Censura às questões de gênero: riscos para as políticas de saúde

Salvador Correa*

“Amanhã teremos uma nova geração, de versos que só os poetas mortos entenderão”
canção Amanhã, de Carol Naine

Atualmente temos vivenciado, de forma constante, um forte ataque ao conceito de gênero, quase sempre associado ao termo “ideologia de gênero”.

Um dos exemplos mais recentes é o vídeo do movimento contra a vinda da pesquisadora, referência no tema, Judith Butler.

Esses manifestantes tiveram reações traduzidas em discurso de ódio, com associações simplistas e rótulos partidários, porém, parecem desconhecer que Judith veio falar sobre democracia e também lançar o livro “Caminhos divergentes: judaicidade e crítica do sionismo”, em São Paulo.

Ignorâncias à parte, é muito importante reconhecer que, mesmo aqueles que defendem o fim do debate de gênero, acabam sendo beneficiários de políticas oriundas desse processo.

Nesse sentido, não se trata apenas de apoiar as minorias políticas, como argumenta quem chancela a censura sobre o tema.

Os debates de gênero evidenciam possibilidades de compreensão das relações humanas, e têm grande impacto na saúde coletiva. Para ilustrar, citarei alguns exemplos da importância desse debate.

No campo da prevenção, o conceito de gênero serviu como óculos para inúmeras produções acadêmicas que visavam entender o processo de transmissão do HIV, a partir das construções de gênero, dos aspectos sociais e culturais que afetam a saúde.

Alinhado à pressão da sociedade civil, foi possível conquistar garantias importantes como:

  • Política Nacional de Atenção Integral à Saúde de LGBTs;
  • Política Nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres;
  • Política Nacional de Atenção integral à Saúde do Homem.

Esta última ação de saúde pública citada acima, em linhas gerais, é uma forma de evidenciar as necessidades de cuidados para os homens, pois, segundo o pesquisador Romeu Gomes, este público-alvo procura menos os serviços de saúde.

Um dos motivos que permeia esse comportamento é a construção social do papel masculino como “forte”, “viril” e “duro na queda”, que poderiam interferir na busca pela prevenção e tratamento.

Entre os muros da escola

O debate sobre gênero e sexualidade também inspiram projetos e programas inovadores como o Saúde e Prevenção nas Escolas, parte do Programa Saúde nas Escolas.

Longe de incentivar precocemente a prática sexual – como defendem os conservadores – debate da saúde na escola tem uma perspectiva integradora.

No campo da prevenção, esse debate é crucial para munir de informação adolescentes e jovens que terão sua primeira relação sexual.

É importante relembrar que a população jovem é a que mais se infectada por HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis.

Conforme vimos, o debate sobre gênero e sexualidade é de importância crucial e permitiu a criação de políticas de saúde extremamente relevantes para diversos grupos populacionais – incluindo os próprios críticos desse debate.

A transformação social implica no amplo e rico debate, espaço para construção de caminhos para a garantia dos direitos humanos. A pergunta que fica é: queremos enterrar esse nosso futuro?

*Salvador Correa é psicólogo, especialista em saúde coletiva, mestre em Saúde Pública e ativista do movimento de Aids. Atualmente coordena a Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS e atua no acolhimento de pessoas recém diagnosticadas e escreve mensalmente para a Flsh-Mag.