O vírus de todos nós

*Salvador Correa

Hoje é o Dia Mundial de Luta Contra a Aids. Esse poderia ser mais um texto sobre prevenção e todas as novas formas de cuidado como já vimos, aqui, na Flesh Mag. Só que não.

Venho destacar a face mais cruel de uma outra parada, desde a minha descoberta como portador do HIV: a propagação de um vírus ideológico gerador de estigma e discriminação, como dizia o ativista Hebert Daniel (1946-1992).

Ainda inspirado pelo Hebert Daniel, Betinho (1935-1997) e diversos outros militantes que trataram essa questão no início da epidemia, cabe salientar que o vírus ideológico é aquele que se propaga no ar, alcançando um número inestimável de pessoas.

A epidemiologia não é suficiente para medir esse aspecto, justamente, pela sua face social. Ele está nos mais diversos espaços, transitando nos caminhos abertos pelo conservadorismo. Sim, ele também está em nós – mesmo que em estado latente.

O autocuidado, vigilância e solidariedade são potenciais estratégias para sua destruição, por isso, nesse texto, quero falar um pouco da minha experiência com o vírus social.

Logo que me descobri soropositivo em 2011, vi  que estava infectado pelo vírus ideológico. Por vezes a sensação de estar em uma bolha era tão imperativa que a própria relação humana se tornava inviável por fantasmas sociais que habitavam, muitas vezes, meu olhar.

É a constatação da morte social – da qual a ressurreição é sempre um grande desafio. É como se eu perdesse temporariamente o controle de mim, de meus desejos e me tornasse apenas: corpo e vírus. Legitimando minha (não) existência a partir da voz do outro – que insiste em colocar as pessoas com HIV nessa bolha.

E o mais triste é entender que o outro também sou eu e é você. Você faz parte dessa segregação, por mais duro que seja essa constatação.

Lembro-me que o que mais me manteve preso no meu segundo armário foi o próprio meio gay. A hostilidade era legitimada a cada palavra enunciada em rodas de conversas das bee: maldita, doce, tia, vitaminada e tantos outros termos.

O vírus ideológico – porta voz do estigma e da discriminação –  transita pelo espaço aberto pelo conservadorismo.

Todos temos potencialmente a possibilidade para expressá-lo e é aí que mora o perigo. Na verdade estamos todos infectados por diversas facetas do vírus ideológico que atinge também pessoas trans, travestis, pessoas LGBTQI, negr@s, estrangeir@s, moradores de rua, e muitas outras.

O mais interessante é que, também, temos a fórmula para desconstruí-lo. O primeiro passo é o reconhecimento de que a dificuldade para lidar com a nossa diversidade habita em nós.

Enquanto escrevo esse texto, percebo por qual caminho atua o meu vírus ideológico. Essa percepção me faz bem e me movimenta para combatê-lo.

Desde o início da epidemia, a solidariedade também permeou a resposta social ao HIV e à Aids. A empatia e o amor conduziram inúmeras ações em projetos sociais que permitiram emergir, no cenário social, um movimento que trouxesse avanços na maneira como as pessoas lidam comigo e com os demais soropositivos.

Conseguimos, então, transformar o ódio em amor.

Façamos o teste diariamente.

E deixo a pergunta para você mesmo: qual vírus ideológico habita aí dentro?

*Salvador Correa é psicólogo, especialista em saúde coletiva, mestre em Saúde Pública e ativista do movimento de Aids. Atualmente coordena a Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS e atua no acolhimento de pessoas recém diagnosticadas e escreve mensalmente para a Flesh-Mag.