Drugs, Sex and Vomit: um ensaio sobre nojo e sexualidade

Gleiton Matheus Bonfante*

“Conheci ele pelo app Scruff. Era um loiro grande, muito musculoso e tatuado, natural da Letônia. Um homem de poucas palavras. Ele me ofereceu uma bebida e cocaína. Aceitei. Nos entregamos a uma longa sessão de ‘mouth fucking hard style’, que quase me levou ao vômito várias vezes, pelo estímulo no pau fundo na garganta. A cocaína também estimulava um pouco as ânsias, a sensação de amortecimento na garganta, falta de ar pela obstrução das vias respiratórias. A piroca também as obstruía, mas era tão bom ficar sem ar, engasgar naquela pirocona. Percebi que o meu desespero e os espasmos típicos da iminência do gorfo o excitava ainda mais. Eu soluçava e meu olhos se enchiam d´água. Minha boca começa a salivar muito. Ele gostava. Ele me incentivava verbalmente, puxava minha cabeça, até que o vômito veio, quente, explosivo… Isso o excitou muito, senti o pau se dilatar na garganta e o seu ritmo se acelerar. Passou a urrar, fodendo minha boca com força. Na segunda gorfada, meus cabelos já estavam melados de vômito; o cheiro azedo me enfiava o nojo pelas narinas e o paladar. No entanto eu me excitava. Ele esporrou na minha boca misturando saliva, vômito e sêmen. E eu engoli. Também gozei em seguida.”

Esse relato de uma transa introduz meu ensaio sobre nojo e tesão. Mais, especificamente, um ensaio sobre a escandalosa relação entre sexo e nojo.

Baseando-se em uma experiência de gagging e pilking, discuto a ambivalência do nojo na sua relação com o sexo.

“Gagging – sexo oral tão profundo e convulsivo que leva ao engasgamento; Pilking é o extremo do gagging que resulta no vômito do sujeito cuja boca é penetrada.”

Com razão, repulsão e atração são sentimentos paradoxais tão conectados ao sexo que muitas práticas que encenamos, de maneira prazerosa, durante o ato sexual, poderiam ser consideradas completamente repulsivas, se tiradas do contexto original de intimidade do sexo.

O desejo, dessa forma, pode inaugurar (a) práticas; (b) partes do corpo; (c) sensações provocadas; (d) substâncias e fluidos corporais e (e) objetos como focos inusitados do prazer.

Assim como o próprio nojo, o sexo parece ter a função de nos subtrair o conforto do corpo e nos lançar a situação de arrebatamento corpórea, física e afetiva.

Ao discutir a experiência do engasgamento, focarei os três elementos que permearam a experiência sexual mais intensamente:

  • (1) o engasgamento como ato sexual, pela sua agressividade e dominação total;
  • (2) as drogas que aguçam os sentidos, mudam a percepção sensória (no caso do álcool desinibe, no da cocaína estimula, atiça, aumenta a entrega);
  • (3) o vômito, pelas suas propriedades como matéria, seu cheiro, seu gosto, sua textura, sua cor e principalmente, pela sua capacidade de causar nojo.

Os saberes da carne: sexo como forma de conhecer o mundo

De acordo com o filósofo Aurel Kolnai, o corpo é intermédio essencial entre o sujeito e o conhecimento, entre nós e a apreensão do mundo.

Não é a única forma de conhecer o mundo, mas com certeza é uma que privilegia a subjetividade e as próprias sensações e sentimentos do corpo como saberes. Se o corpo é forma de saber o mundo e, o sexo é forma de saber o corpo, então, o sexo também é forma de saber o mundo.

À parte da razão, o saber corpóreo do mundo pode ser alterado por meio do uso de drogas, do arrebatamento do sexo e da violência (ou, dos dois, no caso de um sexo violento como o engasgamento) e por meio do nojo. Experienciar sexo, drogas e nojo, certamente, nos faz conhecer uma realidade do mundo altamente corpórea, como discuto abaixo:

Cocaína e Álcool

As drogas são para o corpo. Elas são para transformá-lo. Fazê-lo sentir bem. Elas são tópico de interesse, principalmente, pela crescente performance da quimicalização do sexo, ou da “foda aditivada” com 4&20, teko e poppers como explico no livro Erótica dos Signos em Aplicativos de Pegação.

