FLSH Entrevista: Jorge Benavides

“… qualquer um pode ser um garoto de programa, porque todo mundo pode ser atraente para alguém. Precisamos de variedade para que possamos explorar, aprender e escolher, ao invés de dizerem o que devemos fazer.”

“Além de ajudar meus clientes a abrirem seus rabos, comigo eles podem abrir seus corações e mentes.”

Por Rafael Medina*

Conheci o chileno Jorge Benevides pessoalmente no meu último dia, em Berlim, cidade que o acolheu há quatro anos. Já estávamos em contato por Facebook, desde que o vi em um dos filmes do Antonio da Silva sobre o Brasil.

Fiquei encantado com sua figura, sua barba e cabelos longos. Um emaranhado maravilhoso de pelos coroava esse homem, de uma beleza singular.  E, não foi minha surpresa, quando ao conhecê-lo, descobri que a sua força, além da aparência selvagem, vinha da maneira enfática e apaixonante como defendia seus ideais e sua visão do mundo. São daqueles bons encontros que acontecem poucas vezes na vida.

Jorge é artista, terapeuta holístico e escorte! É isso mesmo! Garoto de programa e artista! E terapeuta! Conforme conversávamos, compreendi que era tudo parte de uma mesma coisa, que ele ia interseccionando essas três áreas com simplicidade.

Ele pode ser visto, também, no último longa do Bruce la Bruce, “The Misandrists”. É performer artivista e atualmente está desenvolvendo dois projetos que expõem a verdadeira história de genocídio, violência e exploração por trás da colonização latino-americana. Tudo isso e muito mais você confere na entrevista a seguir.

RM: A maior parte dos garotos de programas (GPs) que conhecemos são normalmente aqueles caras super sarados, com um corpo dentro de um certo ideal de perfeição. Como você se sente sendo um GP que desafia esse modelo?

JB: Bem, eu me sinto diferente e amo isso. Meu corpo não é o tipo musculoso. Mas o barbudo, peludo, com visual selvagem, pode causar uma rejeição muito forte em algumas pessoas que chegam ao ponto de mandarem mensagens tais como “Qual o seu problema?! Por que você não se depila?!” ou “Você é horrível, deveriam te trancar num zoológico”. Mas eu também inspiro uma intensa atração. Então, aqueles, que curtem meu estilo, enlouquecem. Eu encontrei meu jeito de trabalhar com sexo, e eu amo o que faço. Isso me torna um bom GP.

Acho que é importante quebrar com os estereótipos estéticos, para abrir um espectro maior de possibilidades. Em teoria, qualquer um pode ser um Garoto de Programa, porque todo mundo pode ser atraente para alguém. Precisamos de variedade para que possamos explorar, aprender e escolher, ao invés de dizerem o que devemos fazer.

RM: Como a atividade de GP influencia o seu trabalho como artista?

JB: No meu modo peculiar de viver, existem coisas que acabam se fundindo. Trabalho e férias; profissão e vocação; amantes e clientes; espiritualidade e mundanidade; vida e morte…

Desde muito jovem, aprendi e pratiquei terapias holísticas, e, meu objetivo, quando comecei ainda no teatro, foi, de alguma maneira, ajudar as pessoas. Como Alejandro Jodorowsky (diretor de cinema) diz “para que a arte seja arte ela tem que curar”. Anos depois, eu me tornei GP, e é dessa maneira que realizo meu propósito que não mudou até hoje.  Além de ajudar meus clientes a abrirem seus rabos, comigo eles podem abrir seus corações e mentes.

Ser um profissional do sexo, um terapeuta, um dançarino louco e um cara honesto inspiram meu jeito de fazer arte. Sexualidade é base fundamental do ser humano; sexo é tão importante quanto nossas emoções e pensamentos, ou as necessidades físicas e espirituais que temos. Eu escolhi, como um dos meus maiores objetivos na vida, tentar fazer o mundo um lugar melhor por meio da minha arte, das minhas terapias, do sexo e de simplesmente  ser aquilo que eu sou.

