Por um fio: vamos falar sobre suicídio?

“Tenta achar que não é assim tão mal

Exercita a paciência

Guarda os pulsos pro final

Saída de emergência”

 

Pulsos – Pitty

 

O suicídio e a morte já foram abordados em filmes, ritos, religiões e na música. Um exemplo é a canção de Raul Seixas  em que a morte nos remete a difícil questão de refletir sobre a vida e a nossa convivência em sociedade.

 

Muitos tabus cercam o suicídio e, geralmente, não damos a merecida atenção ao tema, que, muitas vezes, é visto como uma “fragilidade pessoal” ou uma “fraqueza”. Hoje, dia 10 de setembro, é o Dia Mundial da Prevenção do Suicídio, um momento para pensar no assunto.

 

O relatório da OMS (Organização Mundial da Saúde) aponta que aproximadamente 800 mil pessoas dão fim a sua vida a cada ano no mundo, sendo o Brasil o oitavo país nas Américas em números de suicídio.

 

Para a coordenadora do Centro Latino-Americano de Estudos de Violência e Saúde Jorge Careli (CLAVES) Cecília Minayo, o suicídio caracteriza-se pelo ato deliberado de infligir a própria morte, incluindo fatores biológicos, psicológicos, médicos e sociais.

 

Já a pesquisadora do campo Violência e Saúde Liana Pinto lembra que todo suicídio tem um componente de escolha do sujeito diante de circunstâncias sociais, psicológicas, ambientais e médicas muito dolorosas.

 

Daí a importância de contextualizar para chegar ao caso concreto. Há um consenso entre grande parte dos pesquisadores do campo da  saúde de que é possível prevenir o ato de dar fim da própria vida. Um caminho possível é conhecer um pouco contextos sociais que podem intensificar a falta de desejo por viver.

 

O processo de construção que leva tentativas de concretizar a própria morte, percorre caminhos distintos, de acordo com cada pessoa e perpassa por vivências singulares, minimamente associadas a conflitos e devaneios emocionais difíceis de serem suportados.

 

No entanto, não se pode desconsiderar os aspectos sociais que rondam o desejo pela própria morte.

 

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“Mas, afinal, o que efetivamente levaria uma pessoa a tirar sua própria vida? Essa pergunta certamente não terá uma resposta única e nem fácil.”

 

Atualmente o suicídio é um grande problema de saúde pública que percorre campos polêmicos e envolve necessariamente a reflexão de realidades sociais.

 

Dentre os muitos motivos que podem levar uma pessoa a interromper sua própria vida, faz-se  necessário destacar a depressão  como um aspecto importante.

 

Aliás, esse é um estágio de alerta para todos que convivem com pessoas acometidas por esse transtorno, que pode ser correlacionado a tentativas de suicídio. Determinados grupos são mais afetados por situações específicas que podem levar a transtornos mentais graves como a depressão.

 

Mas, afinal, o que efetivamente levaria uma pessoa a tirar sua própria vida? Essa pergunta certamente não terá uma resposta única e nem fácil. Isso em função da multicausalidade presente em situações de tentativas de suicídio.

 

Algumas pesquisas já apontam para respostas que ajudam a compreender um pouco mais essa situação.

 

Na população trans, destaca-se a vivência da transfobia e depressão como fatores relevantes a serem considerados, conforme os debates do Seminário Suicídio da População Trans: limites entre vida e morte.

 

Fatores cotidianos podem trazer experiências insuportáveis e dolorosas, como o dia a dia dentro de casa, a convivência com parceiros sexuais, o não acesso ao mercado de trabalho, o processo de discriminação que são acometides, caracterizando-se em violência física e estrutural – como aponta a carta de suicídio da jovem transgênero Leelah.

 

Dentre outros grupos, em que o suicídio também se configura como grave questão de saúde, estão as populações de homens idosos e pessoas com HIV.

 

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É imperativo romper com a “negação coletiva” que temos acerca da dor do outro e os mitos diante da morte.

 

Temos urgência em desconstruir nossa insensibilidade e abandono das dores de pessoas que cometem tentativas de suicídio – por vezes minimizadas como “besteiras”, “fraqueza”, ou “alguém que quer aparecer” – quando na verdade a pessoa quer sumir.

 

É preciso desconstruir a crença popular de que “quem quer se matar de verdade não avisa”.

 

As experiências no campo da saúde mental mostram exatamente o contrário, normalmente uma tentativa de suicídio é anunciada, muitas vezes, antes de ocorrer. Não é muito difícil observar pessoas que estão passando por situações insuportáveis.

 

Necessitamos solicitar ajuda mesmo que não estejamos pensando em nos matar. Existem espaços que podem auxiliar em momentos difíceis como o Centro de Valorização da Vida.

 

A infelicidade, a depressão, o bloqueio das potencialidades podem ser considerados, segundo Roosevelt Cassorla, professor da Unicamp, suicídios parciais ou microssuicídio.

 

Finalizo com as palavras do grande psicólogo existencial e “o papa” da psicologia hospitalar brasileira Angerami Camom no texto A Vida Como Farsa:

 

A vida não tolera farsas. Podemos enganar todos, mas nunca a nós mesmos. A vida quando se torna uma farsa se torna um fardo insuportável. Não deixe sua vida se transformar em uma grande farsa. Recolha tua dor e sorria apenas quando o coração estiver em festa. Não faça da tua vida uma farsa.

*Salvador Correa é psicólogo, especialista em saúde coletiva, mestre em Saúde Pública e ativista do movimento de Aids. Atualmente coordena a Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS e atua no acolhimento de pessoas recém diagnosticadas e escreve mensalmente para a Flesh-Mag.

*Foto de capa por Hal HungerKünstler