FLSH Entrevista Bruce La Bruce – parte I

“…a sexualidade era como uma engrenagem que liderou o movimento de liberação gay. Muito afrontosa, havia um espírito de experimentação. Tentando ser mais diferente possível do status quo. Era contra o casamento, contra monogamia e práticas sexuais consideradas normais. Levava os extremos ao limite, com experimentações.”

Entrevista e foto de capa por Rafael Medina*, com colaboração e revisão de Átila Moreno**.

Seu olhar político-cinematográfico vai além da sétima arte e revela que nem tudo é preto ou branco. Da mesma forma que Bruce La Bruce joga luz sobre vários temas contemporâneos, deixa o nosso set sob uma névoa bastante cinzenta ao trazer questionamentos sobre as ideias massificadas pela opinião pública.

O fotógrafo Rafael Medina esteve com o diretor canadense, conhecido por filmes como  “Gerentophilia”, “Hustler White” e “No Skin of My Ass”.

No ano passado, em Berlim, na Alemanha, durante duas horas, eles conversaram sobre cinema, carreira, sexualidade, ativismo LGBT e política.

Dividimos a entrevista em partes. Nesta primeira, Bruce La Bruce enfia a estaca em Hillary Clinton e Donald Trump, que para ele são dois males da mesma moeda. Nem mesmo o queridinho da vez pela mídia escapa: o primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau.

E você vai notar o quanto o capitalismo tem seus tentáculos no mundo gay conservador, hoje. Mas, para Bruce, há uma luz no fim do túnel com o movimento trans e os milleniuns queer, mesmo que a Aids tenha acabado um pouco com a festa da liberdade sexual décadas atrás.  Saboreie com toda calma do mundo.

FLSH: Trump foi eleito nos EUA e tivemos a votação do Brexit. Parece que há uma pensamento conservador crescente no mundo. Talvez uma reação aos anos de abertura e debate sobre as questões das minorias. Como você acha que é possível resistir a este movimento? Dá pra pensar uma política libertária na sexualidade, neste cenário mundial?

BLB: Obviamente é uma questão complicada. É difícil generalizar, pois diferentes países estão em diferentes pontos de desenvolvimento, no que tange às questões queer. Em países islâmicos e alguns países africanos, a situação da população queer é horrível. Na África, em certa medida, a homofobia é importada da cultura cristã, então, nem é algo natural a estas culturas.

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Cena de Refugee´s Welcome

“Eu acabei de selecionar um elenco para um curta-metragem (Refugee´s Welcome). Tentei escalar um ator sírio. É um curta sobre um refugiado que faz sexo e tem um caso com um poeta tcheco. Eu conheci gays do Egito, de países do Oriente Médio e islâmicos. E vi como é difícil para eles saírem de lá.”

Nós acabamos ajudando esse cara. Eu queria escalá-lo para o filme, mas ele não conseguiu o visto a tempo para participar do filme. Enfim, é muito diferente em cada lugar.

O que está acontecendo na Europa, Inglaterra e América é que a situação econômica está causando medo nas pessoas. Eles acham que não tem estabilidade, então, se tornam mais xenofóbicos e anti-imigração, porque pensam que seus empregos estão sendo roubados. O que leva ao racismo.

É a ascensão da extrema direita. Na verdade, é a política econômica neoliberal que cria toda essa situação. Um elite internacional que concentra o dinheiro nas mãos dos super-ricos e, em conjunto com o avanço da tecnologia, oferece menos empregos para as pessoas, porque tudo é automatizado e feito por máquinas. Há menos empregos para as pessoas.

É uma tempestade perfeita que possibilita a ascensão da direita. É amedrontador, mas eu sou uma daquelas pessoas que acha que o Trump e a Hillary são dois males diferentes.

Hillary perpetuaria o sistema que já existe. Por outro lado, a curto prazo, Trump vai derrubar muitas das coisas que o Obama fez para as mulheres, para as minorias e para as pessoas queer.

A longo prazo, acho que existe a tendência de politizar mais as pessoas, pessoas mais ativistas e com visões políticas mais radicais. Acredito isso não aconteceria com a Hillary, porque ela manteria um certo status quo.

