Tesão e Opressão: as nuances fascistas do desejo macho

Gleiton Matheus Bonfante*

Em 1939, a União Soviética invadiu a Finlândia. A resposta: uma aliança com a Alemanha que iniciou um confronto de dois anos. Soldados nazistas e finlandeses lutaram lado a lado na Guerra de Inverno, entre eles um jovem tenente chamado Touko Valio Laaksonen, que se relacionava sexualmente com vários soldados e fetichizava com os uniformes, as jaquetas e as botas que cobriam os corpos arianos e másculos no front.

Com o fim da guerra, Touko regressou a Helsinki mas se recusava a participar de uma cena gay extravagante e cosmopolita. Em seu quarto, revivia e reimaginava, no papel, as lembranças e fantasias que viviam dentro dele.

Em segredo, ele desejava a aspereza da guerra, a rispidez dos soldados e os perigos do desejo militar homo. Em 1956, ele enviou seus desenhos a uma revista americana e, em 1957, um de seus homens estampou a capa da revista Physique Pictorial, assinado por Tom da Finlândia.

Touko, ou Tom da Finlândia, passou a ser aclamado como daddy da arte homoerótica e ficou conhecido por apropriar-se de signos de suprema masculinidade para tecê-los em uma atmosfera de extremo erotismo homoafetivo, fundando uma estética que elege a masculinidade exacerbada como região de desejo e estratégia de afeto gay.

 

Homens fardados de Tom da Finlândia

Homens fardados de Tom da Finlândia

 

Por meio de uniformes, artigos de couro, corpos musculosos e picas colossais, Tom da Finlândia não apenas exalta a macheza, mas deixa ver as fissuras homoeróticas do masculinismo fascista. É justamente o desejo, o tesão e o elogio à masculinidade que conectam o trabalho de Tom da Finlândia com o regime totalitário nazista.

A História se apoia tradicionalmente na produção extensa de narrativas heróicas e grandiosas, ignorando, de acordo com o teórico queer Jack Halberstam, “a feiura, ignorância, fracasso e estupidez” como inspiração para o conhecimento.

A tessitura da história da homossexualidade se respalda em narrativas que privilegiam a figura do gay mártir, o romance da resistência, a vitimização persecutória e o heroísmo da sobrevivência. É fato que tais traços são constitutivos da história queer! Outro fato é a existência de um grande silêncio a respeito de como sujeitos homossexuais corroboram para a perseguição e martírio de muitos outros de nós.

De acordo com a pesquisadora Dagmar Herzog, não era a homossexualidade em si que era perseguida pelo nazismo, mas a feminilidade masculina, “como parte de um sistema racial dedicado à promoção da reprodução ariana”.

Na brilhante análise de Jack Halberstam, que inspirou essa reflexão, o homem judeu era efeminado pelo seu investimento social e afetivo na casa e família, um espaço tipicamente feminino. Assim como homossexuais efeminados, os judeus  “não viviam plenamente seu dever viril para se manter comprometidos a outros homens masculinos e com um Estado e esfera pública masculinistas”. Os homossexuais ajustados a expectativas heteronormativas eram não apenas tolerados, mas colaboravam com o regime.

Esse masculinismo, que serviu de material para o imaginário erótico de Tom, é partidário da estética e do poder nazista. Tom deixa ver em sua obra uma delicada e incômoda conexão entre homossexualidade heteronormativa e regimes totalitários. Delicada e incômoda por que sugere que, nossos desejos sempre pensados como resistências, podem ser partidários de nossas próprias opressões.

De que o desejo é político não há dúvidas, pelo menos desde a antropóloga sadomasoquista Gayle Rubin. Contudo as formas como desejo e política se conectam são imprevisíveis. E, no entanto, como questiona Jack Halberstam em The Queer Art of failure: porque continuamos a identificar desejo homossexual inequivocamente com radicalismo político, subversão e resistência à heteronormatividade?

“Why we cannot tolerate the linking of our desires to politics that disturbs us?” (Halberstam; Queer Art Failure, p. 153)

 

representação típica nos desenhos de Tom é dupla personalidade: o homem socialmente ajustado e o homem fetiche couro-uniforme e dominação

Representação típica nos desenhos de Tom é dupla personalidade: o homem socialmente ajustado e o homem fetiche couro-uniforme e dominação

 

Propor que elementos fascistas permeiam nosso imaginário e nosso desejo não significa aceitar necessariamente uma natureza cruel, masculinista e sissyfóbica em nós, mas perceber que desejo e política estabelecem relações muito mais complexas do que podemos prever. E mais importante: nos lembra que desejo também é campo de ativismo, é lócus de transformação social e região de produção de significados sociais e relações éticas.

Eu compreendo que refletir sobre o desejo homoerótico por virilidade desvelando seus contornos fascistas é desconfortável, perturbador e até irritante. Porém, é tema essencial em uma sociedade que testemunha:

1) uma adesão cada vez mais frequente de LGBTs a partidos de extrema direita;

2) a constante demanda de nossos parceiros por padrões performativos inatingíveis de virilidade – como os de Tom! Padrões que fluem tanto no silêncio das imagens quanto no alarde das palavras como “macho x macho”, “discreto”, “não sou nem curto afeminado”;

3) Violações de direitos humanos, tortura e assassinato de LGBTs em diversos lugares do mundo, para os quais homossexuais heteronormativos e a sociedade heteronormativa colaboram.

Até quando vamos negar que na história somos tanto a vítima de outros quanto o algoz de nós mesmos? Dentro de nossos desejos habitam, tanto o libertador quanto o monstruoso.

 

 *Gleiton Matheus Bonfante é linguista, mestre e doutorando em Linguística Aplicada pela UFRJ e  faz parte do grupo de pesquisa Núcleo de Estudos de Discurso em Sociedade (NUDES).  Poeta e autor do livro Erótica dos Signos em Aplicativos de Pegação, escreve mensalmente para o blog da Flsh-Mag.