Moonlight, um olhar sobre (in)visibilidades de raça e desejo

“Nos últimos anos, alguns filmes têm sido feitos com personagens LGBT negrxs, mas isso ainda está longe de compensar a maneira pela qual o cinema tem trabalhado questões relacionadas à negritude em suas telas.”

Vi Grunvald*
Cadu Oliveira**

“O que é uma bicha?”. Pergunta Chiron a Juan, que tenta, de forma desajeitada, arrumar as palavras certas para tão importante questão.

“Bicha é uma palavra usada para fazer com que gays se sintam mal”. “Eu sou bicha?”, indaga Chiron. “Não, não. Você pode ser gay, mas não deixe ninguém te chamar de bicha. A menos que…”.

Essa é uma das cenas entre o personagem principal e sua figura paterna em “Moonlight”, filme dirigido por Barry Jenkins e vencedor de três Oscars, incluindo melhor filme.

O que a descrição acima ainda não revela, e não é informação menos relevante para entender a importância do filme, é que xs personagens em questão são negrxs.

O cruzamento entre homossexualidade e negritude não é algo comum para um cinema que ainda é marcadamente branco e heterossexual.

Nos últimos anos, alguns filmes têm sido feitos com personagens LGBT negrxs, mas isso ainda está longe de compensar a maneira pela qual o cinema tem trabalhado questões relacionadas à negritude em suas telas. E isso pode ser facilmente confirmado com uma rápida busca na sessão de filmes LGBT do Netflix, por exemplo.

O cinema não é apenas pura diversão, como, às vezes, tentam nos fazer crer. É também uma representação política da realidade e, por isso, é tanto reflexo de determinadas ideias culturalmente compartilhadas quanto uma forma de ação social.

E, além do mais, ao longo do século XX, a política racial das representações visuais sempre deixou muito claras suas tendências racistas.

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“Ao lembrar como ‘em Hollywood, os euro-americanos têm mantido a prerrogativa histórica de atuar pintados de negro, vermelho, marrom ou amarelo, enquanto o oposto é muito raro’, Ella Shohat e Robert Stam, no livro ‘Crítica da Imagem Eurocêntrica’, argumentam que ‘é prática comum do cinema dominante transformar as pessoas ‘escuras’ ou do Terceiro mundo em um ‘outro’ substituível, em unidades intercambiáveis que podem ‘ser trocadas’ umas pelas outras’.”

Não que esse viés tenha passado despercebido, ou não tenha sido combatido pelo protagonismo de grupos sociais, que passaram a questionar os termos raciais e coloniais que eram operados pelo cinema.

Para ficar apenas com alguns exemplos do cinema negro, basta lembrarmos do movimento cinematográfico do início dos anos 1970, conhecido como Blaxploitation nos Estados Unidos.

Ou do Black British Cinema que ganhou força, na década de 1980, na Inglaterra, em resposta à falta de representatividade visual de negrxs, mesmo após os sérios conflitos de recorte racial que ocorreram em Brixton, em 1981, e em Handsworth e Tottenham, em 1985.

Mas se, por um lado, essa produção é engajada na desconstrução de estereótipos e preconceitos raciais, não podemos afirmar o mesmo em relação às representações de gênero e sexualidade sustentadas, em geral, por esses filmes.

Lembremos, também, da aclamação de Spike Lee, como um diretor negro importante no circuito do cinema cult americano.

Mas, por outro lado, no ano passado, Spike Lee entrou em uma polêmica no Twitter, após ser acusado de homofóbico por umx ativista LGBT negrx conhecidx simplesmente como Anti-Intellect.

 

A importância de Moonlight hoje

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Ao levarmos em conta essa inclinação heteronormativa intrínseca à produção cinematográfica do cinema negro nas décadas de 1970 e 1980, Moonlight é um filme que tem tudo para se tornar antológico.

Ao contrário da hipersexualização dos corpos negros reinante nas representações de uma indústria tão racista quanto a cinematográfica, o filme não se presta facilmente a clichês visuais.

“A descoberta da homossexualidade de Chiron e seus conflitos são trabalhados de forma sensível e poética, sem descartar a dura realidade de aceitação do que significa ser gay e negro na periferia de uma grande cidade como Miami, lugar de onde vieram também os criadores do filme, Barry Jenkins e Tarell McCraney.”

“Moonlight” é um filme e enquanto tal que não tem a possibilidade de esgotar a amplitude do que é ser negro e gay, porque essa vivência é plural. Entretanto, apesar de poder ser problematizado a partir dessa limitação, ele serve de estímulo para que outras histórias, sob outras perspectivas, sejam contadas sobre bichas pretas.

Histórias que possam, quem sabe, acionar também outras formas de viver a própria heterossexualidade.