FLSH: É um pensamento curioso.

BLB: Eu sei que é uma hipótese meio arriscada, mas faz um certo sentido, pois, do contrário, não há incentivo para mudança.

A democracia ocidental é cíclica e pendula pra frente e pra trás.

No Canadá, a gente tem um novo primeiro ministro (Justin Trudeau), que foi eleito um ano atrás, mas ele faz parte de uma dinastia também. O pai dele foi primeiro-ministro na década de 1970. Ele é liberal.

Antes dele, tivemos dez anos de um governo que levou o país numa guinada à direita. E, agora, o primeiro-ministro é jovem e bonito.

Mas, ao mesmo tempo, é meio que uma ilusão também porque o Canadá tem, na verdade, algumas práticas muito problemáticas. É um país muito neocolonialista. Junto dos EUA, tem sido conivente com ditaduras na África que usam trabalhos forçados na mineração.

FLSH: Todo mundo acha que o Canadá é o lugar perfeito para os americanos fugirem do Trump.

BLB: Ouça o que tenho a dizer: Canadá é um lobo em pele de ovelha. Eu o chamo de “O império do mal”.

FLSH: Como você percebe o movimento queer hoje em dia? É muito diferente da época do “new queer cinema” nos anos 90?

BLB: Tem um significado diferente agora porque, nos anos de 1980 e 1990, quando comecei a fazer meus filmes e trabalhos de arte, ainda era parte da liberação gay que começou nos anos de 1970.

Então, tinha necessariamente um aspecto mais político. Intervenções políticas no sentido de conseguir direitos muito básicos, na luta contra a discriminação e a homofobia, então, era muito engajado, inclusive sexualmente.

Isso porque a sexualidade era como uma engrenagem que liderou o movimento de liberação gay. Muito afrontosa, havia um espírito de experimentação. Tentando ser o mais diferente possível do status quo. Era contra o casamento, contra monogamia e práticas sexuais consideradas normais. Levava os extremos ao limite, com experimentações.

Não tenho certeza se há o mesmo espírito agora. Há uma nova dimensão do mundo gay hoje em dia que é muito conservadora.

Gays moralistas contra pessoas que fodem muito e as julgam como “piranhas” (slutshaming). Bem, em Berlin não é tão comum, mas eu vejo isso em vários países.  

FLSH: No Brasil, a gente tem notado muitos desses gays que são mais conservadores. Eles, às vezes, me parecem que são contra seus próprios direitos. 

BLB: Nos anos de 1980 e 1990, se você perguntasse a uma pessoa gay havia grandes chances dela ser de esquerda, mas, agora, ser gay não é um indicador confiável.

Mas, por outro lado, agora tem os millenials queers que são muito sofisticados. Eles não são muito presos a certas políticas de identidade tão rígidas, então sua sexualidade e sua identidade sexual são mais fluidas.

Isso é algo novo que acho muito interessante.

A ascensão do movimento trans, eu acho que é um novo tipo de espírito revolucionário.  Então, tem algumas coisas muito boas acontecendo agora.

Também acho que, antes, os guetos e bairros gays eram como um forte. Onde as pessoas se reuniam para se proteger contra a homofobia, hostilidade e condenação moral, mas, já no final dos anos 90, esses espaços começaram a se tornar prisões.

As pessoas estavam presas ali e não saiam muito para o “mundo real”, então começou a ficar muito insular, porque cresceu à margem da sociedade.

Hoje em dia, esses lugares são somente para as pessoas irem nos finais de semana e na parada do orgulho gay, que agora é para os heteros (risos). Toda a energia agora é dispersada pela cidade o que é bom.   

FLSH: Você é conhecido com um dos grandes nomes que representa o cinema queer underground, desde os anos de 1990, como temas sobre a cena punk, drogas, prostituição. Hoje em dia, parte da cena gay parece ter se adequado ao sistema. Existe uma romantização da mídia do estilo de vida gay. Do gay branco, bonito, rico e com sucesso na carreira. O “Neil Patrick Harris way of life”. O que você acha da normatização de parte da comunidade gay? Você acha que ajuda ou atrapalha a luta pelos direitos das outras minorias LGBTs?

