De fotografias não reveladas e censuras inócuas

Por Eduardo Germano*

Além da tecnologia, as indústrias do norte da Europa que surgiriam com a Revolução Industrial também trouxeram fumaça.

Os Estados queriam fazer parte dessa inovação e criaram em seus países mais fábricas e, consequentemente, mais fumaça.

O Norte, que já era frio, passou a ser ainda mais sombrio. A Revolução parecia anunciar um futuro taciturno, ofuscado pela fuligem. O ar foi ficando cada vez mais poluído, o clima perfeito para a proliferação de doenças, como a tuberculose.

Sem a possibilidade de impedir o avanço do vapor das máquinas, um dos tratamentos recomendados por médicos era a mudança do paciente para uma região mais quente, com ares mais limpos e campestres.

Foi assim que o fotógrafo alemão Wilhelm von Gloeden foi parar em 1877, em Taormina, uma das primeiras regiões da Sicília, conquistada pelos gregos antigos.

E parecia que nada havia mudado desde então: lindos campos abertos, com pequenas vilas, ainda imaculadas, protegidas do mundo moderno que estava a caminho.

O recém-chegado se maravilhou com a nova antiga realidade e, de lá, não saiu mais: viveu ali o resto da vida, até sua morte em 1931.

O que parece ter chamado mais sua atenção foram os belos meninos sicilianos, com seus corpos esguios e expressões mais calorosas. Tal deslumbramento o inspirou a dedicar seu tempo a fotografá-los, exaltando o estilo de vida cuja origem imaginara ser dos gregos antigos.

Em resumo, assim começou a pintura de estereótipo que temos hoje dos efebos de toga, portando aquele clássico louro na cabeça com um olhar sereno, que se distanciava da imagem de qualquer um que se submetia ao trabalho em uma grande fábrica.

O apelo da volta ao passado de Gloeden se espalhou pelo norte da Europa como fuga da friúra dos metais das máquinas.

Em pouco tempo, aquela terra que possuía o encanto do campo e de seus moradores atraiu muita gente, principalmente os gays.

Oscar Wilde, por exemplo, começou a escrever poemas, em 1881, sobre o pastoral grego que se refugiava no sul da Itália e os meninos que ali viviam sem nem ao menos ter pisado no país. O escritor inglês só visitaria as cidades, que tanto clamava, seis anos depois, em 1897.

O momento parecia propício para a fama de Gloeden: a até então nova tradução de “Mil e uma Noites” em 1885, feita pelo escritor inglês Richard Burton – conhecido também pela tradução do “Kama Sutra” –, trazia um ensaio em que fazia comparações do livro com o “popular e endêmico vício” pelo amor masculino existente nas costas do Mediterrâneo. Além disso, esta nova tradução contava com cenas de sexo explícito que as outras traduções omitiram.

Cidades costeiras do Mediterrâneo, como Argel, eram populares entre os norte europeus por conta dos Grand Tours – viagens pela Europa e arredores quando um jovem completava 21 anos – no fin de siècle.

A região da Sicília se tornou parte da rota, especialmente para os gays, que visitavam a cidade em busca da vida que Gloeden denotava em suas fotos.

O país também passou a ser atrativo para homossexuais por sua relativa tolerância legislativa. Outros países do norte da Europa, como a Inglaterra, tinham a lei da sodomia que proibia tanto o sexo oral quanto o anal. E foi por esse crime que Oscar Wilde foi preso em 1887.

O trabalho do artista alemão expunha tanto o lado mais erótico, com meninos sicilianos menores, quanto o lado mais bucólico, apresentando apenas uma bela paisagem. Entretanto, fora as últimas que fizeram a sua fama, inaugurando sua primeira exposição internacional em Londres em 1893. As obras foram previamente selecionadas e todas que continham conteúdo “impróprio”: censuradas.

As fotos “condenadas” eram de grupos de meninos sicilianos pelados e juntos. Ainda que, de maneira inocente, a forma como se olhavam e se tocavam trazia à tona a discussão da homossexualidade e isso incomodava.

Como a proibição não extingue a curiosidade, mas a instiga, os retratos vetados, em seguida, se tornaram populares entre os gays que os compravam para mostrar aos amigos em festas, ou eram enviados como postais.

A repressão acabou servindo como propulsor da difusão do conteúdo. Logo, os países frios do norte se aqueciam com o calor dos corpos nus sicilianos, que por sua vez incentivava mais o turismo pelo Mediterrâneo.

Nada mudou?

Embora isso tenha ocorrido há quase 150 anos, ainda presenciamos, em pleno século XXI, a censura de conteúdos que abordam a sexualidade. A exposição Queermuseum em Porto Alegre é um perfeito retrato da continuidade da ideia atrasada de que não falar sobre certos assuntos faz com que eles desapareçam.

Apenas um mês após a sua inauguração no Santander Cultural, a exposição sobre diversidade sexual recebeu protestos de segmentos conservadores da sociedade, incluindo o MBL (Movimento Brasil Livre).

Se a restrição do trabalho de Gloeden fez com que ele fosse mais divulgado, o caso de Porto Alegre apenas dá mais força e voz à discussão de gênero e sexualidade que os conservadores querem calar.

O que os reacionários esquecem é que a arte também vem para incomodar, para abrir um debate sobre os temas com os quais a sociedade não consegue lidar, falar sobre o proibido, transgredir. Se existe algo de bom que podemos, porventura, tirar da censura, é o efeito dominó que serve como instrumento de disseminação de ideias.

*Eduardo Germano é estudante de história contemporânea e letras português-alemão, professor de inglês e tarólogo.