Queermuseu e a crítica da crítica

Vi Grunvald*

Quando, há semanas atrás, eu tomei conhecimento sobre a abertura da exposição Queermuseu: cartografias das diferenças na arte brasileira, decidi que escreveria um texto sobre ela. Mas o teor que imaginava naquele momento não continha questões sobre as quais, hoje, sou obrigado a escrever.

A minha motivação inicial foi o estranhamento que senti quando vi essas duas palavras juntas: queer e museu. Obviamente, o meu entejo tinha e tem a ver com o conjunto de significados que essas palavras emanam pra mim.

Queer é uma noção que vem sendo apropriada de formas muito diferentes (e, por vezes, bem complicadas) em terras brasilianas. Mas eu, na insistência de que ela sirva para algo, ainda a associo a alguma coisa fora do lugar, recalcitrante, não facilmente encaixada ou reconhecida e, com alguma sorte, disruptiva.

Já “museu” me traz um conjunto de sentidos bem diferentes desses aí. Se a arte – ou, pelo menos, aquela que, para mim, vale a pena – é resistência, o museu, por outro lado, como lugar da arte institucionalizada, é nomeação, classificação, estabilização e higienização. O museu, qualquer museu, sempre constrói legitimidade para práticas e representações que buscam desestabilizar o que é socialmente aceitável ou normalizado e que, por isso, são, pelo menos a princípio, não legítimas.

Assim, o fato dessas duas palavras se fundirem em uma única, colocava, de imediato, a desconfiança de que alguma delas tenha sido negligenciada. E não é difícil saber qual, se levarmos em conta que uma das maneiras mais engenhosas de diminuir o potencial de um argumento subversivo é incorporar a crítica a seu próprio discurso.

Ponto para o museu. A/o queer, que associo ao desconforto que brota de corpos e práticas sexo-gênero dissidentes, estava ali na parede branca do centro cultural do banco, literalmente e simbolicamente enquadrada/o, domada/o.

Uma volta ao passado

Nos meus devaneios, rapidamente veio à cabeça o argumento de Jennifer Doyle em Queer Wallpaper. Nesse curto texto, Doyle fala de uma obra de Andy Warhol à qual tinha acesso livre e regular. Era uma imagem que compõe a série Sex Parts, toda ela excluída das grandes retrospectivas da obra do artista.

Exclusão que, aliás, não é de todo extraordinária. Na introdução do livro Pop Out. Queer Warhol, editado por Doyle, Jonathan Flatley e José Estaban Muñoz, xs organizadorxs do volume denunciam como a história da arte oficial sempre des-homossexualizou “Andy” desde o princípio.

Para Doyle, no entanto, a natureza verdadeiramente queer daquela obra de Warhol não estava nos caralhos e cus que ela representava. Para ela, “o fato da imagem de Warhol mostrar sexo entre homens pode fazer dela gay, mas não faz dela necessariamente queer”. O que havia de mais queer naquela obra era a apreciação absolutamente despretensiosa que sua exibição oferecia.

Ela estava pendurada, junto com outras obras de artistas não consagrados, na parede do M.J., um bar gay que a crítica de arte frequentava com seus amigos em Los Angeles. Ninguém precisava pagar entrada para vê-la, nem ser convidade para visitar o acervo privado de algum rico colecionador. Ela estava ali, quase como um papel de parede, acessível a todes que quisessem entrar no bar, tomar uma cerveja e que a veriam, quem sabe, no caminho do banheiro para esvaziar uma incômoda bexiga cheia de mijo. Quanta sacralidade e quanta pompa para um ícone da arte do século XX!

