Nada de novo no front: o passado como espelho

Eduardo Germano*

A modernidade nos acertou em cheio. Acreditamos que o presente é o ápice da civilidade, como se estivéssemos em constante evolução. E o futuro nos é prometido como triunfante.

Um exemplo disso são as novas tendências de festas de sexo, onde todos se sentem livres para se vestir como quiser (ou não vestir nada) e usar qualquer tipo de droga sem constrangimento – uma revolução que vem quebrar com o status quo, o que hoje traduzimos como liberdade.

O mundo não é mais, como já dizia Belchior, para “você que ama o passado e que não vê que o novo sempre vem”.

Estamos sempre atrás do mais atual, como um fetiche. Mas a busca da inovação é realmente nova? Você experimenta algo diferente na transa e acha que revolucionou o sexo? Ou que é o mais transgressor? Que as festas de sexo são típicas da sua geração? Da contemporaneidade?

Se o leitor pensa que está inaugurando algo, saiba que está apenas repetindo o passado, da mesma forma, como há 100 anos. Marx dizia que a história acontece primeiro como tragédia, depois como farsa.

Beco do tempo

De 1919 a 1933, a Alemanha passou por um período republicano que ficou conhecido como República de Weimar. Esse é um período interessante por ser um curto momento de 14 anos entre o governo autoritário do Kaiser Guilherme II e o governo totalitário de Adolf Hitler.

O grande projeto político daquele momento era a liberdade; a nova constituição buscava diminuir, ao máximo, a censura, o que levou ao aumento da produção literária científica sobre homossexualidade.

O estudo da sexologia foi impulsionado durante a república em contraponto ao código penal alemão que proibia a sodomia. Ela havia se iniciado no fim do século XIX, ao mesmo que a psicologia.

O homem parecia querer dominar as manifestações da mente. O repúdio a tal avanço logo apareceu nos setores conservadores do país, que viam a homossexualidade como uma degeneração.

Eles também eram contrários a república e tentaram um golpe de Estado em 1923. Dentre os orquestradores, estava Hitler.

Diferente dos Outros (Richard Oswald - 1919): primeiro filme gay.

Diferente dos Outros (Richard Oswald – 1919): considerado o primeiro filme gay.

O ideal de liberdade ainda regia o momento. Magnus Hirschfeld foi um dos primeiros sexólogos do mundo e queria provar que a homossexualidade era natural.

Em um discurso sobre a autonomia alcançada, ele disse:

“Esse novo tempo nos traz autonomia para falar e escrever, e nós assumimos, com certeza, a emancipação de todos aqueles que antes eram oprimidos.”

Conhecido pela comunidade gay que se formava em Berlim, Hirschfeld era frequentador dos grandes bailes de travestis que ganharam impulso na década de 1920.

Da mesma forma que, hoje, o sexo e as festas eram regados a drogas, especialmente cocaína – que era produzida e comercializada pela farmacêutica alemã Bayer. Segundo o pesquisador Gleiton Bonfante, o uso de cocaína para a prática sexual (“tekar e fuder”), ou para sociabilidade, aparece, hoje em dia, nos aplicativos, no mesmo estilo que ocorria nos bailes. O que diferenciava era apenas a tecnologia.

A popularidade da droga entre gays era tamanha, que dois médicos da época, Ernst Jöel e F. Fränkel, estudaram a ligação entre homossexualidade e cocaína. Parecia que gay e padê tinha tudo a ver.

Diversos intelectuais falaram sobre a vida noturna berlinense e o uso de tóxicos. Como por exemplo, Robert MacAlmond, um escritor americano que conta depois de uma noite de aventuras sexuais:

“Meu deus, eles [prostitutos] devem ter dificuldade em saber quais são seus próprios membros depois de tanta ginástica [em referência ao sexo] e promiscuidade que fazem. Eu tenho que admitir que minha narina e minha vontade mental se rebelam contra meus desejos carnais.”

