Do Bozo ao gozo

*Gleiton Matheus Bonfante 

Sabidamente, o aparecimento de pessoas vestidas de palhaços em ambientes urbanos soturnos tem provocado medo em pessoas por todo o mundo.

Desde ano passado, casos de aparição suspeita de palhaços já foram documentados nos Estados Unidos, na Europa, Austrália e até no Brasil.

Em comum, os casos têm as seguintes características:

  • aparições esporádicas em locais misteriosos como ruas escuras, bosques e parques;
  • a omissão da identidade e da figura corpórea por meio de maquiagem e fantasias;
  • frequentemente posse de armas como marretas e bastões;
  • postura misteriosa, soturna, etc.

Essas aparições têm alimentado popularmente um sentimento de medo, de periculosidade e de excitação.

De fato, tanto o oblívio da identidade, quanto a circulação por locais inusitados – fora da vigilância constante podem ser entendidos como fatores do tesão, que se realizam no fetiche da despersonalização do sexo (sexo purificado das relações sociais) e no fetiche do sexo em lugares públicos.

De acordo com diversas matérias divulgadas online, depois da notificação da aparição de palhaços assustadores e a divulgação de vídeos, fotos e entrevistas, com pessoas que vivenciaram a experiência, a procura por pornografia envolvendo palhaços cresceu até 200% no site Pornhub. O Riotfest.org relata crescimento de 213%, enquanto dailydot.com relata 210%.

Os palhaços, que já figuram há muito tempo como elementos prototípicos de terror – como no remake de “It”, baseado no livro de Stephen King – aparecem em produções pornográficas.

Vale ressaltar também “Bingo”, filme nacional inspirado na vida do primeiro palhaço Bozo no Brasil, que traz uma cena de sexo entre o protagonista, vestido à caráter, e a eterna Rainha do Rebolado.

Picadeiro pornô

Eu assisti a duas produções pornográficas para escrever esse artigo. O primeiro é “Cirque noir” (2005, de Brian Mills), um filme cult e pós-pornográfico, no qual estrela Buck Angel, um homem trans, famoso pelas performances em filmes adultos.

“Cirque Noir” retoma o imaginário do circo para criar situações sensuais. É um filme interessante e sexy, porém o circo participa apenas como contexto, não sendo muito significante para a relação sexual dos participantes. E os palhaços aparecem apenas em uma cena.

Cirque Noir

Cirque Noir

O segundo filme, desta vez direcionado ao público hétero – leia-se a homens héteros, já que mulheres não consomem esse tipo de pornografia – foi mais interessante, por ser mais “estranho”.

“Clown Porn” (2005, de Chris Spotto) vale a pena ser analisado mais cuidadosamente: nele, os homens são palhaços caracterizados com roupas, maquiagem e peruca muito toscas.

Porém, à medida que o sexo flui, os atores se livram das roupas mantendo as perucas e maquiagem. Ao revelar os corpos sarados e as pirocas grandes e duras, a única caracterização cômica que fica é o rosto caricato.

O palhaço some e reaparece na medida em que a câmera dá zoom in e out. Em closes muito próximos da genitália – típicos do gênero pornô – às vezes uma galinha de borracha aparece perto dos genitais, para realçar o ar absurdo e cômico.

Os atores se esforçam por incorporar trejeitos e um senso de humor, mas a figura do palhaço acaba ficando de escanteio, porque como em todo pornô hétero, o corpo da mulher ocupa o centro da câmera.

Contudo, a música cômica por trás das cenas e a estética pitoresca contribuem para a produção de um ar bizarro.

Clown Porn

Clown Porn

O mais relevante nessa produção pornográfica sobre palhaços é a vazão sutil que ela dá para fantasias masculinas sobre a mulher. Uma mulher muito jovem, com ar pueril, cercada por palhaços, às vezes vendada, sem livre-arbítrio, e que aceita as propostas de “brincadeiras” dos palhaços sem contestar, são o centro da performance sexual de “Porn Clown”.

Essa mulher fantasiada faz irromper fantasias heteromasculinas como:

  • infantilização da mulher e o desejo por meninas muito jovens;
  • potencialidade de ser violento (bater, ou estuprar), ou apenas usufruir sexualmente sem ser reconhecido;
  • trazer humor e brincadeira para o ato sexual.

Se por um lado, podemos ver a reatulização de fantasias masculinas travestidas de palhaço, também se observa muita inovação semiótica para o gozo.

A geração fuck – capaz de transformar qualquer estímulo em potencial de gozo – já entendeu que a figura do palhaço pode ir além do medo e do cômico e afetar como tesão.

A geração fuck – da qual orgulhosamente faço parte – tem sido constantemente tachada de imoral e promíscua e acusada de não conseguir grandes conquistas nesse sistema heterocapitalista.

Gozar de palhaço, com brinquedos, com a cara pintada, com a torcida do flamengo inteira, gozar…apenas.

Por mais que pareça pouco, gozar tem libertado nossa sociedade dos perigos do moralismo e aprisionamento do corpo.

Do meu ponto de vista, o grande feito da geração fuck é justamente rejeitar imoralidade e promiscuidade como códigos orientadores do comportamento e abraçar o gozo como um terreno de liberdade, de criatividade e reinvenção social.

*Gleiton Matheus Bonfante é pesquisador Núcleo de Estudos de Discurso em Sociedade (NUDES), mestre em Linguística Aplicada pela UFRJ e poeta .  Escreve mensalmente para o blog da Flsh-Mag.