Performance de Miro Spinelli com convidades na 2ª edição de Frestas - Trienal de Artes do Sesc Sorocaba. O artista não foi enquadrado no Queermuseu. Foto: Fábio Rogério

Performance de Miro Spinelli com convidades na 2ª edição de Frestas – Trienal de Artes do Sesc Sorocaba. O artista não foi enquadrado no Queermuseu. Foto: Fábio Rogério

 

Artista e cantora Linn da Quebrada, terrorista de gênero que faz dos palcos um lugar de resistência. Foto: Vivi Bacco

Artista e cantora Linn da Quebrada, terrorista de gênero que faz dos palcos um lugar de resistência.
Foto: Vivi Bacco

Mas minhas ressalvas e meu incômodo não paravam por aí. Para mim, falar de arte queer não é ou não deveria ser falar apenas sobre representação de corpos e práticas sexo-gênero dissidentes, nem tampouco falar apenas sobre institucionalidade no mundo da arte. Deveria ser, necessariamente, falar da arte feita por essas pessoas que desafiam os padrões de normalidade de gênero e de sexualidade e assumem esse lugar como um lugar político.

Portanto, arte queer não apenas como arte que representa aquilo que é associado a queer, mas arte que é produzida por pessoas que assumem as dissidências de suas identidades, de seus desejos e seus corpos na produção de uma obra artística. E que, em geral, por isso mesmo, são excluídas do mundo canônico da própria arte e do mundo comportado e higienizado do museu.

Difícil encontrar um lugar comum entre essas concepções e a proposta de Gaudêncio Fidelis para Queermuseu. E, outra vez, nada de novo no horizonte. A apropriação das lutas contemporâneas em torno das dissidências sexuais e de gênero pelo mundo institucional da arte, pelas “campanhas inclusivas” da publicidade e pelo mercado segmentado de produtos não nasceu com essa exposição e não vai terminar com ela.

Mas acontece que a gente está vivendo em um mundo no qual o conservadorismo recrudesce a cada respiro que damos. E mesmo expressões domesticadas de subversão eficiente – aquela que o CIStema heteronormativo consegue incorporar sem problemas e até com ganhos – são pintadas como possíveis revoluções que merecem ser combatidas em nome da moral, dos costumes, da família, da religião e mesmo de uma infância supostamente profanada.

E aí tudo muda de figura. E aí que, ainda que por motivos diametralmente opostos e com uma ironia que nunca deixa de me espantar, eu, porta-vozes do MBL, o prefeito de Porto Alegre e deputados do PSDB que se pronunciaram na plenária da Câmara contra as obras exibidas, estamos no mesmo saco, o saco de críticos da exposição.

E aí que agora é preciso sair do saco e defender aquilo que era visto como problemático e incômodo. E fazer a crítica da crítica conservadora que censura a mais ínfima expressão de sexualidade como se fosse um furacão Irma a levantar, com ventos imaginários, seus telhados de vidro.

E aí os abaixo-assinados, as publicações, as matérias, as mobilizações. As indignações com as indignações. As revoltas com a revolta daqueles que acham possível abafar o mundo com um categórico “NÃO” às suas expressões visíveis.

Por sorte, àquelxs com xs quais me nego a compartilhar o saco, falta inteligência onde sobra iniciativa. E toda a censura, absorvida e encampada pelo banco que tropeçou e caiu no discurso de diversidade que ele próprio se orgulha de ter, acabou armando uma imensa vitrine.

E a exposição que, na melhor da hipóteses, suscitaria questões a um público reduzido de pessoas de classe média, provavelmente brancas e cisgêneras de uma cidade do Sul do país, passou a ser publicizada, discutida e vista em telas, matérias e jornais do mundo inteiro (Sim, recebi até mensagem de historiadora e crítica de arte de fora do Brasil perguntando sobre o ocorrido!)

E com a carga de ironia que não falta ao imbróglio, a crítica e a censura trouxeram à exposição um sucesso que ela jamais teria sem a ajuda dxs conservadorxs de plantão. E o erro deles se transformou num acerto nosso, nós que, por conta de circunstâncias esdrúxulas, acabamos por defender aquilo que criticamos.

*Vitor Grunvald é ativista de direitos humanos e membro da Revolta da Lâmpada. É pesquisador do Grupo de Antropologia Visual (GRAVI), do Núcleo de Antropologia, Performance e Drama (NAPEDRA) e do Núcleo de Estudo dos Marcadores Sociais da Diferença (NUMAS), todos da Universidade de São Paulo. Tem formação também em cinema, é realizador audiovisual, nortista e viado de carteirinha, dentre otras cositas más.