Peça Gisberta resgata trajetória de vítima da transfobia

“Gisbertas morrem, desta forma, todos os dias”

Foto: Elisa Mendes

Dandara é Gisberta. Bianka é Gisberta. Uilca é Gisberta. Paulina é Gisberta. Paola é Gisberta. Bruninha é Gisberta. Camilinha é Gisberta. Lexia é Gisberta. Gabrielle é Gisberta. Jennifer é Gisberta.  Muitas são Gisbertas.

Esses nomes fazem parte de uma recente e numerosa lista da Rede Trans, que traz vítimas da transfobia, como o que ocorreu com Gisberta.

Gisberta saiu do Brasil, rumo a Portugal, décadas atrás, justamente para não virar estatística de crimes contra transgêneros.

Durante seus 25 anos na Europa, Gisberta conheceu a fama. Mas, de repente, a brasileira, fã de Marilyn Monroe, se deparou com a pancada da vida que a levou para o beco da marginalidade: prostituição, drogas, Aids e imigração ilegal. Foi um pulo para Gisberta perder tudo que tinha conquistado.

E o pior estava por vir. O grito de Gisberta foi abafado, há mais de 11 anos, de uma forma trágica, com requintes de crueldades, pelas mãos de 13 garotos que a espancaram, por inúmeras semanas, até a morte. Gisberta terminou, literalmente, jogada no fundo do poço.

O fato chocou os portugueses. No entanto, a reação deles resultou num ativismo que mudou radicalmente as leis a favor do direitos das trans.

Essa história é o fio condutor da peça “Gisberta”, protagonizada pelo ator Luis Lobianco, conhecido principalmente por participar do canal “Portas Fundos”.

Na coluna “D&P com Átila Moreno”, o artista desfia cada novelo que envolve a cicatrizada personalidade de uma lenda, que teve a trajetória interrompida pelas condições de indigência, depressão e transfobia.

AM – Como surgiu esse interesse pela história da Gisberta?

LL – Na verdade, eu já tinha o desejo, como ator, de encontrar uma história que me emocionasse, que fosse relevante. Enfim, uma história completa, com um gênero definido. Poderia ser uma comédia, um drama. Estava, nessa busca, há algum tempo.

Logo após o carnaval, eu fui para serra, numa casinha, no meio do mato, lendo um pouco, e ouvi, na minha playlist, a “Balada de Gisberta”, de Pedro Abrunhosa, com a Maria Bethânia. Já conhecia a música mas nunca tinha parado para pensar quem era Gisberta. E, com o tempo, fui me perguntando: que história é essa?

E, exatamente, naquele dia, 22 de fevereiro de 2016, fazia 10 anos da morte dela. Dez anos que ela tinha sido jogada no poço. E, em Portugal, o caso estava sendo muito lembrado, com uma série de reportagens, porque ela virou um ícone em Portugal, pela luta dos direitos das pessoas transgêneros.

Eu fiquei surpreso por ninguém conhecer essa história. Naquele momento, comecei a fazer a pesquisa e a idealizar o projeto.

AM – E por que logo o teatro? Por que não um filme, uma série?

LL – Na maioria das vezes, eu penso no teatro. Eu vim de lá. Fiquei conhecido por meio do “Portas dos Fundos”, mas já trabalha nos palcos, há quase 20 anos antes. O cinema depende de muita coisa, muita gente, patrocinadores. No teatro, eu posso fazer na esquina da minha casa e fica tudo certo.

AM – Você tem interesse em levar essa história, que pra mim tem um potência muito forte, adiante?

LL – Temos um projeto, com o Thiago Sacramento, que é fazer um documentário sobre a criação da peça e, assim, contar a história da Gisberta. Agora, eu não me vejo fazendo a personagem em um filme de ficção. Por enquanto, isso não me interessa. Interessa mais contar a história.

AM – Vamos supor que isso vire um filme de ficção. Que atriz você chamaria para interpretar Gisberta?

LL – Possivelmente, faria uma pesquisa sobre atrizes trans. Também não acho que necessariamente teria que ser uma trans, mas seria minha primeira opção.

Foto: Elisa Mendes

Foto: Elisa Mendes

AM – Houve alguma resistência pelo fato de você interpretar Gisberta?

LL – Antes da estreia, houve, por parte de algumas militantes transgêneras, um questionamento: se eu, um ator cisgênero, poderia atuar. Ouvi tudo, procurei entender e dialogar. Mas acho que existe um território artístico que não pode ser questionado.

Concordo que as pessoas transgêneras têm que estar no mercado de trabalho, serem escolhidas para se representarem e interpretarem outros gêneros. Mas existe uma ilusão de que um processo, como esse da peça, se deu porque alguém lá em cima me escalou. Isso nunca aconteceu.

Eu sempre criei os meus projetos. Encorajo essas atrizes trans a fazerem o mesmo. Por exemplo, a história da Gisberta estava aí há 11 anos e ninguém fez. Então, vamos criar projetos e juntar pessoas.

AM – Chama atenção o formato da peça, principalmente, pelo fato de você interpretar vários personagens que fizeram parte da vida da Gisberta. Como foi o processo dessa pesquisa?

LL – Primeiro comecei uma pesquisa pelos jornais de Portugal. Tem um artigo muito legal de uma jornalista chamada Catarina Marques que fez uma reportagem incrível na época.

