Boa Noite – Parte II

Theo Barreto*

Naquela época, depois que eu já conseguia dar boa noite pros meus vizinhos e andar de cabeça levantada, os adolescentes com pintos ainda me deixavam desconfortável demais. Porque são animais cruéis e inconsequentes, não estão nem aí pra cordialidade ou para o cultivo de boas relações com vizinhos como eu.

Pior que agora eles deram pra ficar todos reunidos à noite na ruazinha estreita que dá na minha casa, falando alto e zuando sei lá o que. Uns pegam a bicicleta, outros a moto de alguém emprestada e ficam se exibindo. Tem um que deu pra vir correndo de bicicleta e latir dentro da minha cara, quando passa por mim. Acho bem bobo e tento demonstrar que ele não me assusta e que não tenho medo dele.

Todavia não tenho a menor ideia de como interagir com eles, acho que devo passar a cumprimentá-los de alguma forma, mais que o tradicional “Boa noite” não vai colar muito. Ainda mais agora que eles deram pra ter uns papos sobre armas, tráfico e milícia.

Um dia desses eu estava subindo o morro com minhas vizinhas dos fundos quando passamos por três deles sentados na calçada, num breu dramático pela rua estreita; usavam capuz na cabeça e o que se via era só a o rosto deles iluminado pela luz do celular que seguravam, aí um deles disse, “Aqui tão os cria do morro, ein”, e eu saí pensando que eles estavam naquela fase difícil da adolescência, na qual precisamos desesperadamente nos diferenciar e se autoafirmar, se sentirem foda por alguma coisa.

Aqui eu nunca tinha visto criança trabalhando na boca, até umas semanas atrás. Eram duas horas da manhã, quando fui comprar droga e tinha um muleque, de uns 12 anos, sozinho, num beco do lado do bar mais conhecido do morro.

O bar tava fechado, mas tavam uns caras na frente dele jogando baralho. E o muleque parado sozinho no beco, segurando uma pistola, uma mochila e uns sacos com as drogas. Um anel em cada dedo da mão, vários cordões, de ouro e de prata, numa superposição de joias que, talvez, pudesse aumentar a autoconfiança dele pra segurar uma arma, pensei.

O menino perguntou se eu era morador e eu disse que sim; ele apontou a arma pra mim e mandou levantar minha camisa e girar. “Tô fazendo isso porque eu não te conheço, tá ligado?”, ele disse, “Tranquilo pô, agora você me conhece”, eu respondi. “É, agora eu te conheço”.

Depois que me deu a droga, eu agradeci e ele disse: de nada. Nenhum deles nunca tinha me dito “de nada” antes. Aí, um cara gritou da mesa do bar, “Qual foi? Dá uma dura nesse maluco”, e o garoto respondeu: “Tá tranquilo, já dei, po”, e eu já estava lá longe.

Mas reconheci o cara daquela voz. Era de um maluco que ficou intrigado com minha cicatriz um dia desses que fui na boca de dia. Era um dia de verão e eu estava aproveitando meu privilégio recém-adquirido de andar sem camisa na rua e fui lá debaixo de um sol e de uma luz que expunha meus detalhes. Pra conseguir andar despreocupado, dizia pra mim mesmo que um estranho nunca ia ter coragem de me perguntar sobre as marcas que cortam meu peito de um lado a outro, mas esse cara quis saber o que tinha sido.

“Aí, que foi que aconteceu com teu peito, brother?”. Olhei pro horizonte da baía, nervoso, mas não derrotado, e contei uma mentira inescrupulosa, sem conseguir impedir o sorriso exasperado no rosto. Respondi: “câncer”.

Sempre quis dar essa resposta pra alguém, sabia que encerraria a conversa. Ele ficou meio abalado e não disse mais nada além de: “ah…”, de cabeça baixa, abrindo o saco de droga pra dar o que eu havia pedido e se livrar de mim.

Um outro gritou atrás dele: “o quê?”; porque não tinha ouvido a resposta e também tava curioso, e ele repetiu: “foi câncer, po”, e eu confirmei balançando a cabeça. Peguei as dolas e virei as costas. Ou acreditaram ou eu era um maluco total.

Hoje eu fui lá de novo, eram duas da manhã, pra pegar uma maconha de morador, aquela de dois reais, e quem estava era o menino de novo, sozinho numa lage. Quando eles tão na lage, a negociação acontece por intermédio de uma garrafa pet com um buraco no meio, amarrada numa corda que eles lançam lá de cima pra colher o dinheiro e depois as drogas descem voando.

Chamei ele, que me reconheceu e disse: “aí, sobe aqui porque eu não posso sair do posto, ta ligado? Sobe ali por aquela escada ali do lado”. Subi. Supus que pra manter o emprego, ele tinha que se sair muito bem, dominar a situação, dando conta de vender as paradas, vigiar a rua, segurar a arma e ser durão. “Quer o que?”, ele disse, “Tem maconha de dois?”, “Tem, quer quantas?”, “Quero uma, por favor”, eu respondi, tentando ser simpático.

“Aí, fica de olho na rua aí pra mim porque eu tô sozinho, tá ligado? Qualquer coisa, se subir a polícia, tu sai correndo, tu vai comigo ou pro outro lado e depois tu vai embora”; “Beleza, beleza”, concordei.

Fiquei olhando a rua à direita, à esquerda, não tão tenso quanto ele, mas feliz em ser útil, enquanto ele abria a mochila, depois o saco da droga, escolheu um regada pra mim, eu agradeci e dei “boa noite”. Ele me disse “boa noite” de volta. Nunca nenhum deles me deu “boa noite”.

*Theo Barreto é escritor, estudante de serviço social, transgênero, ativista (e passivista).

Para ler o início desta história, clique em Boa Noite – Parte I.