A não binariedade em questão

 “…o gênero é sempre cultural e social, assim como o são as sanções e violências que recaem sobre os indivíduos cuja expressão de gênero não se adequa aos padrões impostos pela sociedade.”

 

*Leonora Dias  e Vitor Grunvald

 

Nos últimos anos, a transgeneridade tem alcançado crescente visibilidade ao redor do mundo. O número cada vez maior de países desenvolvendo legislação específica para pessoas trans é um exemplo do impacto que isso acaba tendo nas instituições.

 

Nesse cenário, é preciso entender que ser trans vai além de “transitar” entre os gêneros do sistema binário tradicional da nossa sociedade – “mulher” e “homem”, pólos opostos e complementares.

 

Há também pessoas que, embora não se identifiquem com o gênero que lhes foi coercitivamente atribuído em seu nascimento (sendo transgênera por definição), também não se entendem como pertencentes ao gênero oposto ao dessa atribuição.

 

A existência das pessoas trans não binárias pode ser vista como um indicativo de que a ideia de gênero na nossa sociedade não está apenas sendo questionada quanto à sua imutabilidade, mas também quanto à sua estrutura.

 

Ao afirmar o gênero como uma particularidade de cada indivíduo, a ideia da não binariedade traz consigo o potencial de transformar a própria articulação do gênero na sociedade.

 

E o desafio é não perder de vista que, para além desse arranjo individual, o gênero é sempre cultural e social, assim como o são as sanções e violências que recaem sobre os indivíduos cuja expressão de gênero não se adequa aos padrões impostos pela sociedade.

 

Falar de não binariedade é falar de transgeneridade. Entretanto, pensar em transgeneridade requer que se pense em cisgeneridade, pois é a partir da transgressão da cisgeneridade que se funda a experiência trans.

 

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Mc Linn da Quebrada

A cisgeneridade pode ser entendida como uma condição de alinhamento entre corpo e identidade no que tange ao gênero, de acordo com uma norma que determina modelos de personalidade e comportamento a partir das características reprodutivas dos corpos. A binariedade é estrutural ao conceito de cisgeneridade.

 

Assim, de certa forma, podemos dizer que toda transgeneridade pode ser vista como não binária, no sentido em que subverte essa normatização inicial dos corpos.

 

No entanto, além de determinar quais modelos comportamentais devem ser atribuídos a quais corpos, a cisheteronorma também determina como tais atributos devem ser articulados.

 

Introduzindo uma rearticulação de masculinidades e feminilidades que não passe necessariamente pelas ideias de homem e mulher, a não binariedade pode ser entendida como um (des)fazer gênero para além da cartilha cis.

 

A diferença entre transgeneridade binária e não binária seria, então, uma diferença de enfoque mais do que de natureza.

 

Para entender o que são identidades trans não binárias, é necessário compreender o significado da palavra “binário”. A definição geral para essa palavra no dicionário inclui “um inteiro composto de duas unidades”.

 

O inteiro, nesse caso, é o nosso conceito culturalmente tradicional de gênero; as duas unidades são “mulher” e “homem”, os dois gêneros que compõem esse sistema.

 

Identidades de gênero não binárias são trans por não estarem alinhadas com o gênero atribuído no nascimento em função dos genitais, e são não binárias por não estarem contidas nesse binômio mulher-homem do binário de gênero tradicional.

 

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Pessoas trans não binárias podem experimentar um fluir entre gêneros, identificar-se como tendo generidades que não homem ou mulher, ou mesmo não se entenderem como tendo gênero algum.

 

Mas é claro que essa fluidez subjetiva não garante em nada que não sejam pensadas socialmente pelxs outrxs a partir de outras categorias mais alinhadas à binariedade, ainda que dissidentes em relação a ela, devido à expressões de gênero que misturam elementos tidos como masculinos e femininos.

 

A não binariedade traz consigo o potencial de apontar para um lugar fora do gênero, já que o gênero é considerado necessariamente binário.

 

Outras vezes é vivida como uma experiência de gênero, mas um gênero divergente, deformado, que não respeita nem se curva diante da binariedade que é marca e necessidade do cis-tema heteronormativo.

 

Porém, introduzir novas possibilidades de se vivenciar o gênero requer palavras que nomeiem essas possibilidades; e, se ser nomeado equivale a existir, podemos ver no ato de nomear essas novas generidades um caráter político de lhes conferir validade.