AM – É uma que escreveu para “O Observador”?

LL – Isso. Eu entrei em contato com a Catarina e ela foi sensacional. Conversamos bastante por Skype. Foi quem me deu várias dicas e caminhos. Com ela, consegui o processo e o contato da família da Gisberta.

Aí, a gente entrou em um outro lugar. Nesse momento, o Rafael Souza-Ribeiro, autor do texto, e eu fomos até eles. Fomos muito bem recebidos. Eles confiaram muito na gente.

Depois, na sala de ensaio, vimos que faltavam mais olhares. Porque o que a gente faz com a Gisberta é falar sobre uma ausência. Não estamos colocando-a para falar sobre o que viveu. O que estamos fazendo é colocar pessoas que estão em volta dela, para falar desta saudade, dessa pessoa, dessa irmã, dessa amiga.

Achávamos que, faltava em Portugal, alguém que tivesse convivido com ela. Isso era mais difícil, porque muita gente não queria falar, outras pessoas haviam morrido e muita gente se mudou de lá também, então, resolvemos criar alguns personagens.

Comecei a improvisar e o Rafael filmava isso, trazendo o texto. E, às vezes, ele trazia o texto e eu trabalha em cima daquilo.

Tínhamos várias células e versões da Gisberta. Montamos isso em volta dela, como se ela tivesse no meio, com um círculo de pessoas a observando. Então, ela quase aparece. Na peça, você quase toca nela, mas ela só aparece por meio de alguns flashes.

Foto: Elisa Mendes

Foto: Elisa Mendes

AM – O que causa mais estranheza é que só fui saber dessa história porque fui cobrir o espetáculo, pois tive que fazer uma pesquisa antes. No Brasil, praticamente, não se falou nada disso, principalmente nos dez anos da morte dela. Eu só fui ter alguma referência com a imprensa de Portugal.

LL – O caso Gisberta provocou transformações. A sociedade passou a discutir isso em Portugal. Há pouco tempo, viajei para lá. Você para em um café e pergunta sobre isso, e as pessoas sabem quem é Gisberta. Aqui, as pessoas não a conhecem. E, não é à toa, que Gisbertas morrem, dessa forma, todos os dias.

AM – Recentemente tivemos o caso Dandara

LL – Sim, e aí, a gente entra numa nova camada do absurdo, que não é só o crime e a crueldade, como mostrar e exibir aquilo igual a um troféu, que é a certeza da impunidade, que é a certeza que não tem nenhuma lei garantindo a segurança das pessoas transgêneras; não existe nenhuma lei para crimes de homofobia, de transfobia. Então, aqui, a gente só anda para trás.

Em Portugal, mesmo com todos os problemas, a sociedade lá ainda é muito mais segura para pessoa transgênera viver.

Foto: João Maciel

Foto: João Maciel

AM – Você acha que a gente tem alguma luz no fim do túnel, no Brasil?

LL –  Eu ando muito desanimado porque temos um presidente que acha que o lugar da mulher é no supermercado, Bolsonaro no segundo lugar das intenções de voto; tudo vai convergindo para um cenário de falta de liberdade e de espaço. Um horror completo.

Por outro lado, acho que, hoje, a gente consegue debater melhor essas coisas. As pessoas estão saindo do armário.

Há dez anos atrás, não falávamos de transgênero. Hoje, a gente sabe que identidade de gênero não tem nada a ver com orientação sexual, que são assuntos diferentes. Por um lado, acho que o debate está avançando. E acredito muito no teatro, e acho que a arte pode levar a gente para uma saída.

AM – E se você tivesse conhecido a Gisberta, o que diria pra ela?

LL – Olha…diria pra ela que, enfim, a Gisberta foi muito corajosa. Você se mudar, deixar todo mundo, sua família, e ir para um outro lugar, buscar sua identidade, isso é muito corajoso. Ela foi atrás desse sonho, ela cantou, era artista, mas levou muita dor junto, a dor da perda dos amigos, a dor de viver, toda sua infância e adolescência, num ambiente, onde você pode ser assassinado a qualquer momento. E, por isso, também, essa depressão que apareceu mais tarde.

Diria a ela que não estava sozinha e que outras pessoas se identificavam com a dor dela. Ela sabia, pois tinha muito amor da família, mas a distância e a saudade pesaram muito.

Gisberta

Temporada: de 09/07 a 02/07/2017, sexta a domingo, às 19h30. Até 2 de julho.

Duração: 75 minutos

Classificação: + 14

Local: Teatro Dulcina, rua Alcindo Guanabara, 17, Centro, Rio de Janeiro, tel. 2240-4879 (Próximo a Estação Cinelândia do Metrô).

Ingressos: R$ 40 e R$ 30, com meia entrada de acordo com a lei.

Conheça mais sobre o caso Gisberta no site “O Observador”, citado durante a entrevista: http://observador.pt/especiais/gisberta-10-anos-diva-homofobia-atirou-fundo-do-poco/.

Foto: João Maciel

Foto: João Maciel

*Átila Moreno é jornalista, com passagem pela TV Globo Minas, TV UFMG, Infoglobo e Universidade Corporativa do Transporte. É editor-chefe de conteúdo deste blog e escreve mensalmente para a Flsh-Mag.