 

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foto por Helio Beltrânio

“Minha arte tem um direcionamento sexual e terapêutico; minhas terapias, uma contemplação artística e sexual; e meu trabalho com sexo, uma intenção terapêutica e artística; porque a repressão dos nossos impulsos sexuais leva à doença e à frustração; a realização das nossas fantasias, por outro lado, permite nossa auto-realização.”

RM: Como um garoto de programa pode fazer do mundo um lugar melhor?

JB: Primeiro, fazendo isso por vocação e não por necessidade ou obrigação. Para ser muito bom em tudo aquilo que a gente faz, precisamos amar ou, pelo menos, gostar daquilo que se faz. Eu acho que um GP deveria foder com as pessoas que normalmente não podem foder, porque, no mundo superficial que vivemos, se não temos determinada idade ou parâmetros de beleza, não é fácil fazer sexo. Então, imagine o humor de todas essas pessoas se elas nunca fodem…

Além do mais, em geral, os mais reprimidos são aqueles que perdem a cabeça e seus limites, então, eles estão estuprando e matando pessoas por aí. Frustração sexual é a fonte de tantos problemas na nossa sociedade. Trabalhadores do sexo fazem as pessoas felizes, e pessoas felizes fazem o mundo um lugar melhor!

RM: Trabalhando com sexo, você tem a oportunidade de ter uma troca única de afeto com muitas pessoas diferentes. Conte mais sobre essas experiências?

JB: Sim, existem incontáveis encontros maravilhosos na minha carreira como GP. Algumas das minhas experiências mais lindas têm sido com debilitados e velhos que choraram de alegria só porque os beijei. Muitos GPs não beijam seus clientes, eles apenas oferecem sexo e são frios; o que é aceitável, porque alguns clientes procuram isso. Mas outros procuram por relações mais profundas.

Assim como acontece no sexo que não é pago, o “depois de gozar” é o momento mais íntimo e despretensioso para falar sobre coisas importantes da vida. Às vezes, eu levo meu jogo de tarô para eles na cama e discutimos nus sobre seus fluxos de vida: de onde podem estar vindo, o que podem aprender com tais fluxos e que ações podem levá-los a realização de seus objetivos.

Eu adoro me conectar com as pessoas, e, de alguma maneira, ajudá-las, dando amor. Como o personagem Donnie Smith no filme “Magnolia”: “ Eu tenho tanto amor para dar” – no entanto diferente dele, eu sei perfeitamente onde aplicá-lo.

RM: Como é possível mudar a imagem que temos das pessoas que trabalham com sexo?

JB: Bem, provavelmente vai ser um processo longo – de fato está sendo. Mas, juntos, podemos tornar mais rápido. Em um âmbito individual, para começar, todo mundo deveria (por favor) pesquisar algumas informações básicas no Google. É bem rápido e fácil encontrar artigos objetivos, estatísticas e dados que nos ajudam a compreender a diferença radical entre trabalho com sexo, tráfico humano e prostituição forçada. É importante também ter uma ideia mínima do que está acontecendo globalmente com as leis sobre prostituição, e conhecer as diferentes posições que as fundamentam.

Depois, eu acho que todo mundo que tenha a mínima curiosidade, deve agendar um garoto de programa, pelo menos, uma vez, ou melhor, ao menos três vezes – só pra ter certeza de ter escolhido entre os bons, aqueles que gostam do seu trabalho. Deveriam, também, considerar ou imaginar a possibilidade de ser pago por sexo, ou algo do gênero; seja receber uma oferta interessante por casualidade, ou criar um perfil de garoto de programa só pra ver como é. Dá pra fazer isso com seu parceiro ou amante. Agendar juntos um garoto de programa, criando um perfil de casal pra ver que ofertas recebem, ou até mesmo como uma fantasia – marcar encontro com seu parceiro como se fosse um garoto de programa – como uma forma de fetiche.

