Masculinidades? Existe desconforto

Ariel Nobre*

Vitor Grunvald**

Para algumas pessoas pode parecer estranho um homem trans e um viado escrevendo sobre masculinidade. Afinal de contas, que autoridade temos para falar sobre o tema? Em muitos sentidos, a percepção que as pessoas têm de nossos corpos se constrói, justamente, pela exclusão da masculinidade.

se viado, mulherzinha

se homem trans, nunca um homem de verdade

Algumas pessoas acreditam e defendem, com unhas e dentes, um padrão tão restrito e careta (ou hegemônico, como falam por aí) de masculinidade que, para dizer a verdade, poucos homens, mesmo os cisheteros, conseguem alcançá-lo completamente.

A masculinidade é frágil porque é inalcançável. É um ideal. E, por isso ser homem, é, em certo sentido, afirmar o tempo inteiro que se é homem…pelo menos para essas pessoas.

O fracasso de incorporar esse ideal, de colocá-lo em corpo, deixa muito claro que masculinidade, qualquer masculinidade, não deve ser singular, mas plural.

masculinidadeS

muitas formas de ser homem

homens com masculinidades diversas

Falar sobre masculinidades é também complicado porque nunca se sabe ao certo onde termina o que chamam por esse nome ou pelo outro, o tal do oposto complementar, as tais das feminilidades.

senta igual mocinha!

ser humany masculine ou feminine?

Outro desconforto com as masculinidades: ver masculinidades e feminilidades como opostos é complicado porque não são apenas contrários que se complementam. São também desiguais. Por que agir como homem e falar como homem é algo que alguém deveria querer fazer?

Por isso Paul B. Preciado e seu manifesto contrassexual. Por isso Guy Hocquenghem, Jáviez Saez e Sejo Carrascosa e o cu como centro de gravidade da política. Políticas anais.

cu, cada pessoa tem o seu! é que nem gosto! gosto!

Mas também não é à toa que tem gente dizendo que a coisa não funciona bem assim porque, pelo menos em terras tupiniquins. O cu tem gênero sim. Cu é feminino.

arrombad_

se homem, bicha

se mulher, puta

tudo puta e viado, mesmo!

E, por aí, dá pra ver que gênero e sexualidade não são a mesma coisa, mas, ainda assim, se correlacionam. Na roça, tem só quatro gêneros-sexualidades: homem, mulher, bicha e sapatão.

homem estranho, bicha

mulher estranha, sapatão

E se bicha fosse o jeito errado de ser homem e sapatão fosse o jeito errado de ser mulher? E se o jeito errado for também certo?

É essa a versão oficial de masculinidade: a que diz que necessitamos afirmar a virilidade a todo momento. O que precisamos fazer para ser reconhecidos como “mais homens” do que parecemos ser?

Por outro lado, afirmar masculinidade não faz parte da vida tanto de um homem trans, quanto de um ht, quanto um gay que não quer ser confundido com bicha? Que diferença a afirmação da masculinidade faz?

O que acontece nos círculos masculinos quando percebe que um homem “não é tão macho assim”? Qual é mesmo a diferença entre homem e macho? Quais são os rituais de passagem que nos fazem “homens de verdade”? O que os homens precisam demonstrar pras mulheres pra ser homem de verdade? E para os homens? As mulheres querem conhecer ou correr desse “homem de verdade”?

 

Ariel FleshMag 15

 

se você é homem, por que age assim que nem mulher?

você é menino ou menina?

Ser homem não é apenas ter uma expressão de gênero. Muitas vezes, ser homem significa também participar de uma maçonaria corporativista que oprime mulheres e objetifica seus corpos. Ou fazer parte de uma seita de gays que nega outros tipos de homossexualidade, mais fechativas, afeminadas.

Quando homens se encontram para conversar sobre outras coisas? Quando a parceria entre os homens vai deixar de ser máfia para virar espaço de diálogo pautado numa ética de coabitação, como diz Levinas? Ser homem sempre aparece como algo bom socialmente. Mas por que a gente compra essa ideia?

quem tem que se defender de trejeitos e rebolados pra ter um corpo straight, reto, duro?

quem tem que engolir o choro?

qual banheiro é mais sujo? (sim, tem isso também)

Existe um mal-estar nas masculinidades.

O fato de que não tem muito como dividir o que é vivido por masculinidades. E o que é vivido por feminilidades não torna menos urgente reconhecer politicamente que existem homens cis e trans, gays ou heteros ou bi, que afirmam masculinidades que nada tem a ver com o padrão hegemônico. E o mesmo acontece com a própria feminilidade.

