Desnudando um seminário de arte: as amarras em volta da representação

Daniela Andrade, ativista trans que morou a vida inteira em São Paulo, disse nunca ter entrado ali antes. Sua poderosa narrativa interpelou, a todo momento, as pessoas que estavam assistindo ao seminário, provocando, naqueles corpos cis, brancos e de classe média, o despertar de uma consciência que jamais alcançariam por si.

*Vitor Grunvald

A falta de pessoas negras na composição de mesas em diversos eventos acadêmicos ou artísticos e sua pouca presença na plateia, infelizmente, não chega a surpreender. A academia, bem como os museus, sempre foram espaços frequentados por um elite branca intelectualizada, e o seminário Histórias da Sexualidade que ocorreu, em setembro, no MASP  não foi exceção à regra.

Por outro lado, a escolha de várias mulheres cis, de uma mulher trans e de uma travesti, como palestrantes, mostrou, positivamente, a impossibilidade de pensar gêneros e sexualidades sem levar em conta corpos e subjetividades que, historicamente, aparecem como objetos mais que sujeitos das representações artísticas.

No entanto, mesmo nesse cenário mais inclusivo em relação ao gênero, essa orientação não parece ter desaparecido por completo e a questão está longe de ser resolvida.

Muito pelo contrário. Luciano Migliaccio, professor da FAU-USP e curador adjunto de arte europeia do museu, fez uma apresentação sobre nu e erotismo no acervo do MASP, na qual diversas imagens femininas foram pictoricamente analisadas.

As mulheres apareceram bastante em sua apresentação: novamente como objetos do olhar de artistas homens que, com seus pincéis, as desnudaram. Nunca como produtoras legítimas (na verdade, nem como produtoras ilegítimas) da arte.

No debate, ao ser questionado sobre questões de gênero na história da arte e a “presença absoluta de artistas homens no acervo do museu”, respondeu que não teve tempo (sic!) para mostrar artistas mulheres que compõem essa coleção, indicando, uma vez mais, a persistência de uma tendência que há muito faz da história da arte: o recorte de uma história geral da cultura marcadamente cis-heterossexista, produzida por homens e para homens.

A fala de Luciano destoou completamente de sus companheirxs de mesa, Cecilia Fajardo-Hill e Richard Meyer que, a partir de experiências curatoriais e de pesquisa particulares, orientadas por reflexões feministas e queer, impuseram, em seus discursos, justamente aquilo que o uspiano parece nem ter chegado a considerar: a ideia de que a escolha de artistas a serem colocadxs em pauta está longe de ser gratuita e, de fato, constitui um dos mais marcantes atos políticos de segregação autoral no campo artístico (e em muitos outros campos, para ser exato).

O que entra e o que fica excluído de exposições, catálogos e livros de histórias da arte, como ato que marca um posicionamento crítico e transforma a prática acadêmica e curatorial em prática ativista, apareceu fortemente nos seus discursos, bem como nas exposições de Cornelia Butler, Fernanda Carvajal e Övül Durmuşoğlu.

Essa percepção marca um fato fundamental que muitxs vêm discutindo e nem todxs têm levado a sério: ética e estética são idênticas, como já dizia o filósofo Ludwig Wittgenstein (1889-1951) há tantas décadas. E qualquer pretensão de inocência em relação ao caráter político das representações visuais é apenas uma atitude de dissimulação que deve ser questionada e combatida.

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Marie Orensanz – Exposição Radical Women: Latin American Art, 1960-1985

Com exceção do curador adjunto do museu, todxs estxs pesquisadorxs se dedicaram a construir espaços de representação e reflexão nos quais, para usar uma ideia colocada pela instigante professora e ativista Nina Power em sua palestra, não existe o direito de “falar como ninguém”, a partir de um corpo e uma subjetividade abstratos, ausentes e tanto melhor se vistos como objetivos e científicos.

Os saberes que produzimos, as coisas que pensamos e mesmo aquilo que nos ocorre espontaneamente nas conversas de botequim não se manifesta em um vazio de experiência, e a nossa experiência é sempre marcada por nossos corpos e pelo lugar que ocupamos no mundo. Ignorar isso é também um ato de poder e dominação.

Renan Quinalha, Laura Moutinho e Sérgio Carrara, por sua vez, contribuíram com reflexões que haviam realizado a partir de suas pesquisas acadêmicas e destacaram pontos que ajudam a pensar questões como a história do movimento LGBT no Brasil, a maneira como raça, gênero e sexualidade se entrecruzam numa subjetivação nacional, bem como a importância de saberes e discursos médicos na construção de parâmetros sócio-sexuais.

Mas, a despeito de toda erudição destilada por essxs palestrantes, foram Daniela Andrade e Amara Moira que mais arrancaram inquietações e palmas do público do seminário.

Se, como insisti, todo conhecimento é situado e todo corpo é político, suas narrativas e suas presenças, naquele espaço higienizado como é um museu, já se colocavam como discursos de outra ordem.

Daniela Andrade, ativista trans que morou a vida inteira em São Paulo, disse nunca ter entrado ali antes. Sua poderosa narrativa interpelou, a todo momento, as pessoas que estavam assistindo ao seminário, provocando, naqueles corpos cis, brancos e de classe média, o despertar de uma consciência que jamais alcançariam por si.

Em meio a explicações sobre questões relacionadas à identidades de gênero, orientações sexuais e o acesso diferencial aos direitos humanos, Daniela colocou em evidência o combate que muitas travestis e transexuais travam em sua vida cotidiana, evidenciando que, quando se trata de luta, as reivindicações por democracia, estado de direito ou mesmo representações menos segregacionistas no campo artístico estão longe de serem tão alarmantes e revolucionárias quanto algumas explanações quiseram fazer crer.

Amara, por outro lado, travesti e prostituta, escritora em início de carreira e doutoranda em Teoria Literária pela UNICAMP, ocupou-se de acionar, novamente, muitas discussões trazidas por Daniela, mesclando-as também com pensamentos sobre sua ocupação, entendida por ela como espécie de pedagogia sexual, e sobre literatura.

Partindo da pergunta ‘o que pode significar uma literatura travesti e prostituta?’, deu uma verdadeira aula que, em linguagem tanto acessível quanto profunda, mesclava experiência pessoal e reflexão teórica sobre as possibilidades de subversão dos cânones da própria linguagem.

Com uma espécie de timidez desenvolta, propôs uma deformação do nosso sentido do que é tido como língua literária a partir da pornografia de suas palavras cheias de “porra”, “necas”, bocas e cus que, na cadência de sua prosa, nos deliciaram e, em certo sentido, nos fizeram gozar, ali mesmo nas cadeiras daquele limpo auditório de museu.

*Vitor Grunvald é doutor em antropologia pela USP, pesquisador do Grupo de Antropologia Visual e do Núcleo de Antropologia, Performance e Drama, ambos do Laboratório de Imagem e Som em Antropologia da mesma universidade. Tem formação também em cinema, é realizador audiovisual, nortista e viado de carteirinha, dentre otras cositas más.