Erotismo, o marketing sagrado

Ton Dutra*

 

Sexo e erotismo são uma das principais ferramentas de sucesso do marketing cristão. O assunto sempre rendeu pontos com pouquíssima margem de erro.

Isso não é novidade contemporânea, nem do último milênio. Não é preciso citar grandes pensadores para saber que religião tem poder no cotidiano social e sexual. E para amarrar bem o rebanho, nada melhor que mesclar sexualidade e fé.

 

A imagem construída da virginal mãe do messias, mesmo após o nascimento da criança, se manteve intocada, abdicada de qualquer prazer carnal, mantendo seu selo de garantia como exemplo de mulher. Seu marido aceitou e respeitou. A família sagrada, o exemplo a ser seguido, não tem sexo para exemplificar!

A mulher “feminista”, que enfrentou a sociedade para defender sua gravidez e fugiu para proteger seus direitos de mãe, passou o resto da vida dedicada ao filho, então, transformado em macho herói.

E, assim, ao longo dos séculos, diversas imagens e perfis foram construídos como exemplos para se inspirar, como santo Agostinho, o famoso fanfarrão convertido, que mesmo experimentado uma vida hedonista, após ler a bíblia, se abstém dos prazeres da carne para salvação do espírito.

 

Entretanto não é apenas com dessexualização nos modelos de conduta que foi construída a comunicação imagética desse grande negócio que é o cristianismo.

Muitas imagens sacras são representadas de forma sensual, enquanto o corpo nu dos mortais é visto como pecaminoso. São Sebastião, por exemplo, é representado com seu corpo esguio, amarrado, torturado. Praticamente o padroeiro dos clubes temáticos com ambientes fetichistas e suas masmorras gourmet.

 

Imagine-se numa época em que a exibição do corpo é condenatória e rara. Um simples tornozelo pode ser extremamente excitante.

E, ao entrar no ambiente do programa social semanal obrigatório, depara-se com o corpo magro, levemente musculoso, de um homem jovem, suado e sujo, com os cabelos desgrenhados, barba por fazer, como um pastor que anda pelos campos, mas, com sangue, pra você sentir culpa por aquela dor que ele se dispôs a sentir. Afinal, ele morreu para o bem e salvação de todos, e, mesmo assim, você tem tesão naquele corpo, e reza querendo se livrar dos pensamentos do pecado da carne, admirando o tônus muscular do seu salvador.

 

Sobrou pra você, Satã

A imagem demoníaca é representada com referências muito próximas a arte pré-cristã na representação imagética dos deuses das religiões politeístas.

Talvez, seja a figura que mais se aproxima da representação dos antigos deuses gregos e romanos, já que seu tridente deve ser parte do figurino que Poseidon deixou pra trás, quando foi demitido pelos cristãos.

Os demônios são sexualizados em suas representações, muitas vezes, com “aquilo maravilhoso” exposto e várias deles enrijecidos.

É a imagem que excita e traz culpa mais uma vez. Quando não é representado de forma excitante, é apresentado de forma vexatória, com imagens ridicularizadas, fazendo caricaturas de estereótipos para moralização.

 

Hoje, pode ser banal, ao entrarmos na internet, e com poucas palavras e ajuda dos algoritmos, encontrarmos a imagem do desejo mais obscuro, aquele que nem em confissão você teria coragem de contar, desde sexo com equinos, a introdução de cones de trânsito em orifícios…

Mas tire toda a facilidade imagética sexual consumida no seu cotidiano e pense nesses santos belos desnudos, amarrados, ou no demônio sorrindo com o pau duro. E na imagem dos únicos corpos nus que, por séculos, foram admiradas em unanimidade por seus catequizados.

A imagem do nu é permitida pela igreja quando seus heróis são sacrificados e os anti-hérois degenerados. Sexo é a imagem do sacrilégio sagrado.

Na atualidade, o grande desafio da equipe de marketing do Sr. Jesus Cristo de Nazaré é o reposicionamento estratégico, com a invenção da fotografia e a popularização de todo tipo de imagem que a internet expos. O sexo sagrado não vende tanto como antigamente, e está caindo no ostracismo como o erotismo soft core da famosa série “Emanuelle”, e depois de mais de dois mil longos e sangrentos anos cristãos, é evidente que a assessoria de imprensa desse grande conglomerado está em surto com a perda do direito de uso exclusivo de imagem dos dorsos,  pênis, seios, cenas sodomitas e, principalmente, com a popularização da imagem da vagina matriarcal no último século.

Assim, o discurso se inflama, mais uma vez, usando o ataque como defesa, afinal, a retórica da culpa pelo pecado da desobediência é o branding desde Gênesis na primeira temporada.

 

* Ton Dutra é bicha, comunicólogo, CEO do coletivo FLSH, já fez e estudou um monte de coisas, morou em alguns lugares, além de ser pisciano com ascendente em virgem ou leão(não se tem certeza).