Ainda assim, para a masculinidade oficial, existe o homem e o resto. E o resto oficial se chama mulher.

na escola, sempre me chamavam de mulherzinha!

assim falou a masculinidade hegemônica combinada com a heterossexualidade compulsória… heteronormatividade castradora!

colonização de masculinidade de cu é rola! e de buceta também! #paupererecaecu

Ser homem de outro jeito. A punição para isso deve ser pública. Teatro da crueldade. Complô de denúncias e perseguições.

você sabe que ele é bicha, né? cuidado! cuidado!

você sabe que ele não é homem de verdade?

É possível dizer quando uma lésbica masculina passa a ser alguém que deixou de ser feminina? Ou quando um viado passa a ser visto como feminino e abandona o reino da masculinidade? De sapatão masculina para bicha afeminada, a tal da “transição de gênero” é do feminino para o masculino ou o inverso?

por que uma sapatão é masculina e não masculino?

uma bicha afeminada é mais feminina que uma sapatão masculina?

Uma sapatão machuda é muito masculina pra ser mulher. Mas um homem trans é muito feminino para ser um homem. Até parece que dá pra medir gênero!

de dia maria, de noite joão?

o que acontece se maria sapatão quiser ser joão durante o dia também?

Existe um cemitério de gêneros abortados. Tem gêneros que pedem asilo, mas não conseguem desabrochar no corpo, mal conseguem cruzar as fronteiras dos armários e morrer (para viver) em um abraço de solidariedade. Vidas inteiras que são impossíveis de ser vividas. Gêneros que não puderam ser incorporados, colocados em corpo.

Há corpos imigrantes ilegais de gênero que não têm papel para confirmar de onde vem ou o que são. Exilados e refugiados.

 

Ariel FleshMag 16

 

lá longe, era impossível ser transvivo. sequer sobrevivo. Trans-abortado.

quantas mulheres fantasmas existem em corpos de homens?

quantos homens fantasmas existem em corpos de mulheres?

corpos errados? é corpo errado ou diáspora de gênero proibida?

sem gênero, ou sem vida, ou sem corpo, ou sem papel, ou sem nome?

corpo não documentado, ou melhor, documentado por outros corpos. os corpos se chamam por uns nomes dado por outros corpos. entre corpos e nomes: violência.

enquanto isso, os descaminhos se multiplicam a cada esquina onde nossos pais, irmãos e maridos (de masculinidades exemplares)  procuram por sexo pago (e barato).

Quando, na seriedade de uma brincadeira, uma bicha diz pra outra “você tá muito masculina, mana!”, não existe aí um padrão de masculinidade diferente do hegemônico, mas que não deixa, por isso, de ser masculinidade?

hoje não vou pro fervo. vou passar a noite com minha marida

marida é homem ou mulher?

quem cuida é sempre mulher?

o autocuidado é permitido para homens?

ah, ele se cuida muito! até pinta as unhas que nem mulherzinha!

A masculinidade hegemônica criminalizou o auto-cuidado. Físico e psicológico. Será que a gente deve continuar aceitando que tudo o que não se encaixa no padrão oficial de masculinidade deve ser feminilidade?

E o binarismo de gênero continua firma e forte.

quando se desconfia de uma buceta:

você é homem-homem?

você é homem mesmo?

você é homem de verdade?

É importante falar dos sentimentos, da vulnerabilidade de ser quem se é. Declarar vulnerabilidade, ato político. Declarar que existem corpos que não se adequam à masculinidade oficial, mas que são masculinos se perceberem a si próprios dessa forma. Declarar, inclusive, que talvez seja mais interessante ser poco hombre, como diz o título de um livro de crônicas da marica Pedro Lemebel.

vestido e barba

bunda peluda e calcinha

cueca menstruada

cinta pau

E aí? Menino ou menina?

É penoso afirmar masculinidade a todo momento só porque o jeito que “somos homem” transborda as expectativas de gênero impostas. É chato, é cafona, é violento. É deprimente se defender daquilo que dizem que você deveria ser. Ou que você não deveria ser.

Considerar que temos sentimentos e que o homem, tanto o muito homem, o que acha que existem homens de verdade quanto o pouco homem, todos vivemos em um mundo de afetos e afecções. E é preciso lidar com isso de forma humana e generosa.

Declarar-se frágil. E, talvez, por isso, tão potente.

*Ariel Nobre é homem TRANSVIVO. Além disso, é consultor em comunicação com enfoque em Diversidade e Meio Ambiente. Samba na cara da sociedade e luta pelo corpo livre com o coletivo A Revolta da Lâmpada desde 2015.

**Vitor Grunvald é ativista de direitos humanos e membro da Revolta da Lâmpada. É pesquisador do Grupo de Antropologia Visual (GRAVI), do Núcleo de Antropologia, Performance e Drama (NAPEDRA) e do Núcleo de Estudo dos Marcadores Sociais da Diferença (NUMAS), todos da Universidade de São Paulo. Tem formação também em cinema, é realizador audiovisual, nortista e viado de carteirinha, dentre otras cositas más.