Coxas

“Isso me choca porque eu queria tanto ter um pau e, enfim. A última oração ficou girando na minha cabeça enquanto houve um momento de silêncio. E eu tava ali de pé, ninguém tava tirando as algemas, nem espumando pela boca pra me pegar. Suspirei involuntariamente.”

Por Theo Barreto*

É segunda de manhã e estou na cama, em casa. Tô dormindo um sono profundo e merecido, sonhando com pessoas na pista de dança. Acordo com minha porta sendo esmurrada. Podia ser um gorila, mas era a polícia. Porra, polícia nunca é coisa boa. “Polícia civil, tum-tum-tum”!

Xinguei alguma coisa pra tomar coragem e pulei da cama. Felizmente eu tava vestido, mais tempo pra dichavar os flagrantes. Saí catando o que tinha de maconha pela sala e joguei pela janela, no teto do vizinho.

Incriminar alguém jogando drogas no quintal, na favela, podia ser pior do que ser pego pela polícia com erva, pensei. Depois lido com isso. Imaginei que a proprietária já tinha falado com os caras. Mas ela entregou tudo ou enrolou eles?

Com certeza tavam aqui por causa dos pés de maconha no fundo da casa e porque eu era drogado, e a vizinhança sabia, eu sabia que eles ouviam as evidências das minhas noites de degeneração, me entregaram pros cara.

Com a cabeça presa em divagações, abri a porta. “Bom dia, senhor Theo, dormindo às dez da manhã, meu filho? Esse tá co’a vida ganha.”“Bom dia, senhor, Theo sou eu”. Cedo pra conseguir todas as palavras que podia dizer pra me mostrar colaborativo e inocente.

Eram três civis sem farda, um com distintivo na mão, outros dois com a mão direita na pistola e a outra apertando minha mente. Entraram sem confirmar minha permissão e perguntaram se podiam revistar, já estraçalhando tudo.

Minhas mãos começaram a suar. Se eles estivessem fardados, seria muito pior, pensei. A cartucheira amarrada na perna e na cintura, segurando todos aqueles instrumentos de dominação em volta do pacote do homem-da-lei, acentuando e valorizando o membro viril misterioso.

Através dessas amarras e sombras, meu fetiche, minha curiosidade para com cada pau que cruza meu caminho. Demais pra mim.“Posso ajudar?”, pergunto, tentando evitar o caos que minha casa ficaria depois.

Muito provavelmente eu ia ser preso, mas me preocupava o trabalho que ia ter depois pra dobrar toda minha roupa de novo, organizar os livros; será que ia lembrar onde tava cada um? No rack, na cômoda, no murinho da sala, os do quarto, os da mesinha, isso era importante pra mim! Acho que se tivesse prateleiras, eles tinham arrancado tudo, os caras tavam com raiva daqueles livros. O que será que liam?

Todos os cômodos da casa tinham um pinto. Fiquei preocupado sobre eles acharem isso, depois que lamentei as roupas. Não é possível que eu ia per-der por causa de pinto, tendo um pé de maconha no fundo do quintal. “Não fui eu que plantei, não sei, não conheço, nasceu aí”, eu já tinha a explicação toda dada por Bezerra. Plausível, eu achava, mas pros dildos?!

Acharam os dois primeiros na gaveta da cômoda da sala. Não estavam escondidos nem nada, tavam guardados, normal. O coxa 1 me olhou com cara de nojo, segurando a pica, me fazendo abaixar os olhos com as mãos na cintura, em resignação.

Reservou as duas evidências – de que eu era gay? – e continuou com a destruição da minha intimidade. Meu coração batia a uns 220 por hora enquanto via minha valiosa coleção de caralhos voando pelos ares.

Cada policial se ocupava de um cômodo e eu só podia assistir um de cada vez. O coxa 2 gritou do banheiro: “O cara é viado!”. Ele tinha três pirocas na mão.  Eram as que eu menos gostava, as mais velhas. Pensei que deviam parecer bem usadas. O coxa 1 achou, também na cômoda, minha caixa especial, com cinco pirocas ultra-realistas, uma de cada tamanho. Reservou do lado das outras.

A sensação que eu tinha por estar sendo descoberto era parecida com o que senti na primeira onda de maconha que tive, as vozes indo e vindo como num túnel, minha visão confundindo as cenas e os coxas num caleidoscópio, confusão. Assim que é nos filmes?

