FLSH Entrevista Bruce La Bruce – parte II

“Sempre fui politicamente incorreto nesse sentido também. Quer dizer, sempre resisto. Quando as pessoas dizem que eu deveria fazer alguma coisa, faço justamente o contrário.”

Por Rafael Medina*, com colaboração e revisão de Átila Moreno**.

Depois do Flsh Entrevista Bruce La Bruce – parte I, agora vamos seguir com a última sessão do bate-papo com o diretor canadense.

Aqui, a conversa tenta dissecar as diversas camadas por trás da sua trajetória, tanto sua postura política como as referências nos principais filmes.

Além do mais, em tempos de discussão sobre o empoderamento das mulheres, inclusive no cinema, a nova obra de Bruce La Bruce vem no momento certo. “The Misandrists” é composta por 13 atrizes e boa parte da equipe é formada por lésbicas.

FLSH: A teoria queer ou algum outro estudo sobre sexualidade e gênero que o inspira como diretor?

BLB: Teoria não, porque eu rejeito a academia até certo ponto. Eu estudei cinema na universidade de Toronto e pretendia ser um crítico de cinema, mas, ainda assim, fiz algumas matérias de produção nos primeiros anos, porque queria entender como os filmes eram feitos.

Mas foi só depois que comecei a fazer meus primeiros filmes em Super 8 que me interessei em virar diretor. Eu me cansei da academia, depois de seis anos na universidade (fiz mestrado em teoria do cinema).

O filme “The Raspberry Reich” foi inspirado nisso porque sinto que as pessoas não praticam o que elas pregam. Havia certos professores e alunos que, teoricamente, estavam defendendo o radicalismo, mas eles não viviam na prática.

Então, haviam professores vivendo há dez anos em bairros caros que defendiam o marxismo. A academia também pode ser uma torre de marfim, insular, desconectada do que acontece no mundo real, então, rejeitei isso.

Li muita teoria durante a faculdade. Mas, depois disso, não li muita teoria queer radical. Quer dizer até leio um artigo eventualmente, ou tenho uma conversa com alguém. Mas não sigo ativamente teorias queer.

No filme “The Misandrists” minhas duas fontes principais de pesquisa foram “O Segundo Sexo” da Simone de Beauvoir, que foi escrito nos anos de 1940 e a Ulrike Meinhof dos anos de 1960 e 1970, do RAF (Red Army Faction).

Você conhece o grupo Baden-Meinhof? São elas que referencio em “The Raspeberry Reich”. Elas são esses grupo de extrema esquerda radical super conhecidas que viraram terroristas em Berlim nos anos de 1970. Então, em Berlim, elas se tornaram praticamente heróis populares. Elas sequestravam industriais ricos, matavam pessoas, explodiam bancos. Na Alemanha são ícones da cultura pop nos últimos dez anos.

Elas eram feministas também e Ulrike Meinhoof, em particular, começou no mundo acadêmico. Ela escreveu para essa revista alemã de esquerda chamada “Konkret” que ainda existe. Eu nunca segui a teoria pós-estruturalista. É estranho porque meus filmes podem ser lidos como muito teóricos e acadêmicos, mas não é minha intenção. Então, acho um pouco triste que faça filmes acadêmicos porque eu odeio a academia.

FLSH: Mas você consegue balancear um lado mais político e teórico com uma estética pop.

BLB: O que eu fiz em “The Raspeberry Reich” e em “The Misandrists” é uma sátira desse radicalismo de esquerda, mas, ao mesmo tempo, de maneira bastante empática com os princípios que eles têm.

FLSH: Como é possivel se reinventar e manter-se subversivo?

BLB: Eu abordo cada filme individualmente como se cada um fosse um experimento independente. E também alterno entre filmes com orçamentos maiores e outros mais apertados. Se não consigo o dinheiro para o filme que quero fazer, então, faço um outro filme com um orçamento super curto.

