado, eu lido com isso com reflexões sobre a atitude hipócrita que possa acabar tendo e, com isso, me regrar pra que não aconteça mais. O mesmo que costumo fazer quando isso parte de outra pessoa, tento conversar e fazê-la refletir sobre o que ela está falando.

Bru – Eu busco sempre afirmar minha relação com gênero e conversar sobre novos olhares em relação a isso, sempre visibilizando minha identidade e afirmando a nossa existência nos espaços.

AM – Aliás, como é, para vocês, lidarem com toda um discurso voltado à heternormatividade?

Carmen – Eu, particularmente, não gosto muito do termo “heteronormativo” por que enxergo como uma forma pejorativa de lidar com a orientação sexual de outras pessoas. Mas lido com os padrões de masculinidade, que a sociedade tenta nos enquadrar, batendo de frente pra pararem de marginalizar as bichas afeminadas, as bichas gordas, as bichas pretas e todes que não se enquadram nesses padrões.

Bru – Você quer dizer no meio LGBTQ+ ou na sociedade em geral? Porquê são diferentes mas tem a mesma raiz: o homem cis branco. Eu lido com esses discursos não estimulando-os, e tentando conversar sobre um outro olhar em relação à vivência de gênero.

AM – Quando foi que vocês tiveram a percepção de que não se “enquadravam” nessa ideia que só existe homem ou mulher?

Carmen -Isso sempre esteve em mim, desde que me entendo por gente. Sempre tive uma inconformidade com coisas pra meninos e coisas pra meninas. Mas só tive acesso a todo discurso queer, que foi o que me introduziu profundamente nos movimentos LGBTQ+, já na faculdade.

Bru – Não sei se consigo responder isso porque foi tudo um processo; mas eu acho que sendo uma pessoa num corpo XY, de sexualidade normodesviante, com uma expressão de gênero mais “feminina”, a ideia de homem e mulher já não era tão apropriada pra mim, desde que comecei a me reconhecer como pessoa social.

AM – Vocês se espelham em alguém? Há alguém como referência, hoje, como exemplo a ser seguido?

Carmen – Olha, me espelho na minha vivência, por que é a única coisa que tenho. Minhas referências são as manas da periferia que encaram a sociedade sem medo e são muito mais firmes nos discursos que estudamos dentro do conforto de nossas bolhas, mesmo não tendo acesso a isso.

Bru – Eu não acho que gênero tem alguma coisa a ver com exemplo ou referência a ser seguida, a não ser que esse exemplo seja uma outra sociedade. O processo de reconhecer gênero é da pessoa, tem relação com a vivência dela.

 

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“Não adianta se dizer a pessoa mais não binária, a ‘desconstruídx’, mantendo os privilégios binários enquanto as manas da periferia estão morrendo.”

 

AM – Na opinião de vocês, como fazer com o que a  não binariedade ganhe mais visibilidade e representatividade?

Carmen – Isso não vai ser um processo rápido, sem sombra de dúvidas vai ser um processo extremamente demorado. Por que a sociedade ainda está entendo outras mil questões do movimento LGBTQ+, até nós conseguirmos ser reconhecides juridicamente ou por documentos oficiais como pessoas não binárias, o que é só o primeiro passo, ainda vai demorar muito. Mas óbvio que nossa militância não deve diminuir por causa disso, não é por isso que não devemos ocupar espaços e nos firmarmos na sociedade pra mostrar que existimos e resistimos.

Bru – Eu acho que a representatividade é consequência da visibilidade, e a visibilidade vem com a gente falando sobre isso, botando a cara e fazendo as pessoas entenderem que o gênero está pra além dessa binaridade toda. Mas isso não vai ser agora. A gente ainda tá lidando com questões mais fundamentais em relação a gênero mesmo dentro da binaridade. As mina estão aí pra dizer isso muito melhor do que eu.

AM – Em 2014, o Facebook passou a oferecer 56 opções de gêneros aos usuários nos EUA no preenchimento do perfil da Rede Social.A Alemanha e Austrália são países que têm medidas legais para reconhecimento de outros gêneros. Como vocês veem  esse tipo de iniciativa?

Carmen – Incrível e que devem ser cada vez mais incentivadas.

Bru – Em relação ao Facebook, por ser uma rede social, eu acho fundamental a mudança. As medidas legais de reconhecimento de gêneros não binários são importantíssimas para novas relações de afirmação de direitos de gênero por outros países.

AM- Hoje quais são as principais dificuldades enfrentadas por vocês?

Carmen – A sociedade tentando nos enquadrar sempre no masculino ou no feminino, o estranhamento e o desrespeito de pessoas cis com as nossas pautas e a LGBTfobia, claro.

Bru – De qual recorte a gente tá falando aqui? Porque a vida é interseccional e as dificuldades da gente também, né? É a dificuldade da pessoa andrógina, que é a bicha preta/india “feminina” numa sociedade racista, machista e classista, lgbtfóbica.

AM – Como a gente pode se”desplugar” dessa ideia de que só existe ele ou ela?

Carmen – Pesquisando, lendo, conhecendo pessoas que tem essa vivência, respeitando sempre. Acho que são fundamentos ótimos que as pessoas com acesso deveriam fazer. E nós, que queremos ter nossos direitos de sermos quem quisermos ser, devemos trabalhar pra levar tudo isso também pras pessoas que não tem acesso a esses discursos. Não adianta se dizer a pessoa mais não binária, a “desconstruídx“, mantendo os privilégios binários enquanto as manas da periferia estão morrendo.

Bru – Eu acho que é um exercício bom observar e se questionar sempre sobre esses signos, essas expectativas e papéis de gênero para tentar enxergar algumas coisas entre uma ponta e a outra – que não são pontas.

*Átila Moreno é jornalista, com passagem pela TV Globo Minas, TV UFMG, Infoglobo e Universidade Corporativa do Transporte. É editor-chefe de conteúdo deste blog e escreve mensalmente para a Flesh-Mag.


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