A atriz trans que descobriu o voo da liberdade nos palcos

“Na verdade, quando comecei no teatro, queria ser vedete, queria ser diva. Estava focada nisso.”

*Átila Moreno

*Fotos: Rodrigo Menezes e Jefferson Ribeiro

Alguns dizem que o nome remete à origem da mitologia africana. Por outro lado, reza a lenda que foi uma guerreira e esposa de Zumbi dos Palmares. Dandara.

Dandara Vital. E não é que vitalidade, luta e persistência ajudam a resumir um pouco a história dessa atriz e mulher trans?

Sim, isso mesmo. Para grande maioria da população, acostumada a receber tanta notícia negativa da mídia sobre a comunidade transgênera, a vida de Dandara Vital pode soar como uma fábula tchekhoviana: a própria gaivota que ficou presa por anos dentro da gaiola.

E foi a partir do universo do dramaturgo e escritor russo Anton Tchekhov (1860-1904), que Dandara descobriu nos palcos uma liberdade de ser, que mistura candura e firmeza.

Iniciou sua carreira por meio do projeto social, de formação em teatro para travestis e transexuais, chamado “Damas em Cena”. O resultado? O espetáculo teatral “TransTchekov”.

A coluna D&P com Átila Moreno foi atrás desta personagem da vida, durante o festival TransArte, que ocorre até sábado (22/10/2016), no Rio de Janeiro. Ela abriu o evento e encenou a peça autobiográfica “Dandara – através do espelho”. Saboreie o nosso papo com toda calma do mundo.

AM – Você tem uma história que, de certa forma, é bem peculiar. Durante a sua peça, há uma menção a isso, inclusive você faz parte de um raro grupo de trans que consegue ultrapassar a expectativa de vida, ou seja, viver depois dos 35 anos. Além disso, causa curiosidade o fato de você ter escolhido o teatro como o ponto fora da curva na sua trajetória. Podemos dizer essa mudança é graças ao teatro?

DV- Em relação a essa mudança de vida, o grande responsável foi um projeto chamado Damas, da Prefeitura do Rio. Graças a ele que consegui um emprego formal e ingressar no teatro. O teatro tem uma grande importância, pois, antes, eu era uma pessoa que não me aceitava tanto. Aliás, não é que eu não me aceitava, é que, por exemplo, as pessoas diziam que minha voz era muito grossa, então, quando estava no meio das pessoas não tinha coragem de falar, de conversar, porque não queria que as pessoas percebessem que eu era travesti. No teatro, eu estudo os personagens que vou compor, então, passei a me estudar também. Passei a me aceitar do jeito que sou. E inclusive, hoje, quando vou a uma entrevista de emprego, não fico com vergonha de falar, de me expor.

“Como ele tinha essa ideia e sou muito sonhadora, sempre em busca do amor, surgiu, assim, o título da peça.”

AM – O que causou o interesse pelo teatro?

DV- Na verdade, quando comecei no teatro, queria ser vedete, queria ser diva. Estava focada nisso. Sempre fui fã da Xuxa, das paquitas. Eu queria ser paquita. Tinha uma expectativa sobre o teatro, mas o que alcancei foi muito maior do que esperava. No princípio, foi difícil discernir porque queria fazer musical, queria pular, cantar. Conforme fui entendendo a força da dramaturgia, o poder de transformação na vida das pessoas, foi quando realmente caí em si. E foi por isso que quis fazer esse projeto (Dandara através do espelho) que tento executar faz um bom tempo e, agora, estou conseguindo.

AM – E por falar nele, gostei inclusive do título, que traz a referência a Lewis Carrol, autor do livro Alice Através do Espelho, que também foi parar nas telonas. Foi você que escolheu? Como surgiu a ideia de contar a própria vida usando isso no palco?

DV- Na verdade convidei o Diêgo Deleon, diretor da peça, que aceitou participar do projeto. Ele tem um trabalho chamado Prática de Montação, que fala sobre identidade de gênero e sexualidade, a partir da própria memória dos atores. Ele queria muito uma travesti e não conseguiu uma para colocar na peça dele. Então, o Daniel já tinha uma ligação forte com o tema. A gente costuma dizer que a Prática de Montação é muito política, porque as pessoas estão ali se expondo por um ideal. Aí quando ele leu o meu texto, veio na cabeça a referência à história de Alice. Na época, isso foi próximo do lançamento do filme. Como ele tinha essa ideia e sou muito sonhadora, sempre em busca do amor, surgiu, assim, o título da peça.

“Hoje, eu costumo dizer que meu teatro é trans.”

“…ainda não confiam na travesti ou na trans para fazer papéis fortes.”