BLB: O problema com o movimento gay é o mesmo do movimento negro e o feminista. Eles eram todos de extrema esquerda e, em sua maioria, marxistas, muitos deles, por exemplo, os Panteras Negras eram marxistas.

Em Toronto, nos anos de 1970, os ativistas gays tinham uma revista chamada “The body politic” que era fortemente marxista. Eles eram na verdade anticapitalistas.

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Filme Raspberry Reich

“A armadilha de qualquer movimento extremista de esquerda é que, uma vez que tem aceitação ou ganham poder, ou são convidados para o “stablishment”, você nunca volta a ser anticapitalista”

Uma vez que você entra na zona de conforto não volta atrás. É uma regra básica de política radical.

Então, sempre uso a estratégia do Jean Genet (escritor frânces, 1910 – 1986). Ele diz que, se ele visse um momento revolucionário acontecendo no mundo, ele apoiaria e até se tornaria parte dele. Mas, no primeiro sinal de institucionalização, ou de que o movimento estava sendo assimilado, ele não somente o abandonaria. Ele, na verdade, se viraria contra ele.

Como artista, tento seguir essa máxima. Eu não sou uma pessoa que marcha e está ligado a alguma causa revolucionária. Não sou um ativista político, mas, como artista, eu a uso como uma metáfora.

FLSH: Ótima ideia do Genet. Parece como se você tivesse o sistema e pontos de resistência. No entanto, o sistema assimila muito rápido como lidar com os pontos de resistência e os torna parte do si. Então, você tem que encontrar novas maneiras, novos pontos. Mas, às vezes, parece que esse processo só deixa o sistema mais forte, a cada vez que ele aprende a lidar com as resistências.

BLB: Esta é uma das razões pelo qual eles deixam você entrar e participar do sistema. Porque eles sabem que se deixarem você participar, parte dos apoiadores da causa vão desaparecer. Porque são seduzidos pelo sistema.

O novo filme que estou trabalhando “The Misandrists”, que é sobre um grupo de lésbicas separatistas, essencialistas, feministas e terroristas. Elas se reúnem contra as feministas que querem igualdade em um sistema corrompido.

Então, elas querem ser tão poderosas quanto os homens e, também, igualmente corruptas como os homens.

Porque você não pode ter o mesmo tipo de poder sem ser igualmente corrupto. Qual é a vantagem de ter direitos iguais em um sistema desigual? Era a ponto de vista da Ulrike Meinhof, uma terrorista extremista alemã dos anos de 1970, do grupo Red Army Faction (RAF).

É o oprimido tornando-se o oppressor. É o tema que você vê em vários dos meus filmes, como em “The Raspberry Reich”.

Eu me interesso por todo tipo de movimentos e grupos radicais. Porque não é algo que acontece só no mundo queer. É uma dinâmica da revolução, por exemplo, em alguns países da América Central, como na Nicarágua onde eles têm comunistas e, daí, houve ditaduras que se tornaram de direita. As pessoas vão tão à esquerda, que parece que dão a volta e tornam-se fascistas.

“É interessante como as pessoas trans são muito conscientes, assim como foram antes os gays e as lésbicas. Bem, os gays em particular não eram contratados e não tinham empregos, então não tinham poder econômico. Mas isso agora está mudando porque gays e lésbicas estão sendo assimilados. Mas são as pessoas trans que agora estão nessa posição. A nova minoria que é discriminada somente por ser o que é e não consegue se empregar, vive num status econômico baixo. Mas elas correm os mesmo riscos. Assim que começarem a serem aceitas, vão se tornar corruptas como todo mundo.”

FLSH: Mas, talvez, elas possam aprender alguma coisa com os gays…

BLB: Não, ninguém nunca aprende nada. (risos)

FLSH: Não que aprendam exatamente, mas, às vezes, me parece que a luta por direitos dos LGBTs, por exemplo, é fruto da luta do movimento feminista, assim por diante…

BLB: O movimento negro em certo sentido é um dos mais decepcionantes, porque saiu dessa raiz marxista para um hipercapitalismo, quer dizer, pelo menos, o movimento hip-hop. Vários artistas de hip-hop fazem rap sobre seu sucesso e o quão ricos eles são. Essa é uma traição bem óbvia das raízes da revolução.