O coxa 3 parecia temer encontrar, no quarto que revistava, qualquer coisa pior do que já havia sido revelado. “Cabral, dá uma olhada nessa porra!”, não sei quem era o Cabral, os dois caras foram pra sala quando o coxa 1 chamou. Eles tinham certeza de estar diante de um psicopata duplamente pervertido e raro ou sei lá quê. Um deles se virou pra mim, “você pode explicar isso??”. Queriam que eu explicasse o porte de dez pirocas.

“São próteses”, respondi. Havia também um cinzeiro em forma de pau e um pinto em miniatura que eu mesmo fiz ali por cima, à vista, mas não acharam. Deixei pra explicar meu falocentrismo depois, se necessário.

“Próteses?”, “Sim, próteses, tipo dentadura, tipo perna-de-pau, braço biônico, essas coisa, esses dildos são minhas próteses, meus paus”.

Eles se entreolharam, o coxa 1, que era o mais instigado dos três, deu aquela coçada no pau pra verificar se ainda estava ali seu argumento de me dizer qualquer merda que conseguisse formular e, num tom de escárnio, perguntou, “você enfia todas no cu de uma vez?”.

Talvez ele pudesse falar disso abertamente e com superioridade porque tinha vivência na área, pensei maliciosamente. Já os outros coxas pareciam constrangidos. Mas de um constrangimento que podia passar se eles me espancassem até morte.

Ri de nervoso, respondendo que “Não, geralmente uso um só em cada buraco, mas às vezes, enfim, as pessoas querem, enfim, olha, cara, é o seguinte, eu não tenho pau, sacou?

Nasci sem pau e, porra, tenho essa vontade de preencher, penetrar pessoas às vezes. De foder, entrar no corpo que está implorando pra isso,  mas com meu corpo não dá, então me viro com isso, do jeito que dá, compreende?”.

Silêncio. Eles pensavam que eram melhores que eu, certeza. Porque tinham um pau, mesmo que assombrados pelo medo de que ele seja pequeno ou que não funcione, se sentiam mais homens que eu porque tinham O argumento. Teriam pena de mim se tivessem alma.

Embora tenha sido difícil proferir aquelas palavras e me explicar, não era difícil entender que eles nunca podiam ser melhores que eu só por ter um dildo de carne. Eu ainda me sentia superior mesmo que constrangido e isso era importante pra um ariano como eu, pra não pirar naquela cena.

“Mas que porra é essa de nascer sem pau? Nunca ouvi falar disso”. “Pois é, os cientistas ainda não chegaram a uma conclusão de como isso é possível, de nascer sem pau, mas é assim que é. Quantas vezes eu me senti louco por insistir na minha vida, porque não fazia sentido e ninguém nunca entenderia, mas hoje eu penso que isso não é nada perto de homens que perderam o pau por falta de higiene, por exemplo. Isso me choca porque eu queria tanto ter um pau e, enfim”.

A última oração, “eu queria tanto ter um pau”, ficou girando na minha cabeça enquanto houve silêncio. E eu tava ali em pé, ninguém tava tirando as algemas, nem espumando pela boca pra me pegar. Suspirei involuntariamente.

“Puta merda, eu não quero mais ver essas porra de piroca na minha frente, cara, não quero mais tocar em nenhum pano de bunda dessa porra de barraco, vambora com isso!” A cara do coxa 3 tava vermelha, parecia que ele tinha tomado um susto, ou uma cachaça.

“Sim, senhor, se o senhor permitir, eu vou guardar aqui agora essas coisa tudo”, eu disse.  “Escuta aqui, seu porra, o que você sabe sobre tráfico de serviço de comunicações no morro? Gato net, contrabando de tv a cabo, essas porra? Bora, começa a falar logo, o que que você sabe dessas merda?”

Perguntando-me como eles não viram o pé de maconha e cadê Dona Helia, demorei pra responder. “Não, senhor, não sei nada de gato net, não, nem tenho internet em casa, sou estudante, trabalho, mal fico em casa, pode ver que nem TV eu num tenho, sei nada disso não”.

Não sei se acreditaram, mas as mentes deles tavam apertadas e eles pareciam estar ansiosos porque não paravam de coçar o pau, aquela mão nervosa que toda hora dá aquela apertadinha/coçadinha. “Vamo embora, porra, vai fazer o que com esse invertido? Vambora, Cabral”.
*Theo Barreto é escritor, estudante de serviço social, transgênero, ativista (e passivista).

** Foto Rafael Medina