De que passado meu corpo deve se libertar?

*Vitor Grunvald
“O que significa engajar-se em uma prática sexual cujo tempo é o passado?”.  Essa pergunta foi feita por Jack Halberstam, também conhecido como Judith, professor de Estudos Americanos e Etnicidade, Estudos de Gênero, Literatura Comparada e Inglês na University of Southern California, no contexto de uma mesa redonda sobre temporalidades queer. E desde então não me sai da cabeça.

No momento atual, caracterizado pela desconstrução de padrões normativos de masculinidade e feminilidade e de crítica necessária à cisheteronormatividade que tanto informa nossos pensamentos e ações, é preciso perguntar também: o que significa engajar-se em um gênero cujo tempo é o passado?

 

“Não, os gêneros não são realidades naturais e autoevidentes e, portanto, são práticas cotidianas com as quais nos engajamos!”

 

A pergunta ressoa em mim porque vejo, por todos os lados, pessoas que se tomam como desconstruídas e redentoras de corpos, desejos e práticas que são vistas como antiquadas e retrógradas, como arcaísmos que reproduzem padrões que, graças à Santa Butler e seu panteão, ficaram em algum lugar do passado, de um passado do qual devemos nos livrar.

 

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Mas de que exatamente devemos nos livrar? De que passado meu corpo deve se libertar?

Se não quisermos criar novas normas disfarçadas de novidade abolicionista, precisamos pensar sobre como padrões de comportamento sexual e de gênero, vistos como libertários, correm o risco de criar novas regras morais de conduta.

E, mesmo no caso da sexualidade mais abrangente possível e do gênero menos binário, regras morais de conduta são bastante opressoras, pois as pessoas não possuem todas as mesmas condições sociais de alcançar esses ideais.

 

“Pessoas que vivem nas periferias têm as mesmas condições em questionar os padrões sexuais e de gênero abertamente?  Da  mesma maneira daquelas que vivem nos centros da cidade?”

 

É bastante comum que as bichas que “enviadescem” no Arouche nos fins de semana tenham performances mais masculinas nos lugares onde moram. E muitas até levam, em suas mochilas, roupas que costumam trocar antes de voltar para casa.

Estando sujeitas a violências que um viado (ou seria gay?) das regiões mais nobres da cidade não sofre, essas pessoas agem de acordo com suas próprias condições e lugares sociais.

Não seria uma outra violência impor que desconstruam e lutem contra esses padrões sociais que, no contexto que vivem, são uma ameaça, inclusive física, muito mais dilacerante? Principalmente em comparação à vida de pessoas que, informadas por teorias de gênero revolucionárias do Norte Civilizado, são as “desconstruidonas” do momento?

A questão de transformar subversão em regra está longe de ser nova e é um perigo ao qual estamos sujeitxs a todo momento.

 

Um close ao passado

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Para ter um exemplo bem claro disso, basta pensar nos desenvolvimentos históricos pelos quais a homossexualidade masculina é vivida e percebida no Brasil.

Com o surgimento do MHB (Movimento Homossexual Brasileiro) no final dos anos 1970, o projeto de conquista da respeitabilidade social que ainda era difuso, mas já existente, ganha contornos mais precisos e tinha como mote a dissociação da imagem do homossexual da figura da bicha.

Num texto clássico, o antropólogo Peter Fry argumentou que este modelo de percepção da homossexualidade masculina, que ele chamou de hierárquico, a associava à feminilidade e à passividade na figura da bicha e tinha como contraponto sexual o bofe, másculo, ativo e possivelmente heterossexual.

Mas, numa sociedade sexista e machista como a brasileira, não é qualquer imagem de mulher que era utilizada para pensar socialmente as bichas.

 

“Era a imagem da mulher vista como pura sexualidade, como puta sempre disposta ao sexo, como vadia sempre à procura de um macho. Daí porque, em certo sentido, a feminilidade sempre foi o que mediou a associação entre homossexualidade masculina e promiscuidade.”

