Teoria, carne e marcos iniciais da pós-pornografia

“A percepção de que a pornografia é um campo de discursos e atuações políticas e não apenas um conteúdo audiovisual para deleite sexual e pessoal é uma reflexão fundamental para o que viria a ser, mais tarde, o pós-pornô.”

 

Vitor Grunvald*

Em 1989, o Teatro Harmony, em Nova Iorque, recebeu a performance: A Public Cervix Anouncement. Ali, Annie Sprinkle propôs um ato de traição com nossa antiga tradição colonial e biopolítica.

Herança que, na regulação dos corpos, faz das genitais de uma mulher algo que deva ser preservado, protegido e tutelado, mas nunca algo verdadeiramente experimentado e exposto.

Sprinkle botou lenha na fogueira no inflamado debate político, conhecido como “Sex Wars” ou “Porn Wars”, que animou muitas feministas na década de 1980.

De um lado, feministas viam na pornografia (e também em práticas como a prostituição) atividades que reforçavam tudo aquilo que o patriarcado esperava de uma mulher, isto é, que ela se comportasse como um objeto passivo do desejo masculino.

De outro, feministas pró-sexo viam essa postura como puritanismo e defendiam que a pornografia poderia, sim, funcionar como um campo de experimentação da sexualidade feminina e empoderamento da mulher e seu corpo.

 

posporno3

Autoretrato Maria Llopis (RoyalWedding)

 

“Empoderamento: processo pelo qual um indivíduo, um grupo social ou uma instituição adquire autonomia para realizar, por si, as ações e mudanças necessárias ao seu crescimento e desenvolvimento pessoal e social numa determinada área ou tema. Implica, essencialmente, a obtenção de informações adequadas, um processo de reflexão e tomada de consciência quanto a sua condição atual, uma clara formulação das mudanças desejadas e da condição a ser construída.” (Glossário Social, Comunicarte)

 

A percepção de que a pornografia é um campo de discursos e atuações políticas e não apenas um conteúdo audiovisual para deleite sexual e pessoal é uma reflexão fundamental para o que viria a ser, mais tarde, o pós-pornô.

 

Teoria e carne

 

“Pensando a pornografia como uma noção essencialmente política e denunciando a lógica que perpassa sua produção e consumo, o pós-pornô se torna uma prática ético-estética de corpos dissidentes…”

 

O pós-pornô denuncia que a pornografia comercial não é apenas um produto a ser consumido, sem consequências e efeitos políticos e subjetivos. Ela é também um instrumento de pedagogia sexual e, portanto, um dispositivo de controle e regulação tanto dos corpos quanto das sexualidades e das maneiras como as pessoas constroem suas identidades sexuais e de gênero.

 

Performance coletivo coiote

 

 

 

Sprinkle, considerada uma das precursoras, já falava em pós-pornô, na década de 1980, mas foi apenas nos anos 2000 que o movimento ganhou fôlego, principalmente, após a realização do encontro FeminismoPornoPunk em San Sebastián, na Espanha, do qual participaram importantes a(r)tivistas que vinham articulando questões relacionadas às dissidências de gênero, sexualidade e uma prática pornoartística como algo inseparável de suas vidas.

 

“Naturalizar a aberração no corpo dos outros é tentar se higienizar de um contato com o mundo verdadeiramente transformador que, estando fora da gente, em seres abjetos e excepcionais, pode ser até valorizada, mas não é necessariamente vivida.”

 

Pensando a pornografia como uma noção essencialmente política e denunciando a lógica que perpassa sua produção e consumo, o pós-pornô se torna uma prática ético-estética de corpos dissidentes, não porque estes corpos sejam naturalmente subversivos, mas porque suas experiências crítico-existenciais colocam em relação subjetividades impossíveis, inviáveis e invivivéis a partir da lógica de legitimidade cisheteronormativa.

Não separar teoria e carne, como explicitamente propõe Maria Llopis, é uma posição que permite produzir narrativas que misturem discussões políticas e experimentações existenciais. Outros territórios e possibilidades de vida.

A luta é contra uma forma de viver a sexualidade que passe ao largo da visão restritiva de uma sexualidade normal por oposição aquilo que é aberrante e perverso. E a prática é uma prática política de contaminação.

Naturalizar a aberração no corpo dos outros é tentar se higienizar de um contato com o mundo verdadeiramente transformador que, estando fora da gente, em seres abjetos e excepcionais, pode ser até valorizada, mas não é necessariamente vivida.

Daí, porque, não se trata de exaltar o desvio, usando a lógica ufanista da norma ao reverso. Ufanista porque trata do território existencial que construiu para si, como aquele que é mais verdadeiro ou legítimo.

 

posporno2

Barbara Kruger, Your body is a battleground, 1989

 

O importante é cavucar em si aquilo que não é “si”, aquilo que não é você. Não o que está fora de alguém, mas aquilo que está fora em alguém. E a isso, o pós-pornô é um convite corporal, pois, como bem afirma Barbara Kruger: “seu corpo é um campo de batalha”.

Sugestões de leitura:

*Vitor Grunvald é doutor em antropologia pela USP, pesquisador do Grupo de Antropologia Visual e do Núcleo de Antropologia, Performance e Drama, ambos do Laboratório de Imagem e Som em Antropologia da mesma universidade. Tem formação também em cinema, é realizador audiovisual, nortista e viado de carteirinha, dentre otras cositas más.

** Imagem da Capa: Annie Sprinkle, Performance “A Public Cervix Anouncement”, 1989