I’ve got to be, a macho man

Fábio Carvalho*

Viver e crescer em uma sociedade “macho” e sexista é algo muito complicado, especialmente se você era uma criança no Brasil dos anos 1970. Mesmo que sua família não fosse exatamente retrógrada, os fortes papéis e estereótipos de masculino/feminino sempre estavam à sua volta, e você acabava por absorvê-los como “verdade”.

Tanto antes, como ainda hoje, se você é um menino, acaba sendo empurrado para determinados padrões de comportamento esperados.

Agora… e se você gosta de brincar de casinha com sua prima, ou praticar jardinagem com sua avó? Ou sonha em ser o Gene Kelly? Sonha em aprender a tocar piano, dançar e cantar como nos antigos musicais, ao invés de jogar bola com os outros meninos?

Acho que todos sabemos a resposta. Quando era criança, eu gostava de brincar com soldadinhos, cowboys e índios de plástico, com armas de brinquedo, carros e aviões miniaturas, tanto quanto de flores, dançar e cantar, e eu queria TANTO aquele fogãozinho de brinquedo que assava bolo de verdade!  (Isto realmente existiu naquela época! Acredite!)

Por que eu precisava escolher isso ou aquilo?

Por que eu não podia me divertir com tudo indiferentemente?

De toda forma, você cresce, e aprende que é preciso esconder seus desejos, e emular o que seria “certo”. Abafei todos estes meus desejos, e segui com minha vida de uma forma mais padronizada.

Mesmo muito antes de me dar conta de que era gay (por volta dos 16 para os 17), eu sabia como deveria ser e me comportar para ser “correto”, mas sempre me sentia de certa forma inapropriado, desajustado, inadequado por dentro.

Era uma vida em silêncio, vergonha, ansiedade e medo, para dizer o mínimo. Medo e ansiedade constantes, de ir mal na escola, de ir mal na vida como um todo, pois mesmo quando estava certo, mesmo quando tinha as melhores notas, eu estava ainda, de alguma forma, errado. E caramba! Como isso dói e te machuca para a vida toda!

Stephen M. Whitehead, em seu livro “Men and Masculinities” (2002), sugere que, em meados dos anos 1970, surgiu um movimento onde homens gays começaram a se “clonar” a partir dos estereótipos do “machão” heteronormativo, para se posicionar contra a ideia geral de que os homens homossexuais eram fracos, frágeis, efeminados, que acabou por abrir caminho para o surgimento da cultura das “Muscle Queens”, dos anos 1990 (no Brasil, as Barbies, hoje em dia também conhecidos por “padrãozinho”, ao menos no Rio de Janeiro); os homens gays com corpos musculosos.

Sugiro como um possível exemplo desta época a música “Macho Man” (1978), do grupo norte-americano Village People, com seus figurinos que representam estereótipos (e fetiches) de virilidade – marinheiro, policial, soldado, atleta, indígena, motociclista vestido de couro, cowboy, operário:

Every man wants to be a macho macho man / To have the kind of body, always in demand / Jogging in the mornings, go man go / Works out in the health spa, muscles glow / You can best believe that, he’s a macho man / Ready to get down with, anyone he can / Macho, macho man (macho man) / I’ve got to be, a macho man

[“Todo homem quer ser um machão / Ter um certo tipo de corpo, sempre pronto, à  procura / Jogging (corrida) toda manhã, vá em frente cara / Malha na academia, os músculos brilham / Você pode ter certeza que ele é um homem macho / Pronto pra pegar, todos que ele conseguir / homem machão / Eu tenho que ser um cara bem macho” – tradução livre minha].

Você tem que ser musculoso, você tem que estar em forma. Bom, eu sempre fui entre “cheinho” e gordo, desde a minha infância, até estar muito gordo a partir dos 20 e tantos anos, de forma que eu estava, NOVAMENTE me sentindo inapropriado, desajustado, inadequado, mesmo quando estava em uma boate gay, ou qualquer outro ambiente gay, onde eu deveria me sentir livre, à vontade. “I’ve got to be, a macho man”, como diz a música, ou então, eu não sou ninguém, não sou nada. E estamos falando aqui apenas de aparência física!

You can best believe that he’s a macho man / He’s a special person in anybody’s land [Você pode ter certeza que ele é um homem macho / Ele é um cara especial em qualquer lugar]. Tive, então, que ir para a academia, e remodelar meu corpo, apenas para poder “fazer parte”, como se só houvesse uma única forma legítima de se existir. Em uma outra passagem da música, se afirma que sendo um machão musculoso você conseguiria se impor, e com isso, seria livre. Livre desde que escravo de uma forma padrão imposta de ser e se comportar. Imposta pelo próprio meio gay masculino!

Embora esta seja a minha história de vida, eu tenho certeza de que há muito disso tudo na biografia de muitos outros homens gays. Desde que comecei minha carreira como artista plástico, levei um tempo enorme até que eu me sentisse forte o suficiente para chegar ao ponto de falar do meu desconforto com as regras de gênero vigentes em minha produção artística.

