Medo e fascínio: sobre acertar medidas

Gabriel Demasi*

Fui a um show do Renato Russo no Estádio do Guarani quando tinha três anos. Assisti a tudo, montado em cima dos ombros dos meus pais, e, segundo minha mãe, “curti muito”.

Saber disso me deixou feliz. Na hora, achei que essa informação tornaria minha biografia mais interessante.

Um dia desses acordei pensando nessa revelação: de ter descoberto que estive nesse show. Me lembrei de quando me disseram, mais de uma vez, que certas letras minhas parecem com as do Cazuza.

Um dia desses, minha mãe me contou que assistiu, de novo, ao filme dele e me disse: “acho que, se você tivesse nascido naquela época, e naquele ambiente, você teria sido artista e seria parecido com ele. Vocês têm coisas parecidas”.

E fiquei refletindo sobre tudo isso. Sobre como é ser jovem, gay, e se propor a criar, a produzir algo criativo, subjetivo, tendo atrás e tão perto de si o peso de artistas como eles, Renato Russo e Cazuza, tantos outros emblemáticos de uma época.

Para alguém que nasceu nos anos 90, essas referências ainda estavam pulsantes e frescas na memória das pessoas. E eram contadas pelos mais velhos com muita emoção, todos muito tocados, marcados.

E acabei sendo marcado também. Por esse fantasma da Aids, da rebeldia, da boemia. Medo e fascínio, de poder ser livre e de experimentar. O peso de sentir e a chance de ser pleno, para o bem e para o mal. Tudo parecia oito ou oitenta.

Quando era adolescente, pensar nisso me assombrava. E pensava bastante. Era — e ainda é — como se eu pudesse sentir a dor deles. Uma conexão.

De certa forma acho que o medo das possíveis consequências das minhas escolhas, que acreditava ver refletidas no triste fim deles (pensava eu), fez com que eu me afastasse de alguns desejos e não ousasse me aventurar. Coisa da qual me arrependo.

Fui um adolescente obediente e rígido demais. Cheio de regras para mim e para todos.

Ao mesmo tempo, quanto mais lia e pesquisava sobre outros tempos – inclusive sobre o movimento hippie, o tropicalismo, os anos 80, a liberdade sexual, artística, as revoluções e rupturas – sentia um fascínio e me identificava com as pulsões criativas que sentia nessas manifestações.

E por medo, fugia, me bloqueava. Era mais fácil me fechar. Pelo menos de mim, eu tinha controle. Era o que eu achava.

Lembro como ficava impressionado com os relatos do meu pai sobre os tempos de faculdade dele, no início dos anos 80. Ele estudava arquitetura, morava numa república com amigos, e se não me engano, eram quatro, dos quais três eram gays.

E, naturalmente, faziam muitas festas. Imagino como era entediante a vida numa cidade de interior nos anos 80. E nessas festas rolava de tudo.

Ele conta que um dos amigos namorava um cara que traficava, que chegava lá com grandes quantidades de cocaína. E que uma vez escreveram AMOR, com pó em cima de uma mesa e, em dois, foram cheirando, cada um de uma ponta. Dessa república, só meu pai e mais um sobraram.

Na minha cabeça assustada de adolescente, pensava “meu Deus, não posso ser assim, não posso fazer isso”. Para mim era um destino quase inevitável ter Aids. Era um fantasma mesmo.

Nunca tentei evitar ser gay, pelo contrário, mas achava que devia ser um gay “careta”, e que quanto mais fugisse de um comportamento “marginal”, mais viveria.

Mas percebia o quanto os artistas, boêmios e festeiros eram geniais e os admirava. No fundo, não admitia as práticas mas desejava sentir o que achava que eles sentiam. E fui acomodando mal e porcamente essas “categorias” em lugares opostos dentro de mim.

Com a maturidade dos anos e das experiências que tive, aprendi aos poucos a dar pesos mais equilibrados pra essas medidas, e a entender que nem tudo é o que parece, nem tudo o que parece é, e que podemos ser um pouco de cada, podemos ser vários, como quisermos, e nada é definitivo.

Nem todo boêmio é genial, nem todo sexo é sensacional, nem toda cocaína é transcendental, nem todo careta é saudável, nem todo trabalhador é honesto, nem todo monogâmico é sensato, Cazuza não é só gênio ou só devasso, nada é só um. Tudo é muito.

E precisamos fugir dos estigmas, das interpretações historicamente fantasiadas, das crenças inabaláveis, da rigidez de sempre não tentar ou da imposição de sempre experimentar. Cada um tem sua medida. Custa, mas aprender a acertar a sua é prazeroso.

*Gabriel Demasi é formado em Jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ. Foi aluno da Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Entre trabalhos no mercado editorial, com jornalismo e cinema, exercita a narrativa por meio de imagens e palavras.