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cena de Hustler White

“Tenho amigos que, depois que alcançam certo sucesso e um estilo de vida para se manter, eles começam a aceitar trabalhos que não são tão interessantes e que acabam eventualmente comprometendo o que eles acreditam. Nunca caio nessa armadilha porque não estou tão interessado em questões materiais. Eu vivo modestamente, então, isso me dá liberdade criativa.”

FLSH: Você consegue trabalhar no que você acredita…

BLB: Sim, até agora praticamente. O que é um luxo mas não é fácil também. Não sei, eu sempre tive esse espírito punk. Era punk nos anos de 1980 e este ethos é sempre ser muito ágil, flexível, não ficar preso… não se identificar como uma única coisa.

FLSH: Como os temas que você trabalha nos seus filmes se relacionam com suas próprias experiências sexuais? Existe algum ponto de contato entre essas duas esferas?

BLB: Bem, comecei como um diretor experimental. E estava mais interessado em documentar minha vida e meus amigos. Coisas do cotidiano, como alguém me filmando quando coloquei piercing no mamilo ou algo do gênero.

Filmando alguém roubando uma loja, qualquer coisa maluca.

E daí comecei a usar o pornô como função política, porque eu estava na cena punk que era muito homofóbica, nessa época, nos EUA e no Canadá. Então, fazia esses filmes para desafiar e afrontar, os exibia em clubes punks e em espaços de arte alternativos. Eram muito honestos e abertos sobre sexo e sexualidade.

Eu usava “found porn” e, então, comecei a fazer meus próprios pornôs ainda um pouco ingênuos.

FLSH: O que é Found Porn?

BLB: “Found Porn” são como colagem de filmes. Eu encontrava filmes em Super 8, recortava e misturava com coisas que tinha filmado. Ou, nas revistas, nós costumávamos pegar imagens de revistas pornô gays e fazer colagens.

Aí, então, eu comecei meu próprio pornô ainda ingenuamente e, eventualmente, comecei a fazer pornô com um amigo produtor e, depois, para produtoras de pornô.

Enfim, havia esse aspecto de documentação da minha própria vida e da dos meus amigos. E, nos meus primeiros três filmes – “No Skin off My Ass”, “Super 8 ½”, “Hustler White” – eu também atuei. Em parte, porque não podia pagar mais um ator, mesmo porque nunca estive muito interessado em me tornar um ator. Mas os personagens do filme acabam sendo variações da minha própria personalidade.

Até mesmo “The Misandrists” é parcialmente baseado na minha experiência. Nos anos de 1980, costumava andar com muitas lésbicas radicais separatistas. Eu andava com essas lésbicas bem hardcore. Mas elas sempre insistiam para os seus amigos gays irem nos eventos que supostamente eram só para mulheres. Então, era um evento com 200/300 mulheres e três viados. E elas nos odiavam. Essas amigas tentavam nos proteger, sempre lembro disso e o filme é um tributo a esse momento.

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Cena de Gerontofilia

FLSH: Você é conhecido como um diretor que resiste a norma e trabalha com temas subversivos. Por outro lado, a maioria dos seus filmes mostram rapazes gostosos e homens sexys. Não existe um risco nessa estratégia de acabar reafirmando a norma? Como você responderia a esta crítica?

BRUCE: Eu acabei de ter uma discussão recentemente sobre isso. Estávamos conversando sobre o “Gerontophilia”. E a pessoa me disse que gostou muito do filme e que ele gostava do fato deu ter escalado esse menino fofo.

Minha estratégia foi…Bem, primeiramente, eu estava tentando fazer uma comédia romântica no formato mainstream, então, a convenção é usar esse casal fofo. A fórmula romântica.

Mas, também, eu estava tentando mostrar que, mesmo que o menino seja jovem e bonito, era na verdade o homem velho que era o objeto de desejo, e ele era muito charmoso e sexy também.

Mas eu pensei que poderia ter ido por outra direção e escalado um menino mais comum com uma aparência mais estranha e isso teria mudado todo o filme. Talvez, até pra melhor, mas essa foi a estratégia que usei na época.

Foi a mesma coisa quando fiz “L.A. Zombie”, com o François Sagat (ator pornô francês gay), as pessoas disseram: “Ah mas ele é super gostoso ou ele é um beefcake”.