Meu trabalho de 2009 para cá surgiu como uma reflexão sobre os elementos que compõem os estereótipos de identidade de gênero na infância, particularmente em culturas ocidentais sexistas, como os brinquedos que são dados para as crianças, ou com os quais estas são incentivadas ou autorizadas a brincar.

A experiência da infância, por meio da socialização conduzida pelas brincadeiras, permite que as crianças construam-se como “pequenos homens” e “pequenas mulheres”. Depois de explorar o universo dos brinquedos, da infância, minha produção artística seguiu para o mundo adulto, em que os estereótipos de virilidade já estão bem consolidados: o soldado, o halterofilista, o cowboy, o operário e o executivo bem-sucedido.

Eu procuro com meu trabalho levantar uma discussão sobre os estereótipos e as expectativas de gênero, por meio da sobreposição e conflito entre os clichês de masculinidade ideal com elementos e labores tradicionalmente atribuídos ao terreno do feminino, como padrões decorativos florais, a louça de porcelana, flores e borboletas, bordados e rendas.

Com minha produção, busco questionar o senso comum de que força e fragilidade, virilidade e poesia, masculinidade e vulnerabilidade não podem coexistir, e, também, lembrar que tudo aquilo que nos parece eterno e definitivo, como tudo na cultura, são na verdade resultado de acordos no tempo e espaço.

Em vários de meus trabalhos uso imagens de atletas fortes e saudáveis, por serem um dos estereótipos da masculinidade mais “correta e adequada”, o modelo da virilidade perfeita que um menino deve almejar para si mesmo, se ele quiser ser popular e bem sucedido:

“O esporte sempre foi um lugar onde a masculinidade é aprendida e praticada. (…) Para meninos atléticos, os esportes são um caminho para o sucesso e a popularidade. Por outro lado, meninos que não têm interesse atlético ou falta de habilidade esportiva são relegados para a periferia da masculinidade. (…) A própria natureza dos esportes está associada a princípios fundamentais da masculinidade – fisicalidade, agressividade, competitividade e triunfo”

(BRAKE, Deborah L. and GROSSMAN, Joanna L. – Playing “Too Womany” and the Problem of Masculinity in Sport – in Veredict, 2013, verdict.justia.com).

Não nos esqueçamos: um estereótipo tão forte, que foi até adotado por homens gays em meados dos anos 1970, quando estes tentavam desafiar uma ideia geral de que homens gays eram fracos, que permanece ainda vivo em nossos dias: “Every man wants to be a macho macho man / To have the kind of body, always in demand”.

Até hoje persiste a piada (horrível) de que um cara bonitão, com um corte de cabelo bem cuidado, em forma ou musculoso, acima de uma certa idade (por volta dos 30) é provavelmente gay, especialmente se for solteiro.

Este, talvez, tenha sido o estereótipo que mais me afetou, mesmo antes de ter consciência de que eu era gay, como já disse antes: sempre fui gordo a maior parte de minha vida, e por causa disso, sempre me senti como se eu não fosse “bom o bastante”, o que só ficou pior quando comecei a frequentar a cena gay. “You can best believe that, he’s a macho man / Ready to get down with, anyone he can”.

Agora parece estar em curso uma (ainda) discreta mudança na cena gay masculina brasileira, em particular nos grandes centros, ou pelo menos uma demanda por uma maior fluidez, por uma maior diversidade sobre como um homem “pode” (por que é preciso aprovação, afinal?) se parecer fisicamente e se comportar.

A hegemonia do topo da “cadeia alimentar” na comunidade gay, por tanto tempo ocupado pelos garanhões brancos de classe média/alta, musculosos e hiper masculinos, vem por um (ainda) curto tempo sendo estremecida pelos antes “rejeitados”: os efeminados, os magrelos, os ursos, os desconstruídos, os montados, os sem gênero, e assim por diante.

Saber se isto é uma real mudança, ou se é algo pontual e passageiro, apenas no longo prazo poderemos perceber. Não sejamos ingênuos – não se muda o status quo assim tão fácil, nem tão rápido. “Every man ought to be a macho macho man / To live a life of freedom, machos make a stand” [Todo homem tem que ser um machão / Para viver uma vida de liberdade, os machos se impõem].

Infelizmente, porém, esses que foram por tanto tempo maltratados pelos (ainda) “reis”, agora estão pagando na mesma moeda, tratando de forma hostil as barbies e padrõeszinhos, quando estes aparecem em festas ou eventos “alternativos”.

Eu queria tanto que todos pudéssemos nos entender e ser felizes juntos, independente de nossa forma, cor, peso, comportamento, idade, corte de cabelo… mas, afinal, somos todos apenas seres humanos falhos e estúpidos.

* Fábio Carvalho é artista plástico carioca.Fez exposições por quase todo o território nacional, e já participou de mostras na Alemanha, Argentina, Chile, Cuba, Espanha, Equador, EUA, Hungria, Inglaterra, Itália, País de Gales, Peru, Portugal, República Checa e Rússia. 

Agradecimentos: Átila Moreno pelo convite para desenvolver este texto; Gabriel Cardoso, Rodrigo Vila e Thiago Lasco pelas revisões, comentários e sugestões. O texto ficou muito melhor graças a vocês!