Stefan Zweig, jornalista austríaco, ficou espantado com as festas:

“Nem a Roma de Suetônio fora palco de tantas orgias como os pervertidos bailes berlinenses; ali, centenas de homens e mulheres travestiam-se e dançavam sob os benevolentes olhares da polícia”.

MacAlmond fala também sobre:

“…três dançarinos saíram para fazer suas apresentações; todos eles completamente nus, e nenhum deles capaz de fazer uma dança do ventre bem. Não havia razão, na verdade, para as suas performances, já que seus corpos não eram bons para isso, e ninguém no lugar estava surpreendido com a nudez.”

A nudez não causava espanto, nem era castigada, assim como ficar pelado nas festas de hoje não é tão transgressor assim.

O gosto bacânico pela liberdade dos corpos via-se já no pós-guerra. O instinto de liberdade e orgia era foco de interesse muito antes, em uma espécie de preparação para o que foi o período da República de Weimar.

Outro fator que levou às maravilhosas festas na capital da Alemanha foi a sua derrota na Primeira Guerra Mundial (1914-1918). A perda fez com que o país afundasse em uma grande crise econômica que desvalorizou tanto sua moeda, que uma caneca de cerveja passou de 10 para 500 marcos em 1923.

A população pareceu entrar em uma histeria coletiva, e a dança serviu como instrumento de catarse social: todos se importavam mais em dançar do que se cuidar.

Em resposta, o Ministério da Saúde criou uma campanha para pedir que os cidadãos parassem com o Jazz, o Shimmy, o Ragtime e todos os outros ritmos da época, sob o slogan “Berlim, pare e pense, seu parceiro de dança é a morte!”. Se Paris era uma festa, Berlim era o after.

bares-lesbicos

“Le Monocle”, cabaré para mulheres em Montmartre, Paris, 1930.

A cena gay também floresceu sob a crise econômica. Por conta da desvalorização da moeda, muitos turistas gays passaram a visitar o país pelo seu baixo custo.

Berlim era, na década de 1920, para o turismo gay, assim como Paris era para o hétero. Eles eram atraídos pela numerosa prostituição masculina (estimada em 350 mil apenas em Berlim); travestimento público, fácil acesso a bares e clubes gays e lésbicos.

A experimento republicano durou um pouco mais que uma década quando uma onda conservadora e nacionalista tomou conta da Alemanha, com a ascensão de Hitler.

Grandes escritores e artistas, como Thomas Mann, autor do clássico “Morte em Veneza”, ou Wassily Kandisky, grande artista do movimento da Bauhaus, se exilaram em outros países, com a esperança de que “apesar de você amanhã há de ser outro dia.”

Direita, volver

A promessa do Nazismo de Hitler era restaurar o orgulho alemão e alavancar o progresso social e econômico, no entanto…

Progresso não foi sinônimo de melhoria para a liberdade sexual, nem para a população LGBT, apenas avanço no tempo.

O ideal do progresso também é uma mentira estampada em nossa bandeira. O nosso país que se diz laico mas:

  • escreve “Deus seja louvado” nas cédulas;
  • possui uma grande bancada evangélica que fez lobby no Congresso contra o pacote de medidas educacionais “Escola Sem Homofobia” e contra a discussão de gênero nas escolas;
  • elege  políticos que são contra a legalização do aborto, das drogas e outras pautas progressistas.

Isso não parece progresso e ainda vemos a necessidade de luta de minorias por sobrevivência e para que o conservadorismo não acabe com avanços que com muito esforço conseguimos, como o casamento gay.

A história, de certa forma, se repete. Será que estamos evoluindo ou retomando do mesmo ponto em uma espécie de resistência?

Somos apenas personagens de uma farsa? Será que a evolução não é uma ideia em que deve se basear a reflexão histórica?

*Eduardo Germano é estudante de História Contemporânea e Letras Português-Alemão, professor de Inglês e tarólogo.