Boa Noite – Parte I

Por Theo Barreto*

Descendo a escadaria que leva a minha casa, dou numa rua estreita com casinhas. É o caminho pra descer o morro, que passa por um largo que tem o Bar do Renato e duas outras ruas, uma pra subir e outra pra descer. Antes do bar, na rua estreita, tem uma garagem de uma casa que a dona transformou em restaurante/lanchonete. A moça serve prato feito no almoço e lanches ali, onde antes era a barbearia do filho dela. Ele costumava ficar cortando cabelo até tarde da noite e sempre estavam ali vários rapazes belos, altos e magros com seus cabelos sempre bem cortados e desenhos geométricos e suas motos paradas na frente.

Eu sempre passava tarde da noite, voltando do trabalho, pela barbearia, e ficava olhando desconfiado, porque, às vezes, a porta da garagem estava abaixada e era noite, mas, nas vezes em que consegui ver alguma coisa, ele estava lá dentro, só cortando cabelo mesmo.

Quando passava por ali e tinham todos eles na porta, eu ficava encabulado, o que me levava a passar de cabeça baixa, apertar o passo e “andar como homem” – o que resultava mais em mim parecendo um “esquisitão” – e falar um boanoite, assim meio engolido e inaudível, enquanto fazia a outra coisa. Mais tarde eu sempre me repudiava por ter sido tão estúpido e ficava imaginando que era de mim que eles riam pelas costas. Mas eles estavam sempre rindo, se, por vezes, foi de mim, eu nunca saberei.

A barbearia ficou fechada um tempão, até que a mãe do cara abriu o pequeno restaurante, que todos os dias abre a porta da garagem e anuncia numa placa escrita com giz o prato do dia.

Mais ou menos na mesma época, na frente da garagem, outra moça abriu um trailer todo pintado na cor amarela, parado sobre rodas de caminhão e chassis de carro, mais especializado em hambúrguer e batatas fritas. Já passei lá pra comprar uns latões de cerveja.

Eu estava mais ou menos há oito meses em transição, já tinha feito a cirurgia e andava por aí sem camisa ou de camiseta, e as pessoas começaram a notar um novo garoto nas redondezas.

Com certeza algumas se ligaram que esse garoto veio a partir de uma outra pessoa, de outro gênero. Nunca conheci a opinião delas a meu respeito, nunca soube quais eram as fofocas que rolavam, mas um dia, eu tava chegando do trabalho tarde da noite e passei pelo trailer amarelo em que nele estão sempre as mesmas pessoas sentadas, batendo papo, descontraídas. Nesse dia uma, senhora falou com outra pessoa assim: “Que homem que ele é que passa aqui todo dia e não dá boa noite?”.

Claro, como que eu queria que eles me reconhecessem, respeitassem e confiassem em mim se eu passava por ali todos os dias e não os cumprimentava? É certo que, antes dos hormônios e da cirurgia, eu não queria falar com ninguém mesmo, porque sabia que eles não iam entender, não iam me entender: “Como que é isso? Uma garota que finge que é homem? Ou simplesmente sapatão?”.

Antes da transição, tive algumas interações só com o Renato, o dono do bar, que era até simpático comigo quando eu ia lá comprar cervejas muito baratas. Mas, depois, ele me tratava como um qualquer, acho que não me reconheceu mais.

Mas o que aconteceu foi que, a partir daquele dia, em que aquela mulher falou aquela coisa, depois desse dia, eu passei a dar boa noite a todo mundo que eu via na rua. Passava pela rua estreita olhando pra frente e dizendo “boa noite”, o mais alto e simpático que conseguia.

Certo que, no começo, soava alto demais e pouco convincente, meio desesperado talvez, mas, com o tempo, fui pegando o jeito, de modo que, atualmente, depois de dois anos morando aqui, consigo dar “boa noite” e passar olhando nos olhos de cada um na rua, e acho que que eles não acham que sou nenhum tipo de cão demoníaco, porque passo e sorrio, sendo simpático e sincero.

Todavia, não consegui, infelizmente, desenvolver um jeito de falar com todas as pessoas da rua. Os adolescentes que tem pênis, por exemplo, são muito bizarros pra mim e tenho certeza que eles me odeiam.

Já os ouvi murmurando coisas tipo, “virou homem” ou é “homem mesmo?”, ou “não é homem nada”. Tais comentários desencorajaram qualquer vontade que tinha de me aproximar e ser amigável com eles. Por fim, acabei dizendo para mim mesmo que eles me achariam fraco se eu fosse gentil e educado.

O cara que cortava cabelo sofreu um acidente de moto. Na verdade, o cara foi atropelado, bem ali, depois do Bar do Renato, por um carro que descia da rua que sobe. Esmagou a perna dele, não houve nada com a moto, nada com o carro, mas a perna dele teve que colocar apenas pinos locos que me dão aflição.

Quando eu passava por ele nunca podia evitar olhar pra perna fodida. Ele está, há um tempão, de muletas, e fica sentado na porta da lanchonete, dia e noite. Eu passo e sempre o cumprimento. Fiquei muito comovido que, um dia desses, eu estava chegando tarde da noite do trabalho e ele me pediu ajuda para colocar sua moto pra dentro. Estava chovendo, o pai dele ainda não tinha chegado, ele tava sozinho e queria fechar a lojinha.

Eu, prontamente, e sem saber por onde começar, peguei o guidão da moto, quis montar nela e levantar o descanso, mas não era preciso, desinclinando-a um pouco, consegui manobrá-la, de leve, para caber entre as duas cadeiras do salão do restaurante-garagem.

Olhei pra ele buscando aprovação, ele disse obrigado me olhando com olhos inquietos como os meus e eu disse, “que isso, por nada, boa noite aí”. Sorrindo, fui embora em passos apressados, muito contente com minha primeira real interação com um vizinho.

Depois disso, viramos amigos, eu tinha certeza. Aí teve um outro dia que ele me pediu um isqueiro e eu perguntei, “E a moto?, e ele me contou como foi o acidente, e eu disse, “Sim, mas eu tava perguntando se você precisa ajuda pra botar a moto pra dentro”, e ele disse, “Não, não, obrigado, meu pai ta aí e vai me ajudar”, e eu disse, “Ah, tranquilo, então, boa noite aí”. E o “boa noite” virou meu afeto com meus vizinhos.

Eu ficava muito aliviado de poder dizer uma palavra a eles e ser retribuído com simpatia. E muitos deles nem dizem boa noite, mas, “Ooopa”, ou, “E aí…”, ou, “Fala aí”, ou “Oooi”, mas eu dou sempre um clássico “boa noite” e me sinto melhor com eles por isso.

*Theo Barreto é escritor, estudante de serviço social, transgênero, ativista (e passivista).