Flsh Travel Diaries: Ata-me e te devoro

“Infelizmente, muitas pessoas ao se tornarem adultas deixam de lado o prazer proporcionado pela brincadeira, pela fantasia, tão importantes quando se é criança. A sexualidade é muito mais ampla do que o simples cumprimento de papéis estabelecidos. Existe um mundo infinito de potencialidades.”

Por Leo Sales – de Berlim*

O telefone toca no escritório de Emma Steel. Do outro lado da linha, uma voz masculina pede para agendar um horário, naquele mesmo dia. Encontro marcado. Ele quer ser sequestrado.

Atender a fantasias eróticas como esta é apenas uma das experiências que o “Domina & Bizarr Studio Lux”, em Berlim, especializado em BDSM (acrônimo para Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo) oferece, desde 2015, a mais de 200 clientes por mês. É claro que a Flsh Mag não poderia deixar de conferir in loco este paraíso do prazer.

Equipado com brinquedinhos elétricos, slings, poltronas e mesas que não soariam estranhas em um consultório de dentista ou centro cirúrgico, a única regra do espaço administrado por Emma é a livre manifestação dos impulsos sexuais da clientela, sem restrições. Isso sem contar com os tradicionais chicotes, consolos de diversas formas e fantasias. Muitas fantasias.

Veterana no porno-ativismo, a dominatrix contextualiza a cena fetichista e a indústria erótica atual dentro dos avanços conquistados por movimentos radicais libertários dos anos 60/70, como a contracultura, o feminismo e a cena queer.

“A liberdade que desfrutamos atualmente de poder contar, inclusive legalmente, com lugares de livre expressão sexual, é fruto de toda a luta destes movimentos que reuniam pessoas de diversos segmentos sociais para resistir à repressão e lutar por direitos. Não de forma careta e institucionalizada, mas, sempre, por meio de festas, da música underground e, principalmente, pelo uso do prazer como ferramenta de poder político”, afirmou.

Emma lembra o episódio de 2 de junho de 1975, hoje celebrado o Dia Internacional da Prostituta, quando cerca de cem trabalhadoras do sexo ocuparam a igreja de St. Nizier, no centro de Lyon, na França, em protesto à repressão policial. O episódio foi um marco mundial na luta pelos direitos das putas e foi tema do documentário “La révolte des prostituées de Saint-Nizier“, de Eurydice Aroney e Julie Beressi.

Dor, desejo e repressão

O público do “Studio Lux”, que fica ao sul do hype de Kreuzberg, é majoritariamente formado por homens de designações sexuais distintas. Entre as especiarias do cardápio da casa, estão as sessões de hipnose com fetish em látex (Trance in Rubber).

“Infelizmente, muitas pessoas ao se tornarem adultas deixam de lado o prazer proporcionado pela brincadeira, pela fantasia, tão importantes quando se é criança. A sexualidade é muito mais ampla do que o simples cumprimento de papéis estabelecidos. Existe um mundo infinito de potencialidades. É por isso que existe um amplo mercado para este tipo de serviços em Berlim”, destacou Emma.

Desde o uso de instrumentos que causam algum tipo de dor até a fantasia por ser “educado sexualmente”, para a prostituta-chefe do Lux, é muito importante que o espaço seja inspirador.

---_00331

A cultura mainstream em geral impõe que os sujeito se limite a práticas convencionais. Isto explica até mesmo porque não temos muitas mulheres como clientes. Elas não são educadas para pagarem para ter um escravo sexual, por exemplo. O desejo humano é totalmente moldado pelas formações sociais”, concluiu a profissional.

Terminado o papo, Emma mostrou seu arsenal de instrumentos eróticos à equipe da Flsh Mag, que não poderia deixar de brincar um pouquinho, mas isso é outra história.

Antes que ela fechasse a porta, a gente ainda pode ouvir os gritinhos de algum cliente sendo bem, muito bem tratado, no andar de cima.

*Leo Sales tem 32 anos e mora no Rio de Janeiro. Formado em jornalismo e artes visuais, atua como assessor de imprensa, jornalista freelancer e desenvolve pesquisas no campo do desenho contemporâneo. É também Dj e produtor da festa Flsh Lovers.

** Fotos por Rafael Medina