Mas você sabe, sempre fui politicamente incorreto nesse sentido também. Quer dizer, sempre resisto. Quando as pessoas dizem que eu deveria fazer alguma coisa, faço justamente o contrário.

Digo “foda-se”, eu me sinto atraído por homens musculosos às vezes. Então, não vou fingir que não me atraio, entende? E sou bem democrático, sempre gostei de tipos diferentes, raças diferentes, tamanhos diferentes.

Mas, também, sou um pouco realista. Sei que, às vezes, você tem que ter alguma coisa para chamar a atenção do público. E isso é super irritante. Eu odeio Instagram, por exemplo. Quer dizer, estou lá, mas odeio ao mesmo tempo. Odeio como essas pessoas super saradas ganham automaticamente centenas e milhares de seguidores. Nos anos de 1980 e 1990, a gente era mais consciente desse fascismo corporal. A gente chamava de fascismo corporal.

FLSH: Já era uma questão naquela época?

BLB: As pessoas não se interessavam por esse tipo de corpo naquela época. Quer dizer algumas se interessavam. Mas não é como agora esse fenômeno em que esses corpos são venerados.

Então, sou bem ambivalente sobre isso. É meio que uma coisa que amo e odeio. Que me sinto culpado às vezes. Mas é como é. Não consigo controlar meu desejo sexual. Algumas pessoas tentam ou parecem ser capazes de politizar seus ímpetos sexuais e torná-los politicamente corretos, mas eu não consigo.

Em “The Misandrists” foi muito difícil produzir o elenco.

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Cena do “The Misandrists”

FLSH: São só mulheres no filme?

BLB: Tem dois atores mas tem 13 atrizes. Em retrospectiva, acho uma pena que eu não consegui escalar mulheres mais gordas. Não pra ser politicamente correto, mas, porque acho que mulheres maiores são sexys. Mas a produção de elenco foi assim e foi um pouco difícil de achar. Aí, isso é só uma desculpa, deveria ter tentado mais.

FLSH: É admirável quando as pessoas assumem suas próprias falhas. É muito mais legal do que dizer “Ai eu sou essa pessoa perfeita”.

BLB: Só espero que o público seja generoso e compreenda isso (risos). Minhas falhas…

FLSH: Você falou bastante sobre o novo filme “The Misandrists”. Gostaria de contar mais alguma coisa? Algo que ainda não foi abordado?

BLB: Bem, foi um filme que tentei trabalhar o máximo possível com mulheres. Atrás das câmeras também. Duas produtoras são lésbicas e a editora também é lésbica, a música foi feita por lésbicas. Haviam muitas mulheres na equipe.

Eu estava interessado em investigar o feminismo, que como o homem, é um pouco politicamente incorreto também.

FLSH: Você acha que, talvez, as feministas possam te criticar?

BLB: Claro! Elas podem, com certeza, me atacar (risos), bem não sei, vamos ter que ver.

E foi uma energia diferente. Quero dizer a sexualidade. É muito interessante para mim como um homem gay observar e tentar captar a sexualidade feminina.

FLSH: Então o filme tem conteúdo sexual?

BLB: Sim, porque elas fazem pornô lésbico como parte das suas ações terroristas. Mas “The Misandrists” não é um filme pornô. Só tem uma cena explícita mais longa que, na verdade, tem referência ao soft porno dos anos de 1970. Eu sou super gay, nunca dormi com uma mulher, então, para mim foi interessante captar este tipo de sexualidade.

*Rafael Medina é um dos fotógrafos criadores da FLSH-Mag, formado em filosofia, estudou fotografia e artes visuais na EAV-Parque Lage, no Rio de Janeiro. Fotografa há mais de 10 anos a cultura underground carioca, e já clicou festas e clubes históricos como a Bunker, Dama de Ferro e X-demente.

**Átila Moreno é jornalista, com passagem pela TV Globo Minas, TV UFMG, Infoglobo e Universidade Corporativa do Transporte. É editor-chefe de conteúdo deste blog e escreve mensalmente para a Flesh-Mag.