O fetiche nosso de cada dia

“Ouve-se tanto ‘Tenho fetiche por pés!’, quanto ‘Meu fetiche é sexo bareback. Mas não realizo minha fantasia por medo’.”

Gleiton Matheus Bonfante*

Ao abraçar a missão de escrever sobre fetiches, abraça-se também duas ideias essenciais. A primeira é assumir que fetiches e desejos (e suas experiências) são fenômenos altamente individuais, sem verdades absolutas sobre o tema.

Em segundo lugar, que as discussões, neste espaço da Flesh-Mag, por mais que se inspirem em artigos filosóficos, serão pensadas a partir da própria vivência, trazendo textos que sejam mais eróticos e próximos da pele e das práticas.

Bom, se vamos explorar experiências sensuais, devemos nos perguntar: o que seria fetiche?

A origem de “fetiche” vem de fatidicus, em latim, que também gerou outras duas palavras: “feitiço” e “ficção”. Ambos os termos costumam fazer parte do imaginário do senso comum.

Ouve-se tanto “Tenho fetiche por pés!”, quanto “Meu fetiche é sexo bareback. Mas não realizo minha fantasia por medo”.

 

 

“Acima de tudo, fetiche nada mais é do que um desejo exoticizado, um tesão exótico e inconvencional.”

Ter um fetiche significa sofrer o encantamento de uma prática específica. Fetiches não são apenas fatores de atração e de sedução, mas também fantasias (que talvez nunca se realizem).

Acima de tudo, fetiche nada mais é do que um desejo exoticizado, um tesão exótico e inconvencional. Vale lembrar que exótico é o “Outro”. E esse “Outro”, desde os primórdios da Era Industrial, no campo sexual, é qualquer desejo fora círculo reprodutivo.

 

“Fetiches podem desafiar a filosofia secular do “cuidado de si”, como o bareback…”

A definição de fetichismo passe pela via da atração sexual por coisas inanimadas ou partes do corpo. Entretanto, nos dias de hoje, uma grande variedade de práticas sexuais exerce fascínio por ser, de alguma forma, convencional.

Elas podem prezar pela ultrapassagem de limites do parceiro como o sadomasoquismo, a dominação, o fist fucking (penetração do orifício anal ou vaginal pelo pulso) e o engasgamento (estimulado tanto por membros quanto pelo pênis).

Fetiches podem desafiar a filosofia secular do “cuidado de si”, como o bareback (penetração anal sem preservativo), creampie (ejaculação dentro do ânus e consequente expulsão do esperma), felching (ejaculação dentro do ânus e consequente expulsão do esperma na boca).

Fetiches podem ser práticas não reprodutivas como o sexo anal, o sexo oral e a masturbação. Podem ser comerciais como a prostituição e a pornografia. Podem ser escatológicos como a chuva dourada, o interesse por fezes e vômito.

 

“Uma lista de fetiches poderia se estender por páginas porque como propõe Giorgio Agamben: ‘Desejar é a coisa mais simples e humana que há’”.

Fetiches podem nem contar com estímulos propriamente sexuais como cócegas e bondage. E muito comumente, fetiches se destinam não à prática em si, mas às suas minúcias, como local do ato.

Fetiches podem acolher partes do corpo cujos significados tradicionais não gravitam em torno da excitação, mas em torno da marginalidade como os pés, o cu, as axilas.

Podem ser estimulados por características físicas como pelos ou a ausência deles e também o porte físico.

 

“Se falo de fetiche é porque a fantasia é mais excitante que a realidade.”

Há também fetiches que são tabus sociais como pedofilia e zoofilia. Uma lista de fetiches poderia se estender por páginas, porque, como propõe Giorgio Agamben: “Desejar é a coisa mais simples e humana que há”.

Entretanto, fetiche é como se fosse um traço natural de qualquer sexualidade inclusive os fetiches se comunicam diretamente com o olhar (mesmo quando o fetiche está ligado à escolha de não ver o parceiro (a), como ocorre no glory hole e em ser vendado).

A visibilidade engloba dois fetiches: tanto o exibicionismo como o voyeurismo. Poderíamos dizer que nossa sociedade se entregou ao fetichismo do olhar.

 

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“O desejo é múltiplo e pode ser transformador. Não há fórmulas para a excitação.”

Se falo de fetiche é porque a fantasia é mais excitante que a realidade. Nossa sociedade contemporânea tem tanto de excitação quanto de razão. Tanto de ordem quanto de tesão.

Além do mais, desejar é deixar-se perder em descaminhos. É permitir-se entrar em territorialidades distintas. É inscrever-se no acaso.

O desejo é múltiplo e pode ser transformador. Não há fórmulas para a excitação. Nos jogos do tesão, qualquer estímulo é válido, e não existem regras. Assim, os sujeitos podem recombinar elementos diversos para customizar um fetiche próprio e único.

*Gleiton Matheus Bonfante é doutorando em Linguística Aplicada pela UFRJ e  faz parte do grupo de pesquisa Núcleo de Estudos de Discurso em Sociedade (NUDES).  Escreve mensalmente para o blog da Flesh-Mag.

**Imagem da Capa por Rafael Medina