FLSH: Talvez não haja uma solução. Isso acontece, pelo menos, desde o início do cristianismo. Primeiro, os cristãos eram perseguidos, então, ganharam poder e tornaram-se os opressores; o mesmo aconteceu com os judeus e assim por diante.

BLB: É o que eu estava dizendo sobre a democracia ocidental. É como um pêndulo. No Canadá, a gente teve dez anos de extrema direita no poder e, agora, voltamos para a esquerda.

Nos EUA, Trump não foi só eleito por conta do racismo, o que foi em grande parte, pela xenofobia e por esses brancos estúpidos sem educação (talvez não só os sem educação). Estes são paranoicos por acharem que serão invadidos pelos “outros”, os mexicanos, e perderem seus empregos.

Isso é uma das razões principais, mas tem sempre a questão da mudança. Obama levou até certo grau. Ele foi muito liberal, embora ele ainda seja neoliberal. Então o pêndulo tem que retornar. É uma reação.

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Cena de Raspberry Reich

“Mas tem sempre o lado positivo. Tem sempre pessoas com convicções políticas e que não estão tão interessadas em tornar-se parte do sistema. “Radicais livres” que desafiam qualquer sistema desigual, como flaneurs. Tem sempre gente assim e essas são as pessoas que você quer conhecer/andar. E muitos delas não são afiliadas a nenhum partido, movimento ou organização em particular.”

E também sempre tem um progresso se você olhar globalmente. Então, mesmo que haja o movimento pendular, existe algum tipo de progresso.

Eu acho, por exemplo, que as coisas são melhores para as pessoas queer em muito lugares do mundo. Muito melhor do que era. Houve um momento na história em que as pessoas queer eram invisíveis, não eram nem reconhecidas.

Mas, aí, novamente, tenho amigos em alguns países islâmicos. Eles contam que onde vivem há um alto desenvolvimento do mundo gay. De fato, era até melhor nos anos de 1960 e 1970, porque eles eram meio que deixados em paz, desde que ficassem na sua.

Então, no Afeganistão e Líbano, até mesmo na Síria, havia um mundo gay. Mas novamente, talvez seja só uma história cíclica. Os anos de 1960 e 1970 foram muito mais revolucionários em muitos sentidos. Houve a revolução sexual…

FLSH: Parece que a Aids meio que arruinou tudo.

BLB: Isso me faz pensar na conspiração sobre a Aids. Eles precisavam achar uma maneira de acabar com a festa (risos).

FLSH: Agora, com o PrEp, parece, em certa medida, que estamos prestes a viver uma nova revolução sexual, porque as pessoas não têm mais tanto medo de fazer sexo. O artigo, How PrEp Changed My Life, relata  os problemas sexuais e as questões com relação sexualidade das pessoas que tinham medo de se infectarem, e o PrEp veio como uma nova abertura para elas. Talvez, não tão grande como nos anos de 1970, mas, de qualquer forma, parece que um novo passo para a história.

BLB: É verdade. Mas, por outro lado, você pega mais as outras DST’s (risos).

FLSH: Mas essas doenças também existiam nos anos de 1970.

BRUCE: É verdade!

O papo não acabou por aqui, não. Essa é só a primeira parte da série de entrevistas com Bruce La Bruce. Amanhã, iremos publicar a segunda.

*Rafael Medina é um dos fotógrafos criadores da FLSH-Mag, formado em filosofia, estudou fotografia e artes visuais na EAV-Parque Lage, no Rio de Janeiro. Fotografa há mais de 10 anos a cultura underground carioca, e já clicou festas e clubes históricos como a Bunker, Dama de Ferro e X-demente.

**Átila Moreno é jornalista, com passagem pela TV Globo Minas, TV UFMG, Infoglobo e Universidade Corporativa do Transporte. É editor-chefe de conteúdo deste blog e escreve mensalmente para a Flesh-Mag.