Drogas também podem simbolizar a transgressão, combustível certeiro para o tesão.  Contudo, mais relevante que suas reações neuroquímicas e fisiológicas, é essencial entender os seus afetos e sensações: aqui, as drogas serviram como papel fundamental tanto para a excitação, para a entrega, quanto para o próprio vômito.

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O engasgamento

O tesão ao foder a boca, fluía bilateralmente no relato, e não o atribuo à (a) iminência ou presença do vômito apenas, mas (b) ao total controle sobre a boca, (c) o poder de controlar e estimular o impulso do vômito, (d) poder sobre impedir e controlar a respiração do parceiro, (e) uma transgressão uma hierarquia das partes do corpo na forma do pênis violando e profanando a boca que é em si um órgão sexual muito especial.

A boca (especialmente os lábios) é a parte mais sensível do corpo o que faz o sexo oral sensível para ambas as partes. Ademais, a boca é colonizadora do corpo no sexo. Ela toca outras bocas, ela toca outra partes do corpo, prova os gostos, molha, lubrifica. Foder a boca, até engasgar, é um ato de dominação completa da subjetividade do parceiro, e, tanto dominação quanto submissão, são ingredientes chave nos jogos do tesão.

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O vômito

O nojo, por ser um dos sentimentos mais profundos, mais arraigado ao corpo, permite pouco espaço para conhecimento social se não consideramos nosso próprio corpo individual e suas sensações e reações.

O derradeiro e mais inequívoco símbolo da afetação do nojo sobre nós é o vômito. O vômito também estabelece uma relação polêmica com a boca. Enquanto a maior parte daquilo que é nojento só toca o corpo através do olfato, ou da visão, o vômito só existe porque tocou a boca, porque através dela ganhou (ou voltou) ao mundo.

No relato, é preciso considerar que as sensações que o vômito causava em ambos os envolvidos, no ato sexual, talvez, não coincidissem. Tampouco que o engasgamento e o vômito tivessem sido combinados ou desejados; de forma que o imprevisível e o acaso podem ter sido fatores de excitação.

Acaso, como fator de profunda excitação, pode ser ilustrado por uma manifestação da própria fisiologia do corpo que responde ao sexo: um “cheque”, um vômito, um mijo, um jato de porra. Saber-sentindo que um corpo reage ao sexo é profundamente excitante.

No relato eram os corpos sendo corpos. Uma celebração bacânica da organicidade. Efeitos materiais e sentidos sociais sobre o tesão e o nojo em casamento no orgasmo do corpo. A testemunha deste casamento era o vômito.

O tesão no texto relatado trabalhou com três suspensões.

As (a) drogas suspendem as regras do corpo, da sensação, ela embriaga o corpo, produz um novo corpo, que experimenta um outro mundo, enquanto (b) o sexo, como arrebatamento, suspende as regras do próprio sujeito, alarga limites, submete o sujeito, expande sua experiência corpórea e mundana.

Já, no caso do nojo, a mais visceral emoção, segundo filósofo e crítico literário Ian Miller, é (c) o tesão que pode suspendê-lo. De acordo o filósofo Kolnai, o ‘erotismo suspende as regras do nojo’.

Também é o que entendo do excerto de narrativa acima. O tesão sublevou o nojo. Ou o nojo virou tesão? Ou, talvez, os dois, viscerais que são, estejam mais próximos do que sabemos. Ou do que queremos aceitar.

*Gleiton Matheus Bonfante é pesquisador Núcleo de Estudos de Discurso em Sociedade (NUDES), mestre em Linguística Aplicada pela UFRJ e poeta .  Escreve mensalmente para o blog da Flsh-Mag.