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AM – Você já ganhou um prêmio – melhor atriz de 2011 no “Troféu Claudia Celeste” – e atuou em filmes também. Como foi essa aceitação no meio artístico? Há alguma diferença nisso?

DV-  Faço parte de uma companhia que se chama Studio Stanislavski, dirigido pela Celina Sodré, a responsável por oferecer a oportunidade de estudar teatro. É uma pessoa que sempre teve um cuidado muito grande de me indicar para os trabalhos que requisitavam uma trans. Eu costumava não aceitar porque tinha medo de sair das asas da Celina, com medo do preconceito.

A primeira peça que fiz se chama “A pedra de Sueli”. Até então não queria interpretar travesti e trans no teatro. Acabou que fiquei apaixonada. Hoje, eu costumo dizer que meu teatro é trans. Sempre tive a sorte de não sofrer preconceito nos projetos que aceitei.

Mas já passei por situações do tipo: quando participei do teste de elenco em determinados locais. Por exemplo, na portaria, a recepcionista não me tratava usando o nome feminino, às vezes, até debochava. Fiz um trabalho numa emissora e quando cheguei no camarim, para experimentar roupa, estava escrito “a roupa dos travecos”. Quando olhei aquilo, fiquei chocada. Perguntei: quem foi que escreveu isso aqui? O menino tinha dito que tinha sido ele, gay assumido. Eu prefiro acreditar que ele tratava daquela forma, devido à falta de conhecimento do que por preconceito. Tirando isso, sempre tive sorte.

Mas é importante falar que ainda não confiam na travesti ou na trans para fazer papéis fortes. No entanto, quando chamam é para fazer papéis pequenos. E quando chamam para fazer um papel forte, escalam um ator cis. Isso é uma forma de preconceito também. Os autores, que escrevem papéis trans e não dão oportunidade para trans atuarem, dizem que o importante é o assunto está em pauta. Só que pra gente, a representatividade é muito importante. A partir do momento que uma trans é capacitada e ela não pode fazer esse papel, a gente não se sente representada por um ator cis. A gente entende que o ator é livre para interpretar…mas, enquanto a gente está conquistando o nosso espaço, a representatividade é uma coisa que importa sim.

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AM – Já que você tocou nesse assunto de representatividade, eu queria abordar também a visibilidade. Você acredita que tivemos avanços com essas duas coisas?

Eu acho que a visibilidade a gente já está conquistando, apesar que, muitas vezes, há muita matéria escrita, por alguns repórteres, que tratam as travestis no masculino. Teve evolução mas tem muito ainda que avançar. A visibilidade já está aí. Muitas pessoas querem fazer trabalho com as trans porque está na moda. Muitas pessoas querem fazer porque acreditam numa transformação, numa melhora. Já a representatividade está faltando. Há um longo caminho para ser conquistado.

AM – E qual a maior lição que a gente pode tirar da sua peça?

DV – A maior lição da minha peça é humanizar a travesti, porque acho que a maioria das pessoas não tem a chance de ter esse contato. Acredito que muitas pessoas não são preconceituosa, acabam sendo por falta de conhecimento. Existem pessoas que aceitam ser desconstruídas. Por exemplo, uma pessoa que me trata no masculino, eu vou falar pra ela me tratar no feminino.

A partir do momento que ela aceita que quer se desconstruir, acho que é válido. Não me ofende se a pessoa me pergunta como ela deve me tratar. Me ofende quando eu falo com a pessoa e ela não aceita ser desconstruída. A maior mensagem da minha peça é isso, poder mostrar a realidade de uma travesti, que ainda tem muitas coisas urgentes, como a busca pelo emprego formal, a expectativa de vida, a violência. Se uso uma saia, a vida é minha. E as pessoas não percebem isso. É mostrar que a travesti antes de qualquer coisa é um ser humano e que merece respeito. E que a pessoa tem a chance de entrar no mundo da travesti e perceber o que se passa.

AM – E se não fosse o teatro, a Dandara seria o quê?

DV – (Pausa)…Se eu não puder ser paquita (rs)…bem, se não fosse o teatro, eu seria professora!

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Foto: João Maciel

*Átila Moreno é jornalista, com passagem pela TV Globo Minas, TV UFMG, Infoglobo e Universidade Corporativa do Transporte. É editor-chefe de conteúdo deste blog e escreve mensalmente para a Flesh-Mag.

Festival TransArte

Evento gratuito. Até 22/10/2016.

Centro de Artes Calouste Gulbenkian – Rua Benedicto Hipólito, 125, Rio de Janeiro

Acompanhe a programação no evento do Facebook: https://www.facebook.com/events/1600654200231610/.