Juan, apesar de heterossexual e envolvido no tráfico de drogas, universo carregado de violência e machismo, é, ainda assim, uma figura compreensiva que trata, com delicadeza, os desejos do protagonista ao qual acompanhamos ao longo de sua vida divida em três fases.

A cena que inicia esse texto indica, em cada detalhe, uma preocupação sincera com o futuro de seu protegido. Uma tentativa paternal de prepará-lo para as possíveis violências desse caminho.

Ela ocorreu no dia seguinte de mais uma discussão com a mãe, viciada em crack, quando Chiron vai à casa de Juan.

Sentado à mesa de jantar, de costas para a porta de entrada, Little, como então é chamado, está calado como de costume.

Teresa, a complacente companheira de Juan, já havia tentado, em vão, interagir com o resistente garoto. “Acho que Teresa está a fim de você!”, brinca Juan, na esperança de despertar algum interesse. Mas não consegue extrair palavras de sua boca.

Em tom pedagógico, diz: “Para começo de conversa, você não pode sentar em uma mesa assim. Não se sente de costas para a porta”. Chiron levanta e volta a sentar-se do outro lado na mesa. Os ensinos seguem: “Que segurança você vai ter assim? Viu? Assim você enxerga tudo!”.

 

Homossexualidade, parentalidade e violência

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A aversão homofóbica que muitos pais têm ao descobrirem a sexualidade de seus filhos, por considerá-la desviante, é totalmente inexistente nessa relação de cuidado, apesar de se fazer presente a todo momento no hostil universo escolar do protagonista.

Não deixar que o chamem de bicha é um conselho que Juan dá, não por conta da imposição de uma normatividade sexual das palavras que discutimos em outro texto da FLSH Mag, mas, justamente, o contrário: é fruto de um convívio que passa ao largo da distância que a diferença de experiências homo/heterossexuais muitas vezes coloca.

Sem dúvida, os usos dos termos “bicha preta” ou “gay negro” determinam lugares diferentes, ainda que ambos marginais. E vulnerabilidades e empoderamentos também distintos.

Mas é fundamental marcar a importância dessa relação parental não necessariamente para o cinema americano, mas na mídia brasileira, incansável em contar histórias, nas quais pretxs aparecem sem laços familiares. Notadamente, famílias negras são invisíveis nas dramatizações da mídia hegemônica.

A despeito da relação de Little com Juan, a força da cisheteronormatividade, como esquema político de organização das relações entre as pessoas, não é apagada ou romantizada em “Moonlight”.

Ao contrário, é tão forte e presente que, Kevin, com quem Chiron tem sua primeira experiência homossexual, é forçado, por outros amigos da escola, a agredi-lo.

Mas, na redenção proposta pelo final do filme, esse conflito é resolvido na reconciliação amorosa de duas pessoas forçadas à separação.

Em relação à questão racial, “Moonlight” mostra quão difícil ainda pode ser a aceitação da homossexualidade. E, nessa perspectiva, nos sugere também que, para lembrar a música de Boris Gardiner que acompanha os créditos iniciais, negrxs que assumem os riscos de seu desejo são, de alguma maneira, heróis e heroínas.

Indicações de filmes com temática negra e LGBT:
Looking for Langston (1989), de Isaac Julien
Tongues Untied (1989), de Marlon Riggs
Paris is Burning (1990), de Jennie Livingston
The Watermelon Woman (1996), de Cheryl Dunye
Madame Satã (2002), de Karim Aïnouz
Pariah (2011), de Dee Rees
The Skinny (2012), de Patrik-Ian Polk
Stud Life (2012), de Campbell Ex
Blackbird (2014), de Patrik-Ian Polk
Tangerine (2015), de Sean S. Baker
Game Face (2015), de Michiel Thomas

*Vitor Grunvald é ativista de direitos humanos e membro da Revolta da Lâmpada. É pesquisador do Grupo de Antropologia Visual (GRAVI), do Núcleo de Antropologia, Performance e Drama (NAPEDRA) e do Núcleo de Estudo dos Marcadores Sociais da Diferença (NUMAS), todos da Universidade de São Paulo. Tem formação também em cinema, é realizador audiovisual, nortista e viado de carteirinha, dentre otras cositas más.

**Cadu Oliveira é bicha, preta e militante nos coletivos Revolta da Lâmpada e Cume. É formado em Marketing pela Universidade Anhembi Morumbi e possui MBA em Gestão de Pessoas pela Anhanguera. Dede 1996, desenvolve ações de voluntariado, participou da produção da 1ºConferência [SSEX BBOX], além de ter mediado e composto mesas de debate na UNIP Jundiaí, FESPSP, Cásper Líbero e USP.