 

Ao mesmo tempo que nomes – “rótulos”, como muitas pessoas gostam de falar – criam limitações, trazem também contornos nítidos para a ideia possivelmente vaga de “não ser homem nem mulher”.

 

 

Genderqueer, genderblur, genderfluid, agênero, nonpuella, nonpuer, demiboy, demigirl, fluidflux…

 

São muitos os nomes utilizados para indicar algo que, de forma ampla, podemos chamar de não binariedade de gênero – ainda que nem todas as pessoas que se identificam como não binárias se valham desses nomes.

 

É claro que, à parte dessa orientação geral de apontar para experiências dissidentes que fogem ao padrão do gênero binário, há particularidades em cada uma dessas categorias.

 

A sensação, muitas vezes, é de confusão e indeterminação na linguagem. Mas será que essa indeterminação não é justamente parte daquilo que a linguagem pretende nomear?

 

Não estariam os nomes afirmando que essas zonas cinzas, intermediárias, de meio, são lugares subjetivamente habitáveis e politicamente potentes?

 

Como não podia deixar de ser, são muitas as polêmicas em torno da questão. As críticas geralmente vão nas linhas de que isso é invenção de moda, “psicodelia de gênero”; que é higienista por desconsiderar identidades historicamente marginalizadas, como bicha, sapatão, travesti, etc; que é elitista, porque as pessoas, que não falam outros idiomas, não teriam acesso a essas ideias; que seria também colonizador, pois são palavras em inglês e o rolê começou no mundo anglófono.

 

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“É preciso ter em mente que a não binariedade não é uma modinha de nome, mas uma experiência específica de inadequação à ideia de gênero que somos ensinades a viver.”

 

As palavras em inglês que indicamos podem ter, sim, a consequência política de apagamento de uma série de situações estruturais de opressão de gênero e sexualidade, normalmente conectadas a questões de classe e raça, bem como das identidades dissidentes que estão associadas a elas.

 

Mas possibilidades também não são destinos. E a consciência disso só deixa mais urgente um discurso politicamente consciente sobre a não binariedade e sobre os processos que constituem a experiência de gênero das pessoas e sua relação com outros marcadores da diferença social.

 

É preciso ter em mente que a não binariedade não é uma modinha de nome, mas uma experiência específica de inadequação à ideia de gênero que somos ensinades a viver.

 

Essa bagunça com o cis-tema binário também é colocada pela experiência de pessoas trans binárias.

 

Mas, via de regra, entender sua existência como mulher trans não é o mesmo que se entender como pessoa transfeminina não binária, por exemplo.

 

A diferença passa por como você opta por emoldurar sua generidade dissidente (ou sua ageneridade) e tem, portanto, um acentuado aspecto político.

 

É preciso não perder de mente que as matrizes, os referenciais de gênero, sendo socialmente construídos, são os mesmos para todes, o que implica que todes nós, cis ou trans, bináries ou não, partimos das mesmas bases e, mesmo na negação, somos, de certa forma, marcades pela ideia de gênero.

 

Onde estaria então a não binariedade senão em uma questão de posicionamento?

 

Para além de simplesmente ser compreendida como uma definição para os sujeitos, a função desses nomes pode ser um meio de afirmar uma dissidência de gênero que representa não só um trânsito de atributos e identidades que partem dos modelos de masculinidades e feminilidades da cisheteronorma, como uma rearticulação desses atributos, uma outra forma de distribuí-los e trabalhar com eles.

 

A ideia de não binariedade escancara que o gênero é, sim, um fazer, como tanto insistiu Judith Butler. Mas denuncia também que esse fazer não leva necessariamente para territórios marcados pelas ideias de homem e mulher.

 

E é aqui que, longe de apagar outras categorias tidas como marginais, pessoas trans não binárias se aproximam de outras identidades que podem ser não binárias, como as bichas, por exemplo.

 

*Leonora Dias é transfeminina não binária e, enquanto pessoa trans, defensora da causa. É bancária, estudante de Linguística na USP, taróloga e apaixonada por música eletrônica, gatos e maquiagem.

 

*Vitor Grunvald é doutor em antropologia pela USP, pesquisador do Grupo de Antropologia Visual e do Núcleo de Antropologia, Performance e Drama, ambos do Laboratório de Imagem e Som em Antropologia da mesma universidade. Tem formação também em cinema, é realizador audiovisual, nortista e viado de carteirinha, dentre otras cositas más.

 

* Foto de capa por Jetmir Idrizi com Carmen Laveau e Def ex Machina