 

Daí porque, com o passar dos anos, tanto na militância quanto em suas vidas cotidianas, grupos de homossexuais passaram a questionar esse modelo que foi sendo oposto a um modelo mais igualitário, dito moderno, cujo principal expoente era, naquele momento, o “entendido” e sua expressão de gênero mais masculina.

Entre os “entendidos”, se nutria a ideia de que o que estava em jogo na experiência homossexual não era a aproximação com a mulher, mas o desejo por um homem.

A masculinidade passa, aos poucos, a ser um valor que ambos os parceiros deveriam encarnar e a feminilidade passou a ser cada vez mais vista como abjeta.

O famoso “macho que curte machos” e “não curto afeminados” que, ainda, hoje, é tão comum em salas de bate-papo, aplicativos de pegação, bares e pistas de dança.

 

“A ideia de uma bicha que quer se relacionar sexualmente com um bofe passou a ser vista como antiquada, arcaica, em contraposição ao ideal moderno de gays em pé de igualdade entre si. Uma igualdade que passava pela incorporação da masculinidade em ambos os polos da relação.”

 

Nos últimos anos, esse padrão macho-macho de relação homossexual é aquele que vem sendo denunciado, com razão, como cisheteronormativo e antiquado e, com essa crítica, se abrem outras possibilidades. Por que duas bichas afeminadas não haveriam de se desejar e se amar mutuamente?

O ponto que estou tentando construir não é que houve uma evolução nos padrões de comportamento e vivência da homossexualidade masculina. A ideia de evolução é sempre um argumento social para construir um padrão tido como mais legítimo e desejável.

A questão é que, atualmente, a desconstrução de padrões de gênero e sexualidade – que, digo de antemão, é uma luta na qual eu próprio estou há muito tempo engajado politicamente – se tornou, para alguns, um imperativo de evolução.

 

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Se evoluir, antes, era deixar de ser afeminado e desejar homossexuais iguais em masculinidade (e não bofes heterossexuais hipermasculinos ou bichas afeminadas), hoje em dia, evoluir é usar saia, colocar maquiagem, adereços e desejar pessoas que também o façam.

E arcaicos, antiquados e atrasados são aqueles que não acompanham essa evolução – grupo que, estranhamente, inclui tanto o tal do gay padrãozinho quanto as bichas velhas dos centros que continuam a querer seus bofes. Quanta ironia a história nos reserva!

Toda essa discussão, com acusadores e defensores, do gay padrãozinho é, aliás, muito mal-colocada do meu ponto de vista. Não se trata de defender ou acusar padrãozinho nenhum.

 

“O que quero é viver num mundo no qual essa ideia de padrão seja o mais fraca possível. E aqui falo de todo e qualquer padrão, já que, como eu disse aí acima: o padrão que é considerado subversivo e progressivo, e aquele que é visto como normativo e retrógrado, variam muito ao longo da história.”

 

O que, infelizmente, não parece ter variado, tanto para conservadorxs quanto para certxs defensorxs do que a performer e pensadora chilena Hija de Perra (1980-2014) chama, ironicamente, de “novos saberes de Gênero”, é necessidade de criar padrões e utilizá-los para acusar e julgar as pessoas, como elas devem ser e viver seus corpos e desejos. E, para mim, é contra isso que devemos todxs lutar.

 

*Vitor Grunvald é ativista de direitos humanos, doutor em antropologia pela USP e pesquisador do Grupo de Antropologia Visual (GRAVI), do Núcleo de Antropologia, Performance e Drama (NAPEDRA) e do Núcleo de Estudos sobre Marcadores Sociais da Diferença (NUMAS). Tem formação também em cinema, é realizador audiovisual, nortista e viado de carteirinha, dentre otras cositas más.

** fotos por João Maciel & Rafael Medina para o ensaio da FLSH.