Por debaixo da túnica branca no Catar

Por Jamal Hasssm Abdulahyan *

Como um gay vive em um país árabe? Esse pensamento ganhou ainda mais força pra mim quando apareceu a chance de ir morar no Catar.

Pela primeira vez, iria visitar um país onde a cultura era muito diferente da minha.

Quando recebi uma proposta de trabalho, pensei: como vou ficar sem sexo?

Refleti sobre isso por uma semana. Então, resolvi relaxar e me acomodei com a ideia do famoso 5×1, todos os dias, até que algo viesse acontecer ocasionalmente.

Hoje, moro na capital Doha. Aqui, a nítida diferença já começa com os homens vestindo o típico “traje nacional”. É uma túnica branca, que vem acompanhada de chinelo e turbante. Um tesão para os meus olhos e meu pau.

Pode apostar, por trás dessas túnicas brancas, os homens deixam transparecer muita putaria.

No entanto, aqui, ser gay é crime, mas, mesmo assim, eles estão  por toda parte da cidade.

Na minha primeira noite, estava completamente louco de tesão. O que eu fiz? Pensei, bom, vou entrar em algum site pornô, ver um filme e relaxar.

Tentei entrar e estava bloqueado. Tentei novamente, bloqueado. Tentei outro, bloqueado.

Pensei: “que merda, nem vídeos poderei ver nesse lugar”. Desliguei o computador e fui falar com meu amigo que também é gay. Ele disse:

“Fudeu, você tentou acessar algo gay, e, eles, hoje, anotaram seu passaporte na hora que você comprou o chip do celular. Que merda você fez!”

Na hora, me tremi todo, pois sou muito medroso e entrei em pânico. Tirei o chip do meu celular e joguei no lixo.

Meu amigo me colocou um medo tão grande, que fiz praticamente uma limpa da sacanagem no celular e fui dormir desesperado.

No dia seguinte, meu amigo me tranquilizou. Ele foi apurar melhor com outra pessoa que fazia uso do Grindr. Isso mesmo, há um app gay que é permitido no Catar.

Mas eu estava com tanto medo que resolvi deixar a poeira baixar. Não pensei em sacanagem por três semanas. Depois desse período, ainda fiquei sabendo de outros gays usando o Grindr.

Dois conhecidos vieram me contar que usavam o app. Segundo eles, os gays se conectam normalmente, como em qualquer outro lugar, mas a diferença é que muitos não gostam de mostrar o rosto. Preferem encontrar pessoalmente.

 

 

Eu, particularmente, confesso que acho o Grindr um pouco chato, e não tenho muita paciência para perguntas do tipo “QUANTO MEDE O SEU PAU?”, pois não acho que seja o tamanho de uma “rola” que vai fazer o sexo ou o encontro serem bons. Mas, como não consigo ficar muito tempo sem sexo, instalei o app.

Onde moro é meio deserto, e as pessoas não são tão atraentes. Então, na primeira semana, não deu em nada. Depois fui para o centro da cidade, num lugar chamado The Pearl, semelhante ao Leblon do Rio de Janeiro. Lá, o Grindr bombou e fiz vários contatos, troquei Whatsapp com os caras, ou seja, já teria, teoricamente, alguns boys para fazer sexo.

O primeiro cara que consegui marcar um encontro, via Grindr, era da Jordânia. Aqui tem muita gente de lá, do Líbano e do Egito. Quase todos se chamam Sam, Mohamed ou Mustafá.

“Na minha agenda, tenho Sam 1, 2 e 3 e Mohamad 1, 2, 3, 4.”

Eu dei sorte no primeiro encontro, porque o cara era bonito, gostoso e bom de sexo. No início, tivemos muito contato, mas, aí, de repente, Sam 1 deu uma sumida. Passado um tempo, ele reapareceu, e, de vez em quando, nos falamos e nos encontramos.

Sam 1 praticamente tirou minha “virgindade” no Catar e me explicou tudo sobre a vida gay, já que mora aqui há dez anos.

Ele contou que as pessoas mentem muito sobre seus verdadeiros rostos, por medo de serem descobertas. Disse que nunca soube de algum gay que foi morto ou levou chibatadas, apenas gente que foi deportada porque foi pega beijando bêbada na rua.

Ele me explicou que gay no Catar só terá problemas em dois casos:

1- fazendo pegação, beijando ou transando na rua. Aí, sim, você terá sérios problemas e, se for estrangeiro, será mandado embora ou preso;

2- se for garoto de programa.