Para aqueles que acham que essa proposta seja excessiva, eles podem tentar formas mais impessoais de trabalho sexual, como as webcams pagas (4cam), os clubes de strip, desde que sejam lugares onde os trabalhadores sejam tratados com respeito.

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foto por Lucas Dias

“‘Profissionais do sexo exigem direitos, não resgate’, ‘Trabalho sexual é trabalho’, ‘Não existem prostitutas ruins, apenas leis ruins’.  Conseguimos ler essas palavras de ordem, em meio a guarda-chuvas vermelhos, em manifestações por diversas partes do mundo.  Se quisermos ajudar, podemos nos juntar a causas e instituições que lutam a favor da descriminalização da prostituição e pelos direitos dos profissionais do sexo. Gostaria de ressaltar  a iniciativa da Open Society Foundations e do Centre for Artistic Activism, por ajudarem a financiar formas criativas de compartilhar e conscientizar a sociedade.”

Deveríamos também ter mais educação sobre o assunto. Tenho esperança que, em um futuro próximo, o trabalho sexual possa ser uma opção de carreira para os adultos; e que tenhamos instituições sérias onde possamos ter a formação adequada para tal.

RM:  Como é ser uma artista e ativista sul-americano trabalhando na Europa? Não poderia ser considerado um paradoxo considerando as críticas ao eurocentrismo contidas em seus trabalhos?

Claro. Acho que tudo em nossa existência é paradoxal. Eu sou sul-americano, mas tenho sangue e direitos aqui porque também sou europeu. Nasci no Chile e minha mãe na Espanha, então, eu tenho o privilégio da dupla-nacionalidade.

No Chile, sempre me senti deslocado. Fuder e amar, de forma aberta, como eu queria, era tão difícil quanto ser artista, e olha que a ideia de ser um profissional do sexo mal passava pela minha cabeça. Eu queria mais. Aqui, na Europa, posso ser tão livre quanto queria, dentro do meio social em que vivo.

Eu sei que a Europa é um lugar bom graças ao ouro, prata, terras e tudo o que roubaram durante a colonização, pela aniquilação de incontáveis culturas aborígenes em torno do planeta; mas acho que a evolução é um processo onde devemos aprender por meio dos opostos e não ficarmos parados. Somos resultado da impetuosa lei de seleção natural, resultado de cadeias violentas de casualidades, erros e reparos; mas, também, somos produto do amor, da adaptação e do sucesso.

Eu amo a América do Sul, assim como amo o mundo todo; patriotismo não é a minha. Aqui, onde estou, tenho liberdade bastante para trabalhar e encontrar minha própria maneira de ajudar a construir um mundo melhor.

Agora, por exemplo, além de estar focado em escrever para compartilhar meu ponto de vista sobre essas questões, estou atuando em dois projetos sobre colonialismo que se correlacionam: uma performance teatral chamada “Thirsty for revenge: The pornographic side of colonialism´s hidden story” (Sede de vingança: A história escondida do lado pornográfico do colonialismo), que termina com um curta-metragem chamado “Fuck the facism” (Foda-se o facismo).

Esse filme é, também, um projeto independente, que está crescendo para se tornar um docu-porn de longa-metragem sobre ações coletivas de vandalismo reeducativo. Por meio do convite aberto, para que todos juntem-se a nós e colaborem com o nosso projeto de estuprar estátuas de colonialistas em todo o planeta, revelando a verdadeira história por trás desses monumentos. No Brasil existem muitos deles, então, quem estiver interessado procure dar uma olhada no projeto. Gostaria também de convidá-los para ler um artigo sobre prostituição que acabei de escrever para a zine Bullshit.
*Rafael Medina é um dos sócios-proprietários da FLSH-Mag, formado em filosofia, estudou fotografia e artes visuais na EAV-Parque Lage, no Rio de Janeiro. Fotografa há mais de 10 anos a cultura underground carioca, e já clicou festas e clubes históricos como a Bunker, Dama de Ferro e X-demente.