Perguntei sobre o fato dos policiais estarem nos apps. Ele relatou que, às vezes, isso ocorre mesmo, mas com o objetivo de prender garotos de programa. Muitos deles vêm de Istambul, na Turquia, e fazem muito dinheiro por aqui.

Esse cara também me alertou, claro, para ter cuidado. Pediu para que eu continuasse a sempre fazer uma ligação por vídeo antes de marcar um encontro com alguém.

E ainda tem mais. Sam 1 alertou sobre os Qatari, gays locais, que podem ser perigosos, caso não gostem de você ou se apaixonem sem serem retribuídos afetivamente.

Rolou um caso entre um Qatari e um amigo dele. Eles namoraram por um ano. Quando esse amigo terminou o relacionamento, o Qatari o denunciou para a polícia.

Resultado? O cara foi enviado de volta para o país de origem. Não importa se tem prova ou não, o gay Qatari, se tiver alguma influência, terá o poder de te foder legal, e não no bom sentido.

Depois de ouvir isso, fiquei com medo de marcar algo com alguém daqui. Mesmo assim, queria muito encontrar um cara vestindo essa roupa branca, porque aquilo me deixa louco de tesão.

Bom, com Grindr instalado, tudo seguia como é no Brasil. Aquela mesma ladainha, aquela mesma putaria, até chegar a hora de trepar.

Mas, aqui, as pessoas mentem muito mesmo sobre seus reais rostos. E outra coisa, os árabes são, de uma certa forma, muito estranhos. Ao mesmo tempo que te amam, te bloqueiam sem nem dar um tchau.

Encontrei um cara uma vez. Fizemos sexo e foi ótimo. No dia seguinte, ele me bloqueou rs, até hoje não o encontrei novamente.

Uma observação: a maioria dos gays vive com amigos, dividindo o apartamento, exceto o banheiro. Cada quarto tem o seu. Onde moro é a mesma coisa. Meu amigo e eu temos um acordo de trazer alguém depois de ter conhecido a pessoa.

Outra vez, fiquei com outro cara, também árabe. O cara era perfeito pra mim, me levou pra jantar, o sexo foi incrível, me deu até flor. Uma semana depois, adivinha? Desapareceu hahaha.

Comecei a pensar que era algo comigo, mas nao era, isso é da cultura deles. Encontrei com um outro cara e conversei sobre esse assunto. Perguntei porque os árabes bloqueavam as pessoas.

Seria mais legal dizer que não gostou, que não está afim ou etc. Ele me disse que é assim mesmo que funciona e tem dois motivos principais para isso acontecer:

1- eles só querem mesmo foder uma única vez com você e depois te bloqueiam;

2- geralmente eles têm namorado ou são casados.

 

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Já encontrei caras bem legais aqui, dos quais mantenho contato. Uns viraram amigos. Outros encontro de vez em quando e ainda rola algo. E tem aqueles que nunca mais vi e nem devo ver. E ainda tem os enrolados e os que encontram e rolam só um café.

Aqui costuma ter muitos gays nos bares dos hotéis, e, assim como em todo lugar, eles se reconhecem , trocam olhares  e, aí, a gente já sabe onde vai dar.

E por falar em dar. Consegui pegar um cara que vestia a tal túnica branca. Era um Qatari Guy rs. Encontrei com ele durante o dia. Quando ele chegou, de carro, com aquela vestimenta, já fiquei louco ali mesmo na rua hahahaha.

Ficamos, por uma 1h, na rua, conversando, e ele foi embora. TRÊS DIAS depois, ele me buscou e fomos até a casa dele.

A residência é bem grande, uma característica comum aqui. Ele me levou a uma entrada separada que dava direto para o quarto, já que mora com a mãe e com as irmãs.

No quarto, ele começou a tirar a roupa e eu disse que não queria transar ou, pelo menos, começar a transar com ele daquele jeito. Mas não teve jeito.

Primeiro ele sentou no meu pau, ainda com a túnica.  Levantei-a como se levanta um vestido ou igual ao ato de baixar as calças. Comi ele de frango-assado e depois de quatro. Por último, ele voltou pro meu colo e gozou sentado. E eu gozei nele e na túnica branca.

*Jamal Hasssm Abdulahyan é meu pseudônimo inventado por